O Juruá Em Tempo

‘Casa Branca tentará interferir na eleição brasileira’, diz escritora Anne Applebaum

A historiadora e jornalista americana Anne Applebaum, de 61 anos, escreveu, nas últimas três décadas, obras centrais para entender tanto o totalitarismo soviético quanto o atual retrocesso democrático no mundo ocidental. Recebeu o Pulitzer em 2004 por “Gulag” e sublinhou um padrão no avanço autocrático, com a instrumentalização da Justiça para sufocar as oposições e facilitar o enriquecimento pessoal de autocratas e seus aliados.

Em entrevista ao GLOBO, ela estabelece paralelos alarmantes com o que agora se vê em Washington, do “assalto aos cofres públicos” pelo trumpismo à tentativa de exportação da cartilha extremista do Faça os Estados Unidos Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês), em modus operandi “semelhante ao dos bolcheviques”, com interferências diretas da Casa Branca em pleitos mundo afora, como “se verá no Brasil este ano”.

Uma das estrelas da revista The Atlantic, Applebaum bateu duro no fundo bilionário criado esta semana pelo presidente Donald Trump, com dinheiro do contribuinte americano, para indenizar aliados que alegam perseguição política durante o governo Joe Biden. O anúncio foi feito logo após determinação do governo que impediu a Receita Federal de conduzir investigações fiscais ao chefe do Executivo, seus familiares e empresas.

— É um exemplo do uso do Estado para enriquecimento próprio. A roubalheira não é apenas enorme, mas veloz — afirmou ao GLOBO.

Com o retorno às livrarias esta semana, em nova edição, de “Cortina de ferro” (Record), de 2012 — até então fora de catálogo no Brasil —, toda a obra de Applebaum agora está disponível no país. Seguem abaixo os principais trechos da entrevista, por videochamada, de Praga, na República Tcheca, onde ela conduz pesquisa para um novo livro:

A jornalista e historiadora Anne Applebaum — Foto: Elena Ternovaja

A oposição classificou o fundo de US$ 1,7 bilhão criado por Trump como um dos atos mais corruptos da História americana. Concorda?

Sim. Quando um partido, pessoa ou grupo busca capturar o Estado e tomar o controle das instituições para servir a eles mesmos, e não ao país, é só uma questão de tempo até se constatar corrupção em grande escala. O presidente controla o Departamento de Justiça e o FBI. Quando os instrumentaliza, a roubalheira não é apenas enorme, mas veloz. Esse novo fundo é um exemplo claro de uso do Estado por Trump para enriquecer seus aliados, muito provavelmente para financiar disputas eleitorais de correligionários, e certamente para recompensar cidadãos que infringiram a lei. Por isso, este é um momento singular nos quase 250 anos de História americana.

Com as pesquisas apontando o favoritismo do Partido Democrata nas eleições de novembro, quando o Congresso estará em jogo, crê que a Casa Branca, além do redesenho de distritos eleitorais, irá tentar burlar as regras para beneficiar o Partido Republicano?

Tenho certeza disso. Os EUA são comandados hoje por um presidente que tentou trapacear nas eleições de 2020, e vai fazê-lo de novo se necessário. E agora o trumpismo sabe que tem à disposição múltiplas ferramentas para tentar manipular o pleito. Em alguns estados, já buscam retirar nomes das listas de eleitores de forma arbitrária e partidarizada. Muitos governadores afirmam ter receio de que a Agência de Imigração (ICE, na sigla em inglês) seja usada pela Casa Branca no dia da eleição para coagir cidadãos de grupos que votam majoritariamente com os democratas a ficar em casa. E, claro, em caso de derrota, questionamentos legais sobre o resultado por parte dos governistas pipocarão. A oposição está se preparando para esse cenário, diante da probabilidade real de ter de atuar decisivamente no dia da votação e nos tribunais.

As instituições americanas são resilientes para evitar um cenário nebuloso durante e após a contagem dos votos?

Algumas unidades da federação estão mais preparadas do que outras e, aqui, são elas que comandam o processo eleitoral [diferentemente do Brasil, não há Justiça Eleitoral nos EUA]. Tudo vai depender de até onde o trumpismo irá. Um dado importante é que, em alguns locais, entre eles os estados-pêndulo de Arizona, Geórgia e Pensilvânia, militantes declaradamente negacionistas [propagadores da mentira de que Trump venceu Joe Biden] se movimentaram de 2020 para cá e conquistaram indicações para postos com capacidade decisória para interferir, em instâncias diversas, no pleito. Há gente em posição-chave, outros em cargos menos cruciais, mas todos se posicionaram de forma planejada e estratégica.

A Casa Branca acaba de interferir, sem sucesso, nas eleições húngaras, com o vice-presidente JD Vance participando de comícios do ultradireitista Viktor Orbán. Há possibilidade de algo similar acontecer no Brasil?

A Casa Branca tentará intervir na eleição. Há uma obsessão, em um setor desse governo, com a política brasileira, pela afinidade ideológica com o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua família. E esse quinhão irá sim usar meios políticos, de propaganda e outras iniciativas ainda não muito claras, para tentar empurrar a eleição para a direção que eles preferem. Estou pesquisando no momento justamente como o Trump 2.0 se dedica a fazer isso em escala global. Neste sentido, se assemelham aos bolcheviques.

De que modo?

Eles acreditam que o que percebem ser a revolução conservadora nos EUA só estará de fato segura com sua repetição em outros países. Isso não significa, no entanto, que eles são eficientes na tarefa. No Brasil mesmo, a principal tentativa anterior de interferência política direta saiu pela culatra, por conta da reação de Brasília aos tarifaços. O efeito foi o aumento da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As pessoas não gostam quando forasteiros interferem em seus processos democráticos. Na Hungria, elas torceram os narizes tanto para as ingerências do líder russo, Vladimir Putin, quanto para as do vice-presidente americano, J.D. Vance. As populações de cada país têm o direito, por elas conquistado, de eleições soberanas. Portanto, são os brasileiros que decidirão em outubro quem governa seu país, e as instituições locais devem se preparar para a defesa contra influências externas, algo benéfico a todos os cidadãos. E esta é uma posição centrista, legalista e apartidária.

Lançado em 2012, “Cortina de ferro” acaba de retornar às livrarias brasileiras. É inevitável não lê-lo hoje com a perspectiva do avanço autoritário desde então, na própria Europa Oriental e no mundo ocidental, nos dois lados do Atlântico…

O livro busca explicar como aqueles sistemas políticos foram completamente transformados, e o tempo histórico e as circunstâncias são, claro, diferentes das de hoje. Mas vale prestar atenção nas técnicas desenvolvidas pela União Soviética para transformar a sociedade dos países da Cortina de Ferro. Hoje, a busca de controle social não se dá exatamente do mesmo modo, mas há paralelos claros com o Trump 2.0, com o chavismo, com Orbán.

E quais são esses paralelos?

A instrumentalização da Justiça, dos serviços de inteligência, do sistema de educação, da mídia, da cultura popular e dos grupos organizados de jovens. A maior diferença é que o stalinismo usou violência em massa, e tenho a esperança de que não chegaremos a isso nos EUA. Mas o padrão de prioridades é comparável. Nesse aspecto, aliás, o paralelo é ainda maior com o que a Rússia faz hoje na Ucrânia, com campos de concentração e a prisão de policiais e oficiais ucranianos. Vou além: é tão idêntico que parece planejado. Moscou trabalha a partir de sua própria experiência passada, na era soviética.

Como avalia o momento no conflito, após as idas e vindas do governo Trump?

Este governo jamais propôs um cessar-fogo de fato. Não houve esforço sério de negociação por Washington com pressão sobre a Rússia. A guerra só acabará quando os russos entenderem ser impossível vencê-la em seus termos. E eles ainda agem como se seus objetivos fossem os mesmos dos de quando iniciaram a invasão [em fevereiro de 2022]. Eles seguem interessados na destruição da Ucrânia, na extinção de sua soberania, de sua língua e cultura. A Casa Branca, por sua vez, segue mais centrada em negociar acordos comerciais com Moscou. É ilusão avaliar que o Trump 2.0 iniciou alguma negociação substantiva para o fim do conflito. No pouco que tentou, aliás, falhou completamente.

Sair da versão mobile