Início / Versão completa
Esporte

Praia, churrasco e até hino: como Ancelotti abraçou o Brasil em primeiro ano na Seleção

Por ge. 13/05/2026 12:04 Atualizado em 13/05/2026 12:05
Publicidade

É tradição na seleção brasileira: quando um jogador entra na lista de convocados pela primeira vez, ele passa por um ritual de batismo. Na concentração, após o jantar, precisa subir na cadeira, se apresentar perante todo o grupo e cumprir uma série de desafios, como contar uma piada ou cantar uma música.

Publicidade

Num destes trotes, na última Data Fifa, Carlo Ancelotti surpreendeu a todos que estavam ao redor. Um dos novatos da Seleção se enrolou com a letra do Hino Nacional, provocando risadas e gozações. Foi neste momento que o treinador italiano interrompeu:

– Espera aí que eu vou ensinar vocês.

E então, fingindo naturalidade, puxou o “Ouviram do Ipiranga…”. A delegação foi à loucura.

Publicidade

– Em todas as convocações nós distribuímos um manual com orientações, normas internas, e na contracapa dele tem o Hino Nacional. O mister leu uma parte da letra, mas outra ele cantou de cabeça. No final, disse que até estar melhor – conta Rodrigo Caetano, diretor de seleções masculinas da CBF.

O episódio ajuda a ilustrar como Ancelotti se esforça para se integrar ao grupo da Seleção e também à cultura brasileira.

Com a experiência de quem passou – e venceu – por clubes de diferentes países, como Alemanha, Espanha, Inglaterra e França, Ancelotti entende que essa conexão é fundamental para o sucesso de seu trabalho.

E mais do que isso: o italiano encontrou prazer nas belezas naturais e sabores brasileiros, com caminhadas na orla da praia e idas a churrascarias.

Após um longo flerte, idas e vindas, o técnico foi anunciado pela CBF há um ano. Gostou tanto que quer ficar mais: tem acordo alinhado para renovar contrato com a Seleção até a Copa de 2030.

“Intensivão” de português

Antes de mesmo de desembarcar no Brasil, Ancelotti definiu uma prioridade: aprender o idioma local o quanto antes.

Por isso, contratou um professor de português particular e, entre julho e agosto, fez quase 20 aulas por videoconferência. O foco inicial foi aprender o vocabulário específico do futebol, para se comunicar melhor em entrevistas e no dia a dia com atletas e membros da CBF.

Nos períodos em que ficou fora do Brasil, Ancelotti recorreu a um aplicativo de smartphone para reforçar o aprendizado. Nos momentos em que esteve no país, fez questão de falar em português, para praticar o idioma ao máximo. Quem tentava conversar com ele em espanhol era logo repreendido.

– Chegamos a fazer quatro aulas por semana, até mesmo de sábado. Ele queria estar bem preparado para a segunda entrevista coletiva, que foi no fim de agosto – relembrou Roberto Piantino, professor do treinador.

– O Carlo tem facilidade para aprender e já tinha uma base do português por conta da proximidade com o espanhol. Ao mesmo tempo que isso ajuda no aprendizado, atrapalha um pouco pela semelhança, que gera confusões. A língua dominante, que no caso dele era o espanhol, acaba prevalecendo em alguns momentos – comentou o professor.

Em 2026, com mais compromissos relacionados à Copa do Mundo, Ancelotti diminuiu a frequência das aulas, mas segue dedicado a melhorar o português – assim como os estrangeiros que chegaram com ele à seleção brasileira.

– A comunicação dele está mais fluída, o avanço é nítido, apesar de pontos que ele mesmo reconhece que tem mais dificuldades, que são os verbos no passado – afirmou Roberto Piantino, que descreve o aluno como dedicado, pontual e bem humorado.

Vida carioca

Neste primeiro ano à frente da seleção brasileira, Ancelotti se dividiu entre Vancouver, no Canadá, onde reside com a esposa, e a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, próximo da sede da CBF.

A experiência de viver perto da praia encantou o treinador, que escolheu um apartamento de frente para o mar.

A fama e os compromissos profissionais dificultaram, mas não impediram o italiano de desfrutar o litoral. Para não chamar a atenção, Ancelotti acordou cedo e usou boné como disfarce para algumas caminhadas na orla.

Além da natureza, a gastronomia brasileira também conquistou o treinador, que tem na culinária uma de suas maiores paixões.

– Ele é fanático por carne! Sempre pede mais selada por fora e mal passada por dentro. Também gosta de legumes na brasa e come muita salada verde. Mas o principal é a polenta. Eu achava que ele preferia a polenta cremosa, mas um dia levamos a frita e ele adorou – contou Marcio Dalloglio, gerente da churrascaria Mocellin Steakhouse, um dos restaurantes prediletos de Ancelotti no Brasil.

As refeições costumam ser acompanhadas por vinho, com moderação, mas o técnico também gostou da cerveja brasileira, à qual recorre nos dias mais quentes.

Sempre que vai à churrascaria, Ancelotti avisa com antecedência e pede a reserva de um espaço mais privativo para ele e seus acompanhantes. Ainda assim, faz questão de atender aos fãs e funcionários do restaurante, tirando fotos e distribuindo autógrafos.

– Ele parece fechado, mas é muito gente boa. Quem olha assim acha que é um cara bravo, mas o coração é gigante. Ele fala que gosta muito do Brasil e contou que curtiu conhecer nosso Carnaval. Disse que todo mundo deveria ir pelo menos uma vez na vida – relatou Marcio Dalloglio.

Uma das poucas críticas de Ancelotti em relação a gastronomia brasileira é de que as massas daqui são mais cozidas do que deveriam, em sua opinião. Como um bom italiano, ele prefere as pastas “al dente”.

O técnico também tem como hobby cozinhar e frequentemente promete preparar almoços e jantares para os amigos e colegas do futebol – embora muitas das promessas ainda não tenham sido cumpridas por falta de tempo.

Liderança tranquila

Tanto subordinados quanto superiores de Ancelotti na Seleção utilizam dos mesmos adjetivos para descrever o treinador: calmo, leve, simples, agregador.

Também tem um lado exigente com os atletas e em relação às condições de trabalho acordadas com a direção. Porém, sem pesar o clima.

– É um cara muito tranquilo, mas também muito convicto nas suas ideias. Algumas pessoas passam a ideia de que ele é o “paizão”, mas ele não é apenas isso, é muito mais. É um líder que envolve as pessoas, que ouve a todos, mas sempre se posiciona ao final. Também é um profissional que sabe delegar e que não potencializa aqueles pequenos problemas que são comuns no dia a dia – explicou Rodrigo Caetano.

– Ele está muito feliz, de bem com a vida, realizado na Seleção. No primeiro momento, quando ninguém o conhecia, a gente ficava na dúvida sobre como seria a relação, mas ele chegou com leveza e bom humor, deixando todo mundo à vontade para trabalhar. É um técnico que valoriza e escuta os profissionais de todas as áreas – relatou o médico Rodrigo Lasmar.

Velho conhecido e homem de confiança do “mister”, Casemiro também conta uma passagem marcante com Ancelotti no vestiário da Seleção:

– No jogo contra o Paraguai, em São Paulo, a gente precisava vencer para ir à Copa. E no intervalo muita gente falando, falando, falando. E aí ele: “Caras, esperem. Eu vou fumar um cigarro, volto em cinco minutos e vocês conversam.” Depois disso, ele voltou, falou e ai todo mundo: ok, ok, ok. Esse cara é diferente – relatou o volante em entrevista ao ex-jogador inglês Rio Ferdinand.

Carlo Ancelotti é fumante e já foi flagrado em camarotes de estádios brasileiros usando um dispositivo eletrônico. Não se trata, porém, de um “vape”, com líquido interno, mas de um aparelho que aquece o cigarro tradicional sem chegar à combustão. Durante os jogos, os já conhecidos chicletes mascados à beira do campo funcionam como um recurso para driblar a abstinência.

Olho no…hepta?

A rotina na Seleção, menos intensa do que nos clubes, foi algo que agradou a Ancelotti. Com mais tempo na agenda, ele se mostrou aberto a participar de discussões para desenvolvimento do futebol brasileiro, como a formação de atletas e melhorias nos campeonatos nacionais.

Também pôde estar mais perto da família. Além de Davide Ancelotti, de 36 anos, que é auxiliar da Seleção, Carlo é pai de Katia, de 41.

– Algo me surpreendeu. Papai diz que se sentiu como se tivesse voltado no tempo, para a época em que era jogador de futebol. Sua seleção inclui jogadores que atuam em algumas das maiores ligas de futebol da Europa, mas quando retornam à terra natal, sentem a força de suas raízes. Mal podem esperar para treinar, jogar, querem estar juntos. Não se levantam da mesa logo depois do almoço, não ficam presos ao celular ou ao laptop o tempo todo. Isso é algo que eles gostam – contou em entrevista ao Corriere della Sera, da Itália.

Tudo isso contou para o italiano aceitar a proposta de renovação de contrato com a CBF por mais quatro anos. O vínculo até a Copa de 2030 já está alinhado, e a expectativa é que seja anunciado até segunda-feira, quando Ancelotti estará sob olhares de todo o Brasil novamente. Às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, ele anunciará os 26 atletas escolhidos para buscar o hexacampeonato mundial.

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.