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Flávio Bolsonaro deve usar medida de Trump como armadilha eleitoral para Lula

Com a campanha presidencial nas cordas desde a revelação de suas negociações milionárias e nebulosas com Daniel Vorcaro há duas semanas, Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu nesta quinta-feira (28) uma vitória que poderá servir de armadilha para o presidente Lula durante todo o processo eleitoral: a decisão do governo Donald Trump de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.

Sem contar que, como perdeu a oportunidade de tomar a frente do debate da segurança pública na corrida eleitoral, depois da ofensiva de Trump agora capitalizada pelos Bolsonaro, qualquer medida na área soará como uma postura defensiva ou, ainda, oportunista com a proximidade da disputa presidencial.

Não é por outra razão que o Palácio do Planalto vem demorando a responder oficialmente a Trump a não ser a necessidade de planejar com cautela o próximo movimento para evitar ser acusado de proteger o PCC e o CV, como mostrou O GLOBO.

Flávio não perdeu tempo e, logo após o anúncio oficial pelo Departamento de Estado americano, divulgou nas redes sociais um vídeo no qual diz que em apenas uma visita à Casa Branca sem a condição de chefe de Estado “fez mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que o PT e o Lula em seus 17 anos de mandato”.

Com isso, ganhou um fôlego após duas semanas de intenso desgaste político por conta do caso “Dark Horse” e a mal explicada negociação de R$ 134 milhões para o filme sobre Jair Bolsonaro com o dono do Banco Master.

Embora a proposta de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas já venha de gestões anteriores e esteja sendo discutida pelo governo Trump desde o início de 2025, é impossível dissociar sua adoção neste momento à visita de Flávio, que passou os últimos três dias nos Estados Unidos.

Além de uma reunião rápida com o próprio Trump, ele esteve também com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o vice-presidente, JD Vance, e divulgou uma nota dizendo ter pedido aos dois a adoção da sanção contra as facções brasileiras.

Reposicionamento

Ao mesmo tempo em que o anúncio da decisão por Rubio poucas horas após o pré-candidato chegar ao Brasil sinaliza que, mais do que um trunfo da articulação bolsonarista junto a setores do governo Trump, a classificação do CV e do PCC como organizações criminosas fez parte de um movimento mais amplo de reposicionamento do governo americano em relação ao Brasil, de olho na eleição.

Já por parte do bolsonarismo o cálculo político é objetivo: segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada no dia 13 a violência é o tema que mais preocupa os eleitores. O problema foi citado por 31% dos entrevistados, bem à frente de assuntos como corrupção (18%), em alta por conta do escândalo do Banco Master, problemas sociais (15%), saúde e economia (12%) e educação (6%).

O tema da segurança pública é um calcanhar de Aquiles para a esquerda há anos, mas a direita já havia detectado fumaça na última ocasião em que o governo Lula se viu emparedado pelo tema, nos dias seguintes à operação nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio, que deixou 121 mortos.

Desde então, o Palácio do Planalto e o Ministério da Justiça aceleraram a tramitação de dois projetos-chave para garantir ao governo bandeiras a serem defendidas no período eleitoral: a Lei Antifacção, que endureceu o combate a grupos como o CV e o PCC, hoje na mira dos EUA, e a PEC da Segurança Pública, que repactua o papel dos entes federativos e amplia o poder da União na área.

Mesmo desidratadas pela oposição, o governo e o PT vinham trabalhando nas redes para consolidar a percepção de que a gestão de Lula fez seu trabalho. Acenando para um eventual quarto mandato, pleiteado pelo petista nas urnas em outubro, Lula voltou a falar nas últimas semanas em recriar o Ministério da Segurança Pública, promessa de campanha de 2022 vetada por Flávio Dino na transição e esquecida nos escaninhos do Planalto.

No último sábado, durante uma agenda na Fiocruz, no Rio de Janeiro, Lula deu como praticamente certo o desmembramento da pasta da Justiça. Ao lado do governador interino do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, atacou o domínio de territórios do estado por facções e disse que o novo ministério seria criado após o Senado Federal aprovar a PEC, o que depende do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

“Nós aprovamos a lei antifacção, a PEC do crime organizado, e estou esperando o Senado aprovar a PEC da segurança para criar o Ministério da Segurança Pública para a gente poder enfrentar de fato [o crime organizado]. Porque tem que definir qual é o papel da União. Pela Constituição de 1988, a União não tem muito papel na segurança”, afirmou o petista.

aprovação da proposta de emenda à Constituição junto da apreciação do fim da escala 6×1, aprovado pela Câmara dos Deputados, a criação de um novo ministério soaria como uma resposta casuística à articulação de Flávio e à ordem de Trump.

Será difícil convencer o eleitorado de que o presidente ressuscitou uma promessa de 2022 às vésperas do período eleitoral por qualquer outro motivo. A oposição, empoderada pelo êxito de Flávio em seu périplo pela Casa Branca, certamente acusará o governo de oportunismo, mesmo que a medida já estivesse em discussão antes do canetaço de Marco Rubio.

Efeito rebote

Por outro lado, a celebração bolsonarista em torno da ofensiva de Washington contra as facções brasileiras pode respingar na própria direita. Nos próximos dias, a Faria Lima e os grandes bancos estudarão minuciosamente como a nova política americana poderá impactar a economia brasileira e os negócios com o exterior. Um efeito rebote como no caso do tarifaço de Trump não pode ser descartado.

Na seara política e policial, por sua vez, o trunfo também pode se revelar uma faca de dois gumes. Inicialmente escolhido candidato da direita ao governo, o agora ex-presidente da Assembleia Legislativa Rodrigo Bacellar está preso suspeito de envolvimento com o Comando Vermelho. Na gestão de Cláudio Castro (PL), ex-secretários também são suspeitos de manter relação próxima com o CV, enquanto a PF investiga o loteamento de cargos na Secretaria de Educação para líderes de outra facção do estado.

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