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Presidente da agência de fair play diz que ‘nunca viu clubes tão frágeis’ e comenta casos de Botafogo e Vasco

Por Redação Juruá em Tempo.13 de abril de 20268 Minutos de Leitura
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Após a invasão das casas de apostas, investimento estrangeiro em SAFs, o aumento de receitas com direitos de transmissões e discussões sobre ligas, o futebol brasileiro, enfim, viu nascer um regulamento sobre fair play financeiro. E um dos responsáveis foi o mestre e doutor em economia Caio Resende. Diretor da CBF Academy e com experiência no setor de regulação, ele virou presidente da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), órgão autônomo responsável por fiscalizar as finanças dos clubes. No “Toca e Passa”, videocast do GLOBO disponível no YouTube e nas plataformas de áudio, Caio falou sobre a implementação do sistema no Brasil, detalhou o cenário encontrado nos clubes e comentou as polêmicas envolvendo as SAFs de Vasco e Botafogo.

Como um economista caiu no meio do futebol e para trabalhar com fair play financeiro?

Eu sou formado em relações internacionais, mas tenho mestrado e doutorado em economia e trabalhei muito tempo com regulação de infraestrutura. Desde 2024 sou diretor da CBF Academy. E fair play financeiro nada mais é do que regulação aplicada no futebol. Comecei a estudar e vi que tinha pouca literatura sobre o tema. Até lá fora é difícil encontrar. Esse esforço culminou com o lançamento do livro (“Fair play financeiro: um manual sobre o jogo nos bastidores do futebol”).

Quais principais atividades da ANRESF?

A ANRESF surgiu junto com o regulamento do fair play. Uma ação que considero muito correta e corajosa da CBF, de lançar um órgão independente e autônomo. A ANRESF é a guardiã do sistema de fair play financeiro. É responsável por fiscalizar o clube, aplicar o regulamento, e, eventualmente, sancionar um clube que o descumpra.

E como funciona esse colegiado? O que pode acontecer depois?

Somos sete diretores divididos em duas turmas, com três diretores em cada uma delas. Eu, como presidente, só participo da segunda instância, no plenário. É uma estrutura com duplo grau de jurisdição. Caso um clube seja sancionado na primeira turma, ele pode recorrer. A decisão do plenário é definitiva. Não é passível de recurso em instância do futebol.

Como foi para tirar esse projeto do papel na CBF? Viu alguma resistência interna?

Já é a terceira vez que a CBF tenta implementar um sistema de sustentabilidade financeira. Eu não participei das outras duas, mas conheço pessoas que estiveram nas três e que narram que o ambiente no passado foi muito hostil. As tentativas anteriores fracassaram por resistência dos próprios clubes. A CBF tomou uma decisão feliz de não impor um regulamento de cima para baixo. Um grupo de trabalho foi criado com a participação de 34 dos 40 clubes das séries A e B. Trouxemos representantes de fora, discutimos as propostas por quatro meses. Foi um texto final de consenso. Vi um ambiente favorável.

Dá para garantir essa independência da CBF?

A CBF deu todos os instrumentos para nós agirmos de forma independente. Independência se constrói também por meio de trabalho, de credibilidade. Foi dado mais instrumentos do que a qualquer órgão de fair play no mundo para que a agência atuasse de forma autônoma. Nós temos um regulamento, temos mandato, condições que podemos ser afastados e não temos previsão de revisão das nossas decisões. Pressões sempre vão existir. Cabe as pessoas resistirem.

Mas tem algum risco de judicialização? Vocês temem isso?

Risco de judicialização sempre existe. Mas estamos confiantes. O regulamento do fair play é um regulamento adminstrativo, que emana da condição da CBF de organizadora da competição. O que fazemos é colocar uma série de condições aos clubes que querem participar das competições da CBF. O regulamento hoje vale para as Séries A e B.

Hoje vemos clubes com dívidas estrondosas, mas que seguem gastando nas janelas. O que a agência pode fazer nesse ponto?

O nosso regulamento prevê um período de transição para dívidas antigas em atraso. Qualquer dívida anterior a 1º de janeiro desse ano, o clube terá um ano para resolver. Eles têm até 30 de novembro desse ano para regularizar todo o passivo que têm em atraso. Pode renogociar com o credor, reparcelar, pode ser paga. Mas não pode ser uma dívida em aberto. Agora, para qualquer transação realizada a partir de 1º de janeiro desse ano não tem mais prazo de transição. Se o clube comprou um jogador em fevereiro desse ano e não pagou a parcela de maio, já está sujeito a todas as sanções previstas no regulamento. Identificamos 64 transações de clubes de séries A e B nesse início de ano. Dessas 64 transações, já temos as informações financeiras dos contratos. Qualquer atraso no pagamento dessas obrigações já pode ser denunciado para a agência. E isso vai gerar um processo sancionador para o clube.

Quais as sanções previstas no regulamento de fair play?

Começa desde as sanções mais leves, advertência, multa, retenção de receita, até a restrição a inscrição de atletas, o famoso transfer ban, a dedução de pontos, rebaixamento e perda de licença do clube. Tem desde sanções bem mais leves até sanções mais pesadas. Quando a gente olha a experiência internacional, em geral existe um processo educativo. Você não começa aplicando um rebaixamento, dedução de pontos nos primeiros anos. As sanções vão ser mais leves.

Pelo que já foi possível ver da situação financeira dos clubes, como você avalia o cenário do futebol brasileiro?

É uma situação muito preocupante. O futebol brasileiro teve um boom de receitas nos últimos dois anos. As receitas dos clubes cresceram 35%. Poucos setores da economia crescem como clube de futebol no Brasil. O que esperaria? Clubes mais sólidos, financeiramente mais robustos. Os gastos aumentaram 40%. Mas mais do que isso. O investimento em contratação aumentou 140%. A dívida dos clubes com contratações mais do que dobrou em dois anos. O cenário que a gente tem é: os clubes nunca arrecadaram tanto e nunca tiveram tão endividados. A dívida dos clubes que era de R$ 7, 8 bilhões em 2022 saltou para quase R$ 14 bilhões. As receitas cresceram 35%, e o endividamento cresceu quase 80%. Mesmo com todo esse fluxo de receitas no futebol, a gente nunca teve clubes de futebol tão frágeis financeiramente falando. E isso com dados até 2024, que é o que temos acesso. A gente sabe que em 2025 a tendência é que a situação esteja ainda pior.

Caio Resende é o convidado do Toca e Passa — Foto: Reprodução
Caio Resende é o convidado do Toca e Passa — Foto: Reprodução

Como vocês têm tratado esse tema da possível venda da SAF do Vasco para o empresário Marcos Lamacchia, enteado da Leila Pereira, presidente do Palmeiras?

Nem posso falar muito de um caso que pode vir a ser julgado pela agência. Vou explicar como funcionam as regras de multipropriedade. A ideia é que uma pessoa ou um grupo não possa controlar dois clubes numa mesma competição, isso pode gerar várias dúvidas quanto a integridade dessa competição, a credibilidade. O que o regulamento fez foi trazer regras nesse sentido. Há uma previsão no regulamento da agência de em até 30 dias depois de qualquer mudança societária essa operação tem que ser informada para a agência, que vai analisar qualquer problema com elas. A gente não tem atuação preventiva. Se for constatado um conflito de multipropriedade, a agência pode falar que esse regulamento não está sendo cumprido e você precisa desfazer essa operação. O regulamento dá esse poder para a gente.

Como a agência vê a situação de investidores que colocam muito dinheiro e depois não colocam mais?

O regulamento do fair play financeiro é um grande instrumento de proteção dos clubes brasileiros. Entende-se que o clube é um ativo da sociedade brasileira, representa identidade de um bairro, cidade. O regulamento diz que isso é tão valioso para a sociedade que quem vier aqui administrar um clube, vai ter que seguir regras para garantir a sustentabilidade do clube a médio e longo prazo. Se um proprietário vem e compra um clube e parte para uma estratégia de crescimento baseado em endividamento excessivo, “vou endividar muito o clube para crescer rápido”, não, não vai. Isso é proibido pelo regulamento. Entendemos que isso coloca em risco a sustentabilidade do clube. Se um dono vier e quiser colocar muito dinheiro no clube, a gente não tem qualquer restrição ao aporte de capital, desde que esse aporte venha na forma de aumento de patrimônio líquido. O dinheiro tem que vir para ficar no clube. Temos um conjunto de regras para garantir que determinados tipos de comportamentos não sejam aplicados em clubes de futebol.

E os exemplos de redes multiclubes e o investimento que vem de um clube da mesma rede para outro?

Acho que isso é um ponto que mostra como fez falta no Brasil, no passado, um regulamento de sustentabilidade financeira. Por exemplo, você está hoje numa estrutura multiclubes, em que tenho alguns clubes que estão dentro de um país que tem sistema de sustentabilidade financeira e eu tenho um clube que está dentro do país que não tem. Então, para eu atingir as regras aqui, a gente vai jogar meu dinheiro do clube do Brasil para lá, porque se eu tiver muito prejuízo aqui no Brasil, ninguém vai se importar, porque não tem nenhum regulador olhando. Mas lá fora tem um regulador olhando. Então mando meus ativos para lá, mando o dinheiro para lá para garantir que estou atingindo as regras, mas isso naturalmente prejudica o clube brasileiro. Então, o clube brasileiro fica com um grande déficit no balanço, porque antes não tinha ninguém olhando e ninguém falando “você não pode fazer isso”. Agora tem.

Por: O Globo.
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