Ícone do site O Juruá Em Tempo

Os três sinais de que a delação de Vorcaro está por um fio

O rebaixamento de Daniel Vorcaro de uma sala especial para uma cela comum na Superintendência da Polícia Federal (PF) não é o único sinal de que o acordo de delação premiada do banqueiro está por um fio. Uma outra evidência de que a negociação tomou um rumo bem complicado é o fato de que o relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça, não recebe mais os advogados do dono do Master em seu gabinete.

O veto do ministro foi comunicado ao time de Vorcaro há cerca de duas semanas, depois de uma discussão ríspida entre o ministro e o advogado José Luís de Oliveira Lima, o Juca. Desde então, os despachos, antes frequentes, deram lugar a petições por escrito.

Os dois se desentenderam sobre o rumo da delação de Vorcaro, que ainda não havia sido apresentada formalmente, mas sobre a qual já se falava nos bastidores. De acordo com relatos ouvidos pela equipe da coluna, Mendonça disse que a proposta do banqueiro seria rejeitada caso escondesse fatos ou não trouxesse informações novas. Juca, então, respondeu que, nesse caso, recorreria à Turma, referindo-se à Segunda Turma do Supremo, de que o ministro faz parte e que por isso é a responsável por analisar questões referentes ao caso do Banco Master.

A resposta foi entendida por Mendonça como um desafio e uma confrontação, já que só quatro dos cinco ministros da Turma estão votando no caso Master, depois que Dias Toffoli se declarou suspeito após deixar a relatoria das investigações em fevereiro deste ano, e em caso de empate a decisão tem que ser a favor do réu.

A dedução óbvia sobre essa resposta é que, ao recorrer, Juca aposta que haveria um empate, em que Mendonça teria o apoio de Luiz Fux, enquanto Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes se manifestariam a favor da delação.

A reunião terminou em clima péssimo, mas a situação ficou pior depois que a história da discussão foi publicada pela colunista Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo — no mesmo dia em que o Estadão divulgou uma foto em que Juca aparece conversando com o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Floriano de Azevedo Marques, à mesa de um restaurante no dia em que entregou a proposta de delação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (MPF).

Azevedo foi indicado e reconduzido ao cargo pelo presidente Lula com o lobby do ministro Alexandre de Moraes, de quem é amigo pessoal há mais de 40 anos. Como Moraes é um potencial alvo delação de Vorcaro, por conta do contrato de R$ 129 milhões do Master com o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, o flagra levantou especulações de que o ministro pudesse estar tentando monitorar a delação por meio do amigo.

Já a publicação da história da briga com o advogado fez Mendonça divulgar uma nota em que afirmou não ter tido acesso ao conteúdo da delação para contestar a versão de que ele, o ministro, teria ficado insatisfeito pela falta de menções ao presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Agravaram ainda mais esse quadro as duas últimas etapas da Compliance Zero. A primeira, de busca e apreensão sobre o senador Ciro Nogueira (PP-PI), fragilizou o relato de Vorcaro, que não trazia as informações reveladas pela PF. Já a prisão sobre e o pai de Daniel Vorcaro, Henrique, teria abalado o moral da família e feito algumas pessoas próximas reconsiderarem a estratégia de defesa.

Depois que Mendonça baniu Juca dos seus despachos, alguns advogados chegaram a ser sondados para substituir os atuais e começaram a circular em Brasília boatos a respeito. Por enquanto, porém, a equipe de defesa se mantém a mesma.

É a essa equipe que a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o MPF devem dar uma resposta sobre a proposta de delação premiada. Ao que tudo indica, ela não deve ser das mais animadoras.

Sair da versão mobile