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‘Trabalho para ser dona do meu caminho’, diz Bella Campos

Por O Globo. 27/04/2026 09:58 Atualizado em 27/04/2026 09:58
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Bella Campos chega à redação do GLOBO com os cabelos lisos. Diante da surpresa da repórter, que a viu empoderar dezenas de mulheres a assumirem cabelos cacheados, curtos e naturais, transformando o corte da Maria de Fátima de “Vale Tudo”, da TV Globo, num hit, ela dá um fecho com bom humor: “Podemos ser muitas e fazer o que quiser, não é?”

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É isso que a atriz de 28 anos de idade e cinco de uma carreira artística meteórica tem feito desde que estreou na pele da Muda da novela “Pantanal”: não deixar que a coloquem em caixas. O poder de escolha é o que mais valoriza dentro do sucesso. Tanto que acabou de tosar completamente as madeixas.

Bella também escolhe agora o cinema. Em cartaz com “Cinco tipos de medo”, filme de Bruno Bini que levou quatro Kikitos no último Festival de Gramado, ela integra o elenco do inédito “Por um fio”, de David Schurmann, e finaliza a “A estranha na cama”, thriller erótico em que protagoniza cenas quentes com Paolla Oliveira e Emilio Dantas. Bella Campos participou do “Conversa vai, conversa vem”, videocast do GLOBO que vai ao ar hoje, às 18h, no YouTube e Spotify. Leia trechos da entrevista:

Bella Campos e Maria Fortuna na redação de OGLOBO — Foto: Ana Branco

A enfermeira Marlene, sua personagem em “Cinco tipos de medo”, vive uma relação abusiva. Qual a importância de falar sobre o tema com uma mulher salvando a si mesma?

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Com altos números de feminicídio, violência contra a mulher e discursos red pill, é importante mostrar à mulher que existem saídas como conhecimento e educação financeira. Mas é preciso olhar para a estrutura pública. Mulheres ficam presas na realidade de não conseguir pegar um ônibus. Não adianta dizer que ela tem força e não dar condições para que realize as mudanças. Marlene é espelho que reflete o que é ser uma mulher nessa estrutura.

O longa cita os medos como a solidão, ficar sem dinheiro, morrer. O que te mete medo?

Não ter poder de escolha. Trabalho para ser dona do meu caminho. Não aceito o que me limita na expressão de quem eu sou. Existem regras e concessões, mas tentativas de cerceamento passam por misoginia e racismo, são ditadoras do lugar onde acreditam que devamos pertencer. Caminho para quebrar paredes e ocupar o lugar que acho que devo ocupar. E existe uma pressa horrorosa, né? Comprei meu apartamento e já dizem: “Devia ter uma mansão.” Gente! Estou conhecendo o mundo e gastando meu dinheiro em viagem.

Foi cobrada a morar numa mansão?

Cobrada num todo. Parece que, a partir do momento em que se torna atriz global, existe um manual de comportamento, de que roupa vestir. Hoje estou chiquérrima, mas tem momentos em que quero estar com minha roupinha fast fashion.

De chinelo, tomando cerveja em copo americano na Lapa, como mostra nas redes…

Quero estar onde quiser, vestindo o que quiser. Quando tinha tempo, não tinha dinheiro, agora que tenho dinheiro, muitas vezes não tenho tempo. Fui colocada em caixas a vida inteira por questões de sobrevivência. Agora que tenho meus investimentos, a carreira andando bem, me dou esse direito. Se não, não faz sentido. Se tiver que performar 24 horas, é como se ainda estivesse numa prisão, não tivesse vencido. Sucesso é poder decidir o que vou fazer, com quem vou estar, o que vou falar ou deixar de falar. Quando me posiciono, falam: “Vai ficar na geladeira.” Não tenho medo, porque vou construir um universo inteiro dentro dessa geladeira (risos).

Bella Campos — Foto: Ana Branco

Em algum momento achou que foi longe demais com seus posicionamentos?

Tive que ser estratégica, mas entendi que em qualquer ambiente onde a misoginia estiver querendo tomar conta, vou me posicionar. Meu caminho foi árduo, ninguém me deu nada de mão beijada.

Como foi virar de vitrine a vidraça com as críticas por sua Maria de Fátima?

Pode ser porque estou fazendo muita terapia e me constituindo, mas não me afetou tanto. Eu mesma me dou a liberdade de errar. Sei que não tive acesso às melhores escolas de atuação, mas estou aqui na cara e na coragem. Para mim, não existe nada mais corajoso do que ter estreado numa novela das nove sem nunca ter feito nenhum trabalho antes, ter aceitado o papel da Maria de Fátima, quando todo mundo dizia que não era para eu fazer. Me dou um abraço tão forte por eu ter feito, sabe? Depois virei o jogo. Maria de Fátima foi querida. Muitas mulheres fizeram o “Mary Faty hair”, o cabelo de Maria de Fátima

O que mostra como fracasso e sucesso andam juntos.

A vida tem prazo pra acabar. Tem hora que a gente frita a cabeça: “Ai, agora não vou fazer a Maria de Fátima porque no X tão falando que não tenho que fazer.” Sinceramente… daqui a pouco, um carro pode me atropelar. O X só existe enquanto estamos mexendo no celular. Na hora em que você desliga o telefone, adivinha… acaba, sabia? Olha que coisa mágica! Temos o poder de não acessar. Na hora em que estou sentada no bar, bebendo a minha cerveja, não vem ninguém falar “ai, nossa, acho que você não devia fazer”. Pelo contrário. É um monte de gente dizendo: “Caramba, estou adorando assistir.” Nunca encontrei alguém que fosse tão cruel comigo pessoalmente como é digitalmente. A partir do momento que uma pessoa só consegue ser cruel on-line precisa de ajuda. Criticar é uma coisa, ser cruel, machucar… Pelo amor de Deus! Tem terapia on-line.

‘Se não tivesse estratégia, ia para o ralo’, diz Bella Campos sobre dinheiro

Bella Campos — Foto: Ana Branco

Em cinco anos você foi de balconista de um café a protagonista de novela. Como fica a cabeça no meio disso?

Tive depressão na época de “Vai na fé”. Não estava preparada para o volume de trabalho. Fiquei anestesiada. Não conseguia sentir felicidade, raiva, tristeza, comer. Ficar com a família foi essencial. Terapia virou fundamental.

Que questões está trabalhando agora? Tinha dois anos quando sua mãe se mudou para a Itália em busca de trabalho. O.k., há a necessidade, mas deve ter sido um vazio danado…

Estou encontrando esse buraco. Sempre falei: “Minha mãe foi incrível, foi lá, fez e aconteceu.” Ao encontrar, internamente, minha criança, ela me falou: “Mona, não está tudo bem.” Ela sentiu um abandono imenso, que fez com que me constituísse nesta mulher autossuficiente, que dá conta, se defende, se posiciona. Mas existe um limbo de sentimentos aprisionados. É importante que a gente expresse nossa raiva. Esse direito tem que ser dado, inclusive, a mulheres. Ao demonstrarmos insatisfação, somos estereotipadas, quando, na verdade, sabemos que não é a gente que causa guerras, que está matando homens como eles nos matam.

Muito pequena, teve que cuidar da sua avó. Precisou amadurecer muito cedo, né?

Sim. Não tive infância nem adolescência. A autossuficiência ficou pesada. Ainda mais agora com as demandas da carreira. Monto meu look, me maquio, vou dirigindo sozinha, faço minha comida. De repente, pensei: “Por que tô fazendo tudo sozinha? Posso pedir ajuda.” Tô aprendendo, mas amo ser autossuficiente, porque, na hora em que o calo aperta, tenho é a mim mesma.

Como foi a construção da sua autoestima? O cabelo crespo foi uma questão?

Sim. As mulheres ao meu redor alisavam o cabelo. Comecei a alisar e, quando chegava na escola, diziam: “Seu cabelo está muito mais bonito.” Depois, vieram blogueiras falando dos cacheados e comecei a fazer a transição. Estou feliz. Hoje, minha irmã de 15 anos tem o cabelo cacheadão enorme. Para mim, é a maior vitória.

Qual é o poder da mulher que enxerga seu valor? O céu é o limite?

Sim. No momento em que nos sentimos seguras, a sociedade machista que constrói insegurança sobre nossos corpos se abala. Querem ocupar nossa cabeça com pressões estéticas enquanto poderíamos fazer coisas que alimentam nossa alma. Tudo para que a gente não tenha tempo de pensar politicamente. Se as mulheres são as que mais vão às urnas, como só elegemos homens na maioria? Por que não estamos debatendo sobre isso?

Você tem enorme sucesso publicitário. Há dezenas de marcas interessadas na sua comunicação com a geração Z, com quem construiu uma comunicação direta em que divide vulnerabilidades. De onde vem essa expertise?

Do instinto de sobrevivência, depois da construção da minha carreira. “Como vou agir nas entressafras? Tenho quantos meses garantidos até aqui?” Entendi cedo que, se não tivesse estratégia, não importasse quanto dinheiro botasse na mão, se não soubesse administrar, ia tudo para o ralo. Divido humanidades. Essa geração não está gostando de ser enganada, não acredita mais na perfeição. Falo como gostaria que falassem comigo.

Fatura alto a ponto de estar rica?

Sim. E pretendo ficar mais.

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