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Casos de racismo no Brasil revelam invisibilização de negros na história da Argentina e do Chile

Os crescentes casos de racismo de argentinos e chilenos contra brasileiros — o mais recente envolvendo um executivo chileno contra um comissário de bordo da Latam — reacenderam um debate incômodo no Cone Sul: como países que durante décadas cultivaram a imagem de sociedades brancas e europeizadas lidam com sua própria história negra, frequentemente apagada dos livros, dos censos e da memória oficial? Nos últimos anos, pesquisadores e movimentos sociais vêm mostrando que, por trás desse imaginário, Argentina e Chile têm um passado negro mais profundo do que se tentou transmitir por gerações, e que o racismo contemporâneo não pode ser dissociado desse processo histórico de invisibilização.

Oficialmente, não se sabe ao certo quantos escravizados foram levados para o Cone Sul: não há números confiáveis sobre a escravidão no Chile, e fontes oficiais argentinas estimam que aproximadamente 70 mil negros tenham sido traficados para a região do Rio da Prata, que inclui a capital, Buenos Aires, e Montevidéu, no Uruguai. O historiador uruguaio Alex Borucki, no entanto, calcula que mais de 200 mil escravizados tenham chegado à região entre os séculos XVI e XIX, seja por via marítima ou pelo tráfico interamericano, vindos do Brasil.

Política de Estado

Mas, ainda que a porcentagem da população negra nos países tenha sido muito menor do que em outras nações latino-americanas, em cidades como Buenos Aires, os afrodescendentes chegaram a representar mais de 30% da população.

— Em partes do interior da Argentina, esse número chegou a 50%. Mas, ao longo do século XIX, começaram os processos de invisibilização da população negra. No século seguinte, difundiu-se no senso comum a ideia de que eles desapareceram por terem morrido desproporcionalmente em guerras ou que foram dizimados por doenças, como na epidemia da febre amarela — afirma a argentina Paulina Alberto, professora de Estudos Africanos e Afro-Americanos da Universidade Harvard.

O mito de uma Argentina branca nasceu no fim do século XIX, como política de Estado, durante o governo de Domingo Sarmiento, explica Juliana Kaiser, doutoranda em Gênero e Sexualidade na University College London, que pesquisa sobre raça, gênero e pobreza. A Constituição de 1853, que aboliu a escravidão no país, também incentivava a doação de terras a imigrantes europeus, especialmente italianos e espanhóis.

Obra ‘Candombe Federal, Era Rosas’, de Martín Boneo — Foto: Museu Histórico Nacional de Buenos Aires

— O branqueamento se deu de forma orquestrada. Mais de cinco milhões de europeus chegaram ao país. A pergunta sobre a raça foi retirada dos censos. Os números, registros e documentos sobre os negros desapareceram. E aquilo que não é medido não existe.

Esse processo ocorreu até com o tango, símbolo da Argentina. Em uma pesquisa sobre as origens da dança, o antropólogo Pablo Cirio encontrou o que é considerado o primeiro registro documental da palavra “tango”: um recibo datado de 11 de novembro de 1802 que menciona a compra em um “lugar de negros”. Há teorias, inclusive, que afirmam que o nome seria derivado de Xangô, patrono da música para os iorubás. Outras afirmam que a palavra é uma onomatopeia do barulho feito pelo tambor (tan-gô). O que todos coincidem é que o tango, em sua origem, é negro.

— Desde pelo menos o fim do século XVIII, a palavra tango era diretamente associada aos espaços onde os afrodescendentes se reuniam para fazer festas. Ao longo do século XIX, o termo passou a ser associado a qualquer baile de origem africana na América Latina — explica Alberto. — O tango, como o conhecemos hoje, nasceu durante o processo de europeização e embranquecimento da nossa sociedade, quando os ritmos dos negros argentinos, principalmente o candombe, passaram a incluir instrumentos europeus como pianos, violinos e flautas.

Algo similar se deu com a cueca, dança nacional do Chile, diz Marta Salgado, fundadora da ONG Oro Negro. A explicação mais popular é que se originou de uma dança criola do século XIX que misturava elementos hispano-andaluzes, indígenas e afro-americanos.

Recriação nacional

O objetivo de Sarmiento, afirma Paulina Alberto, era recriar a identidade nacional, baseada nas ideias de excepcionalismo em relação ao restante da América Latina, ou seja, fazer nascer “uma nova Argentina, que se parecesse mais com os países da Europa”, e construir uma “argentinidade racialmente homogênea”.

— Vivemos nos séculos XIX e XX um grande processo de assimilação de afrodescendentes e indígenas. As categorias intermediárias desapareceram, e pessoas antes classificadas como mestiças, mulatas ou pardas passaram a se enquadrar dentro da branquitude — diz. — Muitos negros também queriam deixar para trás a estigmatização, reivindicando uma argentinidade para além das raças.

Mulheres negras marcham no Dia Internacional da Mulher, em Santiago — Foto: Arquivo pessoal

Nas últimas décadas, no entanto, esses mitos vêm caindo por terra. No Chile e na Argentina, importantes movimentos sociais negros começaram a nascer, e pesquisadores passaram a estudar com profundidade os afro-latino-americanos, focando em conexões com outros países da região.

Criada há 26 anos, a Oro Negro foi uma das pioneiras na retomada das tradições e festividades afro no Chile. Salgado explica que muitas famílias negras foram separadas quando as atuais fronteiras entre Chile e Peru foram definidas, levando à fragmentação — e consequente enfraquecimento — de suas comunidades.

— Meu avô paterno morreu em Callao, tenho parentes em Lima e Cuzco [cidades peruanas] — conta Salgado, que vive na região de Arica, onde hoje se concentra a maioria da população afrodescendente chilena. — O país viveu 300 anos de escravidão, mas sempre nos disseram que não havia negros aqui, ou que os poucos que existiam morreram de frio. Nunca ensinaram que somos descendentes de africanos.

Marta Salgado, fundadora da ONG Oro Negro — Foto: Arquivo Pessoal

Censo tardio

A população negra só foi reconhecida no país em 2019, durante o governo de Sebastián Piñera — após uma campanha de décadas da sociedade civil. E só no censo de 2024 foi incluída pela primeira vez uma variável de identificação étnico-racial: os resultados indicam que pessoas negras, incluindo imigrantes e afrodescendentes, representam 0,9% da população, o que equivale a cerca de 174 mil pessoas. A porcentagem é similar à da Argentina, onde o censo de 2022 estimou 302 mil negros, 0,7% da população. Os números possivelmente são subestimados, segundo organizações sociais de ambos os países.

— É quase um tabu falar de raça no Chile — diz a ativista brasileira Carolina Amaral, integrante do Kilombo Negrocentricxs e doutoranda em Estudos Sociais Avançados pela Universidade Central do Chile. — Ser negro aqui tem uma carga simbólica muito forte. Por isso, muitos não se identificam, apesar de terem o fenótipo e a ascendência negra.

Amaral, que é baiana e mora no Chile há 20 anos, diz ter se sentido muito solitária nos primeiros anos no país. Foi também no Chile que ela se entendeu como negra. O fenômeno, conta, é muito comum ali, onde “imigrantes que não eram lidos como negros em seus países de origem experimentam o processo de se tornar negro”.

— Não se discute abertamente sobre negritude. Sofri bullying no colégio, meus traços eram alvo de piada e meu corpo hipersexualizado — relembra, destacando que “não se pode pensar em raça no Chile sem falar em xenofobia”. — O imaginário é tão eurocêntrico que até mesmo chilenos que têm a pele retinta são tratados com preconceito, como se fossem de fora.

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