Deputados federais destinaram ao menos R$ 4,6 milhões em emendas para empresas ligadas à produtora de “Dark Horse”, filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O que aconteceu
As emendas foram enviadas para duas entidades ligadas à dona da produtora do filme. Além de comandar a GoUp Entertainment, que produz o filme “Dark Horse”, Karina Ferreira da Gama controla o ICB (Instituto Conhecer Brasil) e a ANC (Academia Nacional de Cultura), que receberam a verba para projetos paralelos.
Em 2025, Mario Frias (PL-SP) enviou R$ 2 milhões ao ICB. Desse total, R$ 1 milhão deveria financiar um programa de empreendedorismo. O resto dos recursos foi direcionado ao projeto “Lutando pela Vida”, que previa oferecer aulas de jiu-jítsu em Pirassununga (SP).
Outros parlamentares destinaram R$ 2,6 milhões à ANC, em 2024. Reportagem do UOL revelou que Bia Kicis (PL-DF), Marcos Pollon (PL-MS), Alexandre Ramagem e Carla Zambelli enviaram a verba para a produção da série documental “Heróis Nacionais – filhos do Brasil que não se rende”, sobre a colonização do Brasil.
Os repasses entraram na mira do STF (Supremo Tribunal Federal). O ministro Flávio Dino exigiu explicações dos deputados após uma ação de Tabata Amaral (PSB-SP), que levantou a suspeita de que os recursos bancariam o filme sobre Bolsonaro. Os parlamentares negam.
Dino abriu um processo separado para analisar o caso. A decisão do ministro foi dada no âmbito de investigação sobre irregularidades em emendas parlamentares. Dino é o relator da chamada ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 854, que visa garantir transparência, rastreabilidade e moralidade na execução dos recursos.
Deputados estaduais de SP destinaram R$ 700 mil em emendas às mesmas entidades. Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que Valéria Bolsonaro (PL), Lucas Bove (PL) e Luiz Fernando (PT) mandaram recursos para a aquisição de equipamentos e projetos culturais e esportivos do ICB. Já Gil Diniz (PL) mandou emendas para apoiar a série documental da ANC.
Dificuldades na investigação
O STF tenta intimar Mario Frias desde o fim de março. Um oficial de Justiça foi ao gabinete do deputado na Câmara em três datas diferentes, mas não conseguiu encontrá-lo.
Já o governo de São Paulo, responsável pelo repasse das emendas à ANC, disse que bloqueou o pagamento das verbas para a série documental. A Secretaria Estadual de Cultura informou que a execução das emendas está suspensa por causa de restrições técnicas e pendências documentais da entidade beneficiária.
Defesa dos envolvidos
Marcos Pollon pediu o cancelamento da emenda após a cobrança do STF. Ele afirmou que a ANC não conseguiu comprovar os direitos autorais para produzir a série documental e pediu ao governo de São Paulo o redirecionamento dos recursos para um hospital de Barretos.
Bia Kicis negou qualquer irregularidade. Em manifestação enviada ao STF no dia 21 de março, a deputada afirmou que “não existe qualquer conexão” entre a emenda e o filme “Dark Horse” e reiterou que os recursos foram para a produção da série “Heróis Nacionais”. A reportagem também procurou a deputada por meio da assessoria, mas não teve resposta.
A assessoria de Mario Frias disse que os procedimentos seguiram a lei. A equipe enviou um documento da Câmara que atesta a regularidade das emendas e dos planos de trabalho.
Karina da Gama não respondeu aos contatos da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação. O UOL também tenta contato com Zambelli e Ramagem, sem sucesso. O espaço segue aberto.

