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Empresas brasileiras dão os primeiros passos no mercado de cannabis medicinal

Por Redação Juruá em Tempo.3 de maio de 20268 Minutos de Leitura
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O potencial do mercado de cannabis medicinal no Brasil é de R$ 9,5 bilhões, segundo a consultoria especializada Kaya Mind, mas segundo seu último anuário, publicado no final de 2025, o volume hoje desse mercado está longe desse potencial. Apesar da expansão de 22%, em 2024, e outros 14%, em 2025, não alcançou R$ 1 bilhão no ano passado. O número de pacientes que fazem uso da cannabis medicial é de cerca de 873 mil, mas a Kaya calculada que o potencial de pessoas que poderiam ser tratadas com a cannabis medicinal se aproxime de 7 milhões.

Esse distanciamento, no entanto, deve diminuir após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ter aprovado uma resolução que autoriza o cultivo de cannabis medicinal no Brasil por empresas habilitadas, desde que atende a critérios restritos, e que seja exclusivamente para a produção de medicamentos e outros produtos sujeitos à regulação sanitária. Na prática, a agência autoriza pesquisas no segmento de cannabis medicinal, o que abre caminhos para empresas – especialmente as farmacêuticas – apostarem em negócios nesse nicho.

Uma estatal está entre as interessadas em entrar nessa corrida. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) vê o cânhamo, a planta que dá origem à cannabis e seus derivados, com potencial para ser a nova fronteira agrícola brasileira, assim como foi com feito seu trabalho com a soja, há 50 anos.

Ainda no final de 2025, a Embrapa já havia recebido o sinal verde da Anvisa para avançar em suas pesquisas com cannabis focadas em melhoramento genético para fins medicinais e uso de suas fibras. Para além de medicamentos, as pesquisas na Embrapa pretendem encontrar a melhor produtividade da planta para outros derivados. Seu uso pode ser  como fibra, assim como o algodão, para cosmético, uso veterinário e até mesmo para recomposição de solos degradados. Quatro unidades da Embrapa espalhadas pelo país participam do projeto.

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De pesquisador a empreendedor

Com origem também no ambiente de pesquisas, as empresas do agrônomo Sérgio Barbosa Ferreira Rocha buscam aumentar o potencial de exploração. Lá em 2020, Sérgio teve a primeira autorização dada a uma pessoa física para o cultivo com fins de pesquisa. Na época, para seu mestrado em agronomia, dentro da área de fitotecnia (melhoramento de plantas, recursos genéticos e biotecnologia), na Universidade de Viçosa (MG).

Agora, Sérgio atua em três frentes de negócios. A ADWA Cannabis, com foco em pesquisas. “Uma escala de investimentos na casa de milhões”, diz. A Dugreen, voltada para insumos para o cultivo, como fertilizantes, que passa para uma fase de escalar os negócios, “buscando recursos na casa de milhares de reais”. A Cannalise, uma espécie de ‘consultoria’ ou assessoramento na parte de qualidade dos cultivos e produtos, está mais ligada aos cultivos associativos, ou domésticos, que devem crescer exponencialmente após a nova regulamentação da Anvisa.

“Embora existam caminhos, o acesso à qualidade para isso ainda é difícil. Foi uma demanda que surgiu ao longo desses anos, dentro da pesquisa tinha essa dificuldade também, de custo e tempo para as análises”, relata ele.

Já a Ease Labs tem uma origem no ambiente de negócios e foco na exploração de um mercado visto com amplo potencial pelos seus fundadores, Gustavo Palhares e Guilherme Franco, que operam como CO-CEOs da empresa desde sua fundação, há sete anos. Saíram de suas carreiras na área de Direito (M&A) e no mercado financeiro, respectivamente, para apostar, primeiramente com fitoterápicos.

Com a evolução dos negócios, passaram a se dedicar exclusivamente a produtos de cannabis medicinal, que estão na fase final de processamento no Brasil, antes de serem distribuídos para a rede farmacêutica tradicional do país. Em 2024, deram um passo já na expectativa de um ambiente regulatório mais favorável no Brasil.

Compraram a colombiana Plena, com experiência no processo de exploração de uso sanitário da cannabis. Sua referência no segmento é tamanha, que foi modelo para a Anvisa (que esteve na Colômbia para conhecer a operação) no processo da resolução de autorização no Brasil. O valor da operação não é revelado.

Cannabis
Processo de envase de medicamentos com cannabis medicinal (Divulgação/Ease Labs) (Crédito:Divulgação/Ease Labs)

Essa operação coloca a Ease Labs em um processo verticalizado na exploração do mercado de cannabis medicinal, do cultivo à rede farmacêutica. “Vamos trabalhar tanto para fins comerciais como para pesquisa. Estamos bem posicionamos para ser pioneiros no Brasil”, afirmou Gustavo à IstoÉ Dinheiro.

Na Colômbia, conta Gustavo, são mais de 500 cultivares da planta (variedades selecionadas/com melhoramento genêtico). Isso dá uma vantagem competitiva para a Ease, até porque, entre os critérios da Anvisa, está o limite de 0.3% de de THC (princípio ativo da cannabis) que as plantas podem ter no Brasil, um desafio técnico no país, uma vez que o clima por aqui tende a produzir plantas com percentual maior que esse. “O mais importante da aquisição foi assumir o know how de ter o cultivo para fins farmacêuticos. Hoje a gente detém genéticas que cumprem esse limite da Anvisa”, diz Gustavo.

Cultivo com sementes importadas

A Alko do Brasil, farmacêutica de gestão familiar no Rio de Janeiro, também apostará suas pesquisas nesse nicho. A companhia já atua com medicamentos canábicos, mas por meio de importação. Agora, contratou um agrônomo especialista para uma unidades de cannabis.

“A primeira fase desse arcabouço regulatório [em cannabis medicial], ele não era muito adequado em termos de competição de mercado. Essa nova liberação da Anvisa foi um processo longo e extremamente rígido”, afirma o agrônomo e head de Operações da Alko, Dennys Zsolt Santos.

A Alko já atua no segmento de cannabis, mas por meio de importação. Agora, está investindo – com capital próprio – na exploração do cultivo da planta para fins de pesquisa, que deve cumprir uma série de exigências da Anvisa (como segurança sanitária, controle de acesso ao local etc).

Por enquanto, o cultivo será com sementes importadas de três países: Itália, Austrália e África do Sul. A partir disso, serão feitos testes de adaptação ao solo e clima locais. A exploração do cultivo foi autorizado pela Anvisa a partir de agosto do ano passado e a agência reguladora tem atuado nas visitas técnicas para aprovação de cultivo.

“Até o final deste ano, será o piloto. Vamos fazer o desenvolvimento de ensaios de sementes certificadas no Brasil para os primeiros insumos, ver como vai se comportar e se expressar no território brasileiro, para ter uma certeza por meio de ensaios em campo e para garantir o perfil químico da planta diante de fatores agroambientais, inclusive atendendo aos critérios permitidos pela Anvisa”, conta Santos.

Por questões de segurança, o local do cultivo não é divulgado.  “Temos potencial de virar um player global”, acredita Juliana Oliveira, co-CEO da Alko do Brasil.

O que estabeleceu a nova resolução da Anvisa

No começo de fevereiro a Anvisa publicou as Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) que regulamentam a produção de cannabis com fins medicinais no Brasil, além do novo marco regulatório para a fabricação e importação de produtos de cannabis.

As três resoluções atendem à determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em novembro de 2024, a Corte definiu a legalidade da produção “para fins exclusivamente medicinais e/ou farmacêuticos atrelados à proteção do direito à saúde”. As normas publicadas entram em vigor seis meses após a publicação, ou seja, em agosto deste ano. São elas:

  • RDC 1.013/2026: Detalha a produção, com previsão de Autorização Especial (AE) exclusivamente para pessoas jurídicas com inspeção sanitária prévia e exigência de mecanismos de rastreabilidade, controle e segurança. A norma detalha como serão feitos o controle e a segurança permanente dos locais, além de medidas de suspensão imediata das atividades, em caso de qualquer irregularidade.
  • RDC 1.012/2026 : Voltada às regras para a pesquisa sobre o tema no país, apresenta as especificações para a concessão de AE para as instituições de ensino e traça os requisitos se segurança e controle. A norma destaca, entre outros pontos, que os produtos para a pesquisa com THC acima de 0,3%, devem ser obtidos por meio de importação com autorização prévia da Anvisa e o cumprimento das exigências estabelecidas pela ONU.
  • RDC 1.014/2026: Estabelece o instrumento específico para associações de pacientes sem fins lucrativos. Essa norma também não autoriza a comercialização. O texto prevê ainda um plano de monitoramento e define indicadores e requisitos de controle de qualidade, assim como de rastreabilidade dos insumos e de produtos até a dispensação aos pacientes.
  • RDC 1.015/2026: Atualiza o marco regulatório de fabricação e importação de produtos de cannabis instituído pela RDC 327/2019. Entre os principais pontos está a inclusão dos pacientes que sofrem de doenças debilitantes graves, como fibromialgia e lúpus, no rol de pessoas autorizadas a fazerem uso medicinal de produtos à base de canabis com concentração de THC (tetrahidrocanabinol) acima de 0,2%. Além disso, foram ampliadas as formas de administração dos produtos com autorização para o uso dermatológico, sublingual, bucal e inalatório. A medida visa ampliar a adesão ao tratamento de pacientes em condições especiais.
Por: Isto É.
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