Era tarde de uma terça-feira quando o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, recebeu um alerta por mensagem: “Aí, o parceiro lá falou para trocar de número e telefone”. O objetivo do áudio, encaminhado por um comparsa, era avisar o “01” do Comando Vermelho no Complexo da Penha — uma das fortalezas da facção no Rio — de que seu celular era monitorado em investigações da Polícia Civil. O alerta foi precedido de uma foto da entrada da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) e de um recado: “Delegado voltou de férias hoje”. A conversa, que explicita que o CV obtém informações privilegiadas sobre ações das forças de segurança, é de janeiro do ano passado. E foi revelada em um inquérito da Polícia Federal que evidencia um passo ainda mais ambicioso da maior facção do Rio: o interesse em cooptar políticos com trânsito no governo.
Integrante da cúpula da organização criminosa, Doca é um dos artífices dessa estratégia, que vem sendo consolidada como peça central no movimento de expansão do Comando Vermelho. Acima dele, apontam investigações, permanece no poder um chefe histórico da facção, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, ainda que preso há 19 anos em um presídio de segurança máxima. Ambos são os primeiros personagens da série de reportagens “Os donos do crime”, que estreia hoje para mostrar quem são os criminosos que ditam a violência do tráfico, das milícias, dos bandos de matadores de aluguel e do jogo do bicho, que aterrorizam o Rio.
Em matérias, serão mostradas novas táticas adotadas por esses grupos. E em vídeos, os repórteres Rafael Soares, Roberta de Souza e Vera Araújo contam quem são 10 dos criminosos mais perigosos e influentes do estado.
Política no alvo
Doca, mostra o perfil disponível no site e nas redes sociais do GLOBO, é protegido por um séquito armado na favela e acumula mais de 300 anotações criminais. Sob suas ordens, o CV tomou mais de 40 favelas do Rio nos últimos três anos, segundo a polícia. Enquanto isso, investigações da polícia do Rio indicam que Marcinho VP usa intermediários, como advogados e familiares, para estabelecer de dentro da prisão os rumos da facção, definindo quem assume o controle de comunidades, quem é rebaixado na hierarquia do grupo e para onde vão recursos da “caixinha” do CV, uma espécie de sistema financeiro clandestino do grupo.
Eles são a face de uma organização que toma territórios em todo o país e amplia sua atuação para além do tráfico de drogas e de armas. Com fuzis para acuar adversários, o CV explora negócios da economia formal, de provedores de internet a criptomoedas. E se infiltra em redes do poder, com relações que recentemente levaram à prisão dos ex-deputados estaduais Rodrigo Bacellar e Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, que negam as acusações.
No jogo da política, a PF aponta que, em 16 de janeiro de 2025, o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, encaminhou a Doca uma foto de outro deputado, Roosevelt Barreto Barcelos (PRD), conhecido como Val Ceasa, no Palácio Guanabara, a sede do governo do Rio. Na imagem, o parlamentar aparece após uma reunião sobre o programa Segurança Presente, ao lado do então governador Cláudio Castro e dois vereadores.
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Depois de enviar a foto, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”, sem explicar a quem se referia o “dele”. Em seguida, Doca respondeu: “É, mano, esse cara tem que vir para nós”. A PF destaca que a troca de mensagens demonstra o “evidente” interesse da facção em aliciar agentes políticos para aumentar o poder do grupo, conquistar proteção institucional e exercer influência sobre decisões públicas. Segundo os investigadores, a aproximação com políticos também teria como objetivo usar esses aliados como porta-vozes indiretos, influenciando ações sociais e garantindo que iniciativas do Estado não interfiram em áreas dominadas pela facção.
Apesar de não ficar claro de quem Val seria contato, uma fonte da PF confirmou que a conversa dos criminosos remete a uma suposta aliança do político com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP), facção rival do CV. A conexão entre os dois foi tema de uma reportagem do GLOBO publicada três meses após o diálogo. A matéria mostrou que a demolição de um resort de Peixão, na Cidade Alta, Zona Norte do Rio, foi adiada por 15 meses após uma suposta articulação política envolvendo Val Ceasa.
O caso é alvo de uma investigação da Procuradoria-Geral de Justiça que tramita sob sigilo. O deputado sempre refutou as acusações. Sobre as mensagens entre Doca e Gardenal, diz que a citação “não significa, em hipótese alguma, qualquer relação pessoal, aliança ou compromisso” e que repudia tentativas de ligação da imagem dele ao crime organizado. Castro também rechaçou “qualquer tentativa de associá-lo a organizações criminosas a partir de interpretações atribuídas a diálogos de terceiros” e disse que a foto retrata uma reunião institucional no Palácio Guanabara.
Acesso a decisões
Sob a égide de Marcinho VP e Doca, porém, os olhos do CV não estão voltados apenas à política. A investigação da PF revelou também que integrantes do grupo tinham acesso indevido a decisões judiciais e documentos do Ministério Público do Rio ainda em fase de elaboração. Os arquivos, relacionados a rivais e integrantes da própria facção, foram encontrados após a análise de um backup pertencente ao policial militar Luciano da Costa Ramos Junior, que era cedido ao Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) e foi preso no ano passado
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No armazenamento em nuvem do PM, os investigadores acharam a imagem de um texto em produção sobre uma denúncia contra Peixão e a foto de uma decisão, também em fase de edição, referente à representação de medidas cautelares contra familiares de Marcinho VP e de Doca.
O documento continha endereços de mandados de busca e apreensão, o que, segundo a PF, demonstra que o policial repassava aos traficantes conteúdos “altamente sensíveis e de natureza sigilosa”.
As apurações citam ainda dezenas de casos em que traficantes alinhavavam apreensões e trocavam informações com policiais militares e civis. Em uma das conversas interceptadas, um policial identificado como “Contato Draco” agradece ao criminoso: “Informação perfeita e precisa, daqui a pouco te mando a foto da apreensão aqui”.
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De acordo com a PF, as relações funcionavam em um esquema de “benefício mútuo” entre traficantes e policiais. Os criminosos forneciam informações para que agentes atuassem contra facções rivais. Em outros casos, pagavam propina para obter detalhes sobre investigações em andamento, como na ocasião em que um policial orientou Doca a trocar de telefone em razão de um inquérito da Draco. A Polícia Civil apura o caso na Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL), num procedimento sob sigilo.
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Sobre as acusações contra Marcinho VP, sua defesa diz que todas as visitas com advogados e familiares são gravadas pela direção da penitenciária e a equipe segue segura de que provará sua inocência.
O que dizem os citados
Em nota, o deputado Val Ceasa informou que jamais teve qualquer relação com organizações criminosas ou praticou qualquer ato ilícito.
“Sou uma pessoa pública, com atuação política conhecida em todo o Estado do Rio de Janeiro, participando diariamente de agendas institucionais, eventos públicos, reuniões políticas e encontros com inúmeras pessoas e autoridades. Infelizmente, o fato de terceiros mencionarem meu nome ou desejarem proximidade política não significa, em hipótese alguma, qualquer relação pessoal, aliança ou compromisso da minha parte. Da mesma forma que criminosos muitas vezes tentam se aproximar ou citar nomes de autoridades, parlamentares, promotores, juízes, delegados e outras figuras públicas para buscar prestígio ou influência, isso jamais significará vínculo legítimo com pessoas de bem e comprometidas com a lei.
Repudio qualquer tentativa de associação indevida da minha imagem ao crime organizado. Minha trajetória pública sempre foi pautada pelo trabalho, pela transparência e pelo respeito às instituições. Quanto aos fatos mencionados em reportagens anteriores, reitero que nunca houve demonstração de qualquer conduta irregular da minha parte e permaneço à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos necessários.”
Em nota, o ex-governador Cláudio Castro afirmou que repudia qualquer tentativa de associá-lo a organizações criminosas “a partir de interpretações atribuídas a diálogos de terceiros investigados pela Polícia Federal.”
“A imagem mencionada retrata uma reunião institucional no Palácio Guanabara com um deputado da base do governo e dois vereadores da capital. Ao longo de dois mandatos, o então governador recebeu milhares de parlamentares, lideranças políticas, representantes da sociedade civil e setores econômicos do estado.
Não existe qualquer tipo de ligação do ex-governador com facções criminosas. Ao contrário: sua gestão teve como uma das principais marcas o enfrentamento firme ao Comando Vermelho e ao crime organizado, com operações integradas, investimentos recordes em Segurança Pública, fortalecimento das forças policiais, uso intensivo de inteligência e tecnologia e ações permanentes contra lideranças do tráfico.
Foi sob sua gestão, inclusive, que o Estado realizou a Operação Contenção, considerada uma das maiores ofensivas contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, além de uma atuação permanente em defesa do endurecimento das leis contra facções criminosas e da classificação desses grupos como organizações de narcoterrorismo. O ex-governador também lamenta o vazamento seletivo de investigações, prática que não contribui para o fortalecimento das instituições nem para a correta apuração dos fatos, sempre respeitando o direito à ampla defesa.”
A defesa do Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, pontuou que todas as visitas com advogados e familiares são gravadas e monitoradas em tempo real pela direção da penitenciária e pelo setor de inteligência do Senapen.
“As correspondências seguem o mesmo rigoroso controle. Desse modo, para que fosse verdade que ele se comunicasse seria necessário que agentes federais, diretores das penitenciárias e autoridades do Ministério da Justiça estivessem praticando crime de prevaricação ou de organização criminosa. O uso de seu nome como folheto eleitoreiro por parte de quem não tem nenhum compromisso com a verdade e com o devido processo legal, se utilizando do direito penal do inimigo como moeda de troca nas eleições de outubro é a repetição de uma estratégia perversa que o mantém como preso político há trinta anos. A defesa segue segura de que pela décima oitava vez provará sua inocência.”
O vereador Ulisses Marins disse que não tem qualquer ligação com pessoas envolvidas em organizações criminosas.
“Sobre a citação feita na reportagem do ano passado, nunca houve qualquer conclusão ou medida que apontasse irregularidade da minha parte. Meu trabalho sempre foi pautado pelo diálogo institucional e pela atuação pública transparente”.
Jair de Mendes afirmou, em nota, que a agenda no Palácio Guanabara foi articulada por ele em um contexto político e institucional.
“A existência de uma fotografia em ambiente público ou comentários feitos por terceiros investigados não podem ser usados para criar qualquer ilação sobre minha conduta. Não tenho qualquer envolvimento com organizações criminosas e repudio qualquer tentativa de associação da minha imagem a esse tipo de prática. Sou uma pessoa pública, conhecida no meio político e social, e naturalmente participo de reuniões, encontros e agendas com diversas autoridades, lideranças e pessoas da sociedade civil. Isso jamais pode ser confundido com vínculo ou relação com atividades ilícitas.”

