O Juruá Em Tempo

Roberto Carlos faz 85 anos; a história sentimental de um país

São tantas emoções, tantas cavalgadas, e em homenagem aos 85 anos de Roberto Carlos aqui vai esta nossa canção – digo, esta falsa crônica costurada com a força estranha das letras que ele compôs ou deu voz. Não é sobre um cantor, é a história sentimental de um país. Não é um texto, é uma playlist. Não leia – cante junto.

Se você foi toda a felicidade na vida de alguém ou a maldade que a outrem só fez bem; se você confundiu o melhor dos planos com o maior dos enganos – junte-se a mim e a outros 200 milhões de iguais. Chegou a hora de, em louvor aos botões das blusas desabotoados e na glória dos lençóis macios amassados, cantar este parabéns àquele que nos explica.

Ao lado de Lady Laura, Roberto Carlos recebe de Chacrinha o título de Rei da Juventude, em 1966 — Foto: Reprodução/arquivo

Nesse mundo desamante, com guerra por todos os lados, Roberto Carlos ensina há várias gerações, em mais de 1100 gravações, que tudo em volta pode estar deserto, todos podem estar surdos ou com o calhambeque na contramão dos bons propósitos. Não importa. É preciso saber viver, ter um milhão de amigos e, por Nossa Senhora!, por Lady Laura!, não se deixar levar por um papo que já não deu. Bom mesmo é ser feliz, ser o sol que entra no quarto dela adentro, e mais nada.

Em mais de 60 álbuns de estúdio, seja você um lobo mau ou uma garota papo firme, a todos Roberto Carlos só oferece propostas em que o mal não mais existe e a vontade tão humana de mandar tudo para os quintos do inferno deixou de ser pronunciada faz tempo. Salvem as baleias, a amada amante, a toalha que desliza no corpo dela inteiro e o cachorro que sorri latindo. Um show desses, o maior cantor romântico da música brasileira, em cartaz desde o início dos anos 1960, não pode ser iluminado por um simples técnico na mesa de controle – essa luz só pode ser de Jesus.

Que tal nós nos amarmos até o amanhecer? Gozar da liberdade de uma vida sem frescura? De um amor sem preconceito que esquece o que é direito e inventa suas próprias leis?

Roberto Carlos é o último amante à moda antiga, um tipo que vem de Castro Alves – mandava flores embrulhadas na mais fina poesia – e hoje vê a garotada aviltando a espécie com a vulgaridade cafajeste do toma-toma, leva-leva. Sua obra é um salve a tudo que o amor é capaz, um splish-splash de delicadeza – “Eu te proponho não dizer nada”.

Esse cara sou eu, esse cara é você. Não à toa Caetano Veloso escreveu que Roberto Carlos é o que não pode mais se calar. É aquilo que está no fundo de cada vontade encoberta e – nas curvas da estrada de Santos, sob a nuvem branca que vai passando – alguém precisava ecoar num cântico. Ah, a garota do baile, a fera ferida, a mentira sincera, a velha calça desbotada ou qualquer outra coisa assim.

Desculpem os erros deste meu português ruim, mas definitivamente o orgulho não vale nada. Esqueça. É preciso agradecer as canções que Roberto Carlos fez para mim, para você. Com elas, com sua voz tamanha, traduziu a grande aventura nacional de chorar ou de sorrir. A crença de que estamos todos sozinhos, mas não há outro caminho – além do horizonte existe, deve existir, um lugar bonito e tranquilo para se amar em paz.

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