Deolane Bezerra, presa ontem suspeita de envolvimento com o PCC, processou o Banco Itaú após sua irmã tentar sacar R$ 1 milhão em espécie e a instituição negar a operação por suspeita de irregularidade. A informação consta no inquérito que investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro para a facção. Deolane perdeu em primeira instância, mas ainda cabe recurso.
O que aconteceu
O banco negou a operação por considerá-la atípica e suspeitar de lavagem de dinheiro. Segundo o inquérito, a justificativa de Dayanne Bezerra, irmã da Deolane, foi de que ela precisava do dinheiro em espécie para comprar um imóvel.
Funcionários do banco suspeitaram que a operação pudesse configurar um ato de lavagem de capitais. A gerência da instituição ofereceu a realização de uma transferência eletrônica, que foi recusada por Dayanne.
Tentativa de saque ocorreu no dia 24 de novembro de 2023. A instituição considerou a natureza da transação, um saque de valor vultoso em papel-moeda, como fora dos padrões operacionais comuns.
O banco reagiu e concedeu um prazo de 60 dias para que a advogada encerrasse sua conta. Na época, Deolane tinha cerca de R$ 10 milhões investidos na instituição e, inconformada com o bloqueio do saque e o encerramento das contas, moveu uma ação cível contra o Itaú. As contas dela foram encerradas em 2024.
O processo movido por ela contra a instituição está em segredo de justiça, mas o UOL apurou que o banco ganhou a ação em primeira instância. O juiz que analisou o processo inicialmente e deu uma sentença favorável à instituição financeira. Ainda cabe recurso.
Apesar da citação a esse episódio no inquérito, Dayanne não foi alvo da operação ontem nem consta como investigada no documento. Além de Deolane, outros alvos da Operação Vérnix foram Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o chefe do PCC, que já cumpre pena em unidade federal, além de parentes dele. Outro alvo detido foi Everton de Souza, vulgo Player, indicado como operador financeiro da organização criminosa.
O UOL procurou a assessoria de Dayane e a defesa de Deolane sobre o episódio da tentativa de saque, mas ainda não teve retorno. Nas redes sociais, ela afirmou que a irmã é inocente e que seu foco no momento é tentar minimizar o “pesadelo” na vida da mãe e dos sobrinhos. Em relação à prisão, os advogados da influenciadora alegaram que ela é inocente e criticaram o que chamaram de “medidas desproporcionais”.
A irmã delas, Daniele Bezerra, que também é advogada, afirmou que “tentam transformar suposições em verdades e manchetes em condenações”. Em publicação nas redes sociais, ela disse que a prisão nasce de alegações “cercadas de ilações, narrativas e perseguições”.
O Banco Itaú afirmou que não comenta questões relacionadas a clientes específicos em razão do sigilo bancário. Em nota, a instituição esclareceu, contudo, que adota rígidos controles de prevenção à lavagem de dinheiro, em conformidade com a regulação vigente”.
Advogado de Marcola afirmou que o cumprimento de medidas cautelares não implica, em nenhuma hipótese, presunção de culpabilidade. “É fundamental deixar claro que estamos na fase de inquérito policial, que se apoia exclusivamente em ‘indícios’ e ‘suspeitas’, expressões que, no direito, têm peso probatório limitado e que precisam ser submetidas ao contraditório antes de qualquer conclusão. É nessa fase que os fatos serão efetivamente apurados, com pleno exercício da ampla defesa”, diz comunicado de Bruno Ferullo Rita.
Deolane foi presa ontem por suspeita de operar um esquema milionário
Deolane foi presa ontem por suspeita de operar um esquema milionário de lavagem de dinheiro para a facção. A investigação teve origem na troca de bilhetes e manuscritos ligados ao PCC apreendidos há sete anos em um presídio em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.
Bilhetes apreendidos em 2019 levaram a abertura de três inquéritos policiais. A polícia descobriu detalhes da estrutura financeira do PCC e identificou operadores financeiros da facção. As informações foram apresentadas em coletiva de imprensa realizada na tarde de hoje.
Manuscritos foram encontrados com dois presos e continham ordens internas da facção. Além disso, bilhetes também mostravam contatos com integrantes do alto escalão do PCC e referências a ações violentas contra servidores públicos. Um dos bilhetes, encontrado na cela de Gilmar Pinheiro Feitoza, o Cigano, afirmava que “aquela mulher da transportadora já entregou tudo certinho até o endereço novo do Bizzoto”, ex-diretor de uma unidade prisional alvo de plano de atentado.

Tal menção levou a polícia a investigar transportadoras próximas à penitenciária. No inquérito, as autoridades identificaram Elidiane Saldanha Lopes Lemos, sócia da Lopes Lemos Transportes Ltda. Segundo a polícia, a apuração avançou a partir dessa transportadora e descobriu que a empresa não era apenas uma prestadora de serviços, mas uma “criação da própria facção”.
Bilhetes não mencionaram o nome de Deolane diretamente. No entanto, eles foram o pontapé inicial que permitiu às autoridades chegarem até ela em fases posteriores.
Deolane foi identificada como beneficiária de vultosos valores oriundos da transportadora. Segundo os autos, ela teria recebido valores da empresa, descrita pelas autoridades como criada para operar o “branqueamento de recursos ilícitos”.
Para os investigadores, ela era um “caixa do crime organizado”. Segundo as apurações, o dinheiro do crime era depositado na conta dela para se misturar com outros valores e ser devolvido em momentos oportunos.
Fontes da Polícia Civil afirmaram que Deolane “sentiu o baque” ao descobrir que os mandados tinham relação com uma transportadora. Uma das maiores evidências de que ela tinha conhecimento da ação criminosa para a polícia é a inexistência de qualquer contrato, mesmo com a grande movimentação financeiro.
Deolane chegou na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, por volta das 12h. As informações sobre a transferência foram confirmadas ao UOL por duas fontes diferentes ligadas às secretarias de Administração Penitenciária e Segurança Pública de São Paulo.
A advogada saiu da capital paulista às 5h de hoje. A unidade prisional para qual Deolane foi enviada fica a 671 quilômetros da Penitenciária Feminina de Santana, na zona norte de São Paulo, onde ela passou a noite.