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Golpes em compras online crescem 15%: por que os ataques ficaram mais ‘baratos’?

O Índice de Fraude da Equifax Boa Vista captou um aumento de 15,5% nas tentativas de golpe em abril, comparado ao mesmo mês do ano passado, e avanço de 10,8%, se comparado a março. Mas o valor médio dos golpes, que antes era de R$ 1,8 mil, agora é de R$ 814.

Os dados também indicam que 1,44% das transações analisadas em abril apresentaram indícios de fraude e, na comparação com março, o volume de casos suspeitos avançou 10,8%, passando de 19,5 milhões para 21,6 milhões.

Apesar do acréscimo na quantidade de tentativas, o montante financeiro total das transações suspeitas recuou 0,6% na variação mensal, somando R$ 10,406 bilhões. O índice da companhia analisou mais de 40 milhões de transações para o levantamento de abril.

A retração no valor médio das fraudes indica uma alteração de estratégia dos criminosos. Segundo Márcio Souza, superintendente de Operações Antifraude da Equifax BoaVista, a pulverização em tickets menores é um modo de reduzir a exposição aos mecanismos de detecção porque as operações com valores reduzidos tendem a chamar menor atenção em análises automatizadas. Com a redução do valor, as organizações criminosas passaram a priorizar o volume de transações em vez de direcionar esforços apenas para alvos de montantes elevados.

“Operações menores tendem, em alguns casos, a parecer menos suspeitas, especialmente quando o fraudador consegue simular padrões próximos ao comportamento normal do consumidor. Por isso, a pulverização das fraudes em tickets menores pode representar uma estratégia para reduzir a exposição aos mecanismos tradicionais de detecção e aumentar as chances de aprovação das operações fraudulentas”, explica Souza.

Golpistas se adaptam ao Brasil endividado

Souza explica que os infratores acompanham a dinâmica do mercado e adaptam as operações ao cenário econômico. Em períodos de maior endividamento das famílias ou de redução dos limites de crédito, as transações de menor valor apresentam probabilidade superior de aprovação. 

“Vemos um cenário em que o fraudador atua quase como uma operação de inteligência orientada por dados. Em vez de buscar apenas grandes golpes, muitas organizações criminosas passam a priorizar volume, pulverização e menor exposição, tentando permanecer abaixo dos limites de risco percebidos pelos sistemas automatizados”, diz Souza.

O superintendente destaca, também, que para o fraudador não existe crise econômica. “Ele busca sempre o maior valor em menor tempo de exposição, mas está atento às mudanças dos hábitos de consumo para se misturar e não chamar atenção”. 

Golpes no e-commerce

As infrações no ambiente digital envolvem fraude de identidade, invasão de contas, uso de cartões roubados e criação de ambientes falsos para captura de dados. Páginas na internet que simulam varejistas ainda são recorrentes, com o foco em roubar dados pessoais e bancários. 

“Eles normalmente simulam grandes varejistas, oferecem descontos muito agressivos e têm como objetivo roubar dados pessoais, bancários ou credenciais de acesso. Por fim utilizam os dados em um momento mais propício – que não precisa ser exatamente logo após terem acesso aos dados – buscando despistar evidências deixadas e contando que as vítimas – sejam varejistas ou consumidores – tenham esquecido do roubo ou mesmo tenham a impressão de que nada foi roubado”, diz.

Inteligência artificial dificulta identificar golpes

Souza conta que também observa o crescimento de golpes envolvendo phishing, falsas centrais de atendimento, links fraudulentos enviados por aplicativos de mensagem e até uso de inteligência artificial para criação de comunicações mais sofisticadas, como deep fakes de voz e mensagens automatizadas altamente personalizadas.

“A tendência é que os golpes se tornem cada vez mais convincentes e difíceis de identificar visualmente, o que aumenta a importância da educação digital e das camadas tecnológicas de proteção”, diz Souza.

Sistemas antifraude

Para conter as tentativas, os sistemas de proteção avaliam variáveis em tempo real, incluindo histórico do consumidor, dispositivo utilizado e geolocalização. 

Souza conta que as plataformas empregam inteligência artificial para detectar padrões criminosos para além da quantia financeira da compra. Durante o mês de abril, os sistemas da companhia retiveram 311,5 mil transações com confirmação de fraude, o que corresponde a R$ 253,7 milhões bloqueados.

Esses sistemas antifraude não operam apenas com base em um valor fixo de transação, segundo Souza. “Eles analisam uma combinação de variáveis comportamentais, cadastrais, transacionais e contextuais em tempo real. Entre os fatores observados estão, por exemplo, histórico do consumidor, padrão de compras, dispositivo utilizado, localização, frequência das operações, horário da transação e compatibilidade daquele comportamento com o perfil esperado daquele usuário”, diz.

Como prevenir

Para os consumidores, as medidas de proteção abrangem a utilização de cartões virtuais temporários, a ativação da autenticação em dois fatores e o acompanhamento de extratos bancários. 

A adoção de e-mails distintos para compras e serviços financeiros, a não memorização de dados de cartão nas plataformas de comércio e a limitação de permissões em aplicativos de celular completam o protocolo de prevenção, de acordo com Souza. 

Ele também sugere que o consumidor desconfie de ofertas excessivamente abaixo do preço de mercado; confira se o site possui protocolo seguro e reputação confiável; limite as permissões de aplicativos instalados no celular; use gestores de senha para evitar reutilização de credenciais; e mantenha dispositivos e aplicativos sempre atualizados.

“Outro ponto importante é evitar clicar em links enviados por mensagens, redes sociais ou SMS sem verificar a origem. Hoje, muitos golpes utilizam engenharia social sofisticada e aparência legítima para induzir o consumidor ao erro”, alerta.

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