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Musical mergulha na vida de Gal Costa como porta-voz e força política da Tropicália

Em cartaz em São Paulo até 10 de maio, o espetáculo “Gal Costa – O Musical” mergulha profundamente na trajetória de uma das maiores vozes do Brasil, mas foge do óbvio. Sob a direção de Marília Toledo e Kleber Montanheiro e com a atriz Walerie Gondim na pele de Gal Costa (1945-2022), a montagem deixa de lado a estrutura biográfica tradicional para investigar o psicológico da artista e seu papel fundamental — e muitas vezes silenciado — como porta-voz do movimento cultural brasileiro de vanguarda Tropicália (1967).

Em entrevista exclusiva à IstoÉ Gente, Marília Toledo detalha o processo de criação que transformou a vida da veterana dos palcos em uma “Jornada da Heroína”, recheada de misticismo, feminismo e resistência política. Para a diretora, a pesquisa iniciada em 2024 revelou uma Gal que ia muito além da intérprete dócil. Baseando-se em estudos sobre a Tropicália, a diretora destaca que Gal foi a peça fundamental para que o movimento ganhasse o mundo.

“Sem a voz dela, sem as interpretações da Gal, talvez o alcance não tivesse chegado onde chegou. O Caetano [Veloso] fala muito sobre isso, o quanto a Gal é uma co-autora. […] Tem muito isso no espetáculo: o quanto a voz da Gal era a arma dela.”

Essa postura de vanguarda também se manifestava no corpo e na moda. Marília relembra episódios de hostilidade que a cantora enfrentava por simplesmente ser quem era: “Ela era chamada de suja, de violenta na rua, por causa do Black Power, da maneira de se vestir. Ela tinha uma atitude toda que era muito à frente, e extremamente feminista.”

Atriz Walerie Gondim, que interpreta Gal Costa em musical – Reprodução/Instagram

Gal Costa fragmentada

Uma das maiores inovações do espetáculo é sua estrutura narrativa. Inspirada pela psicologia analítica e pelo livro “A Jornada da Heroína”, de Maureen Murdoch, a dramaturgia acontece dentro da cabeça de Gal. A artista é apresentada em cena acompanhada por três figuras míticas que representam facetas de seu inconsciente:

“A gente deu esse final poético para a Gal. As músicas têm a função totalmente dramatúrgica. Não existe nenhuma canção ali que está fora do contexto dramatúrgico. Não é cantar por cantar”, explica Marília.

O axé e a Bahia no centro do palco

A espiritualidade é outro pilar central. Devota do Candomblé e filha de Obá Luaiê, Gal tinha na figura de Mãe Menininha do Gantois um norte espiritual. Para honrar essa raiz, a produção fez questão de buscar o elenco em Salvador.

“Eu fiz questão de começar por Salvador, porque eu queria os doces bárbaros baianos. […] É um espetáculo extremamente espiritualizado. O Candomblé está muito, o terreiro está presente no musical do começo ao fim”, pontua.

Inspiração, não imitação

A escolha de Walerie Gondim para viver Gal foi pautada pela essência. Marília, que já dirigiu musicais sobre Silvio Santos e Ney Matogrosso, reforça que o objetivo nunca é a imitação pura. “Eu sempre falo para eles que eu detesto o cover. Não é uma imitação, é uma inspiração. A Walerie já tem uma semelhança física… e de timbre também, é uma coisa muito maluca como ela remete à Gal Costa sem fazer muito esforço.”

O elenco conta ainda com a preparação de Ciro Barcelos (ex-Dzi Croquettes), que conviveu intimamente com o quarteto dos Doces Bárbaros, trazendo organicidade aos gestos de Caetano, Gil e Bethânia.

Um grito contra o patriarcado

Mais do que uma homenagem, o musical é um posicionamento político sobre o espaço da mulher na arte e na sociedade. Marília ressalta como Gal foi “massacrada” por críticos homens ao longo da carreira, sendo muitas vezes reduzida a uma sombra dos seus parceiros masculinos.

“A gente fala do quanto a Gal foi massacrada pela imprensa. Tem críticas muito cruéis, absurdas… ela nunca era só a Gal Costa. Sempre estava muito à sombra dos homens. […] É um grito ali que a gente está dando: prestem atenção. Ela era uma mulher foda e ser mulher é foda.”

Com um repertório que mistura clássicos como Baby e Festa do Interior com canções densas como “Recanto Escuro”, o musical promete não apenas matar a saudade dos fãs veteranos, mas apresentar a força de Gal para uma nova geração que, segundo Marília, já está redescobrindo a “mãe de todas as vozes”.

Gal Costa – Divulgação

Serviço

“Gal, o Musical”, de Marilia Toledo e Emilio Boechat.

Temporada: 06 de março a 10 de maio de 2026.

Horários:  Sextas-feiras, às 20h30; sábados, às 16h30 e 20h30; domingos, às 15h30 e 19h30.

Duração: 2h30 com intervalo. primeiro ato uma hora e quinze. Intervalo 15 e segundo ato uma hora.

Local: 033 Rooftop

Endereço: Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041, Itaim Bibi, São Paulo – Complexo JK Iguatemi

Classificação etária: 14 anos, menores de 14 anos acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

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