O trabalho comunitário de liofilização de frutas amazônicas, organizado pelo Instituto Flor da Floresta e executado por 50 famílias de uma cooperativa do Jordão, é finalista do 13º Prêmio Fundação BB de Tecnologia Social. Quarenta iniciativas de todo país dividirão R$ 6 milhões. Nesse montante, está incluso dinheiro e apoio a projetos para a reaplicação das tecnologias sociais vencedoras do Desafio Fundação BB 40 anos. A solenidade de entrega acontece em Brasília (DF) entre os dias 27 e 29 de maio.
O projeto do Instituto Flor da Floresta está entre os finalistas. Superou outras propostas de todo país. Mostra como é possível gerar renda à comunidade, melhorar a segurança alimentar com respeito à diversidade cultural e biológica. É um exemplo de bioeconomia que traz um diferencial: a Escola Viva.
O trabalho do Instituto Flor da Floresta alimenta a ideia de preservação do patrimônio cultural do povo do Jordão. Lideranças do povo huni kui contam aos mais jovens a força da medicina tradicional da floresta. As aulas são feitas ao ar livre. Os desenhos, sob a orientação dos pajés, já resultaram em livro. “O isolamento geográfico do Jordão dificulta o acesso a muitas coisas, mas também ajuda a preservar muitas outras”, diz o médico. Uma riqueza que ele e a esposa estão se esforçando apenas em organizar o que já estava ali e ninguém via.
Desidratação_ A liofilização é um procedimento de desidratação de alimentos. No caso específico feito no Jordão, a desidratação é feita à frio em frutas (diferente do que é feito com as fruta-passas, tipo banana-passa, uva-passa, cujo aquecimento durante o feitio compromete os aspectos nutricionais do alimento).
A forma como é feita pela Cooperativa de Beneficiamento e Liofilização de Alimentos Orgânicos Tradicionais preserva todos os nutrientes da fruta e pode ser consumida nos próximos dois anos. E detalhe: sem nenhum tipo de conservante. “Essas frutas são produzidas não é nem de forma orgânica. Vai além disso. Elas são frutas naturais. São simplesmente extraídas da natureza”, compara Pedigone. “O açaí é o carro-chefe. Mas há abacaba, patauá”.
Atualmente, cerca de 50 famílias estão integradas ao trabalho da cooperativa e no processo de liofilização das frutas.
A reunião de todo esse trabalho comunitário é organizado e mantido por meio do Instituto Flor da Floresta (Nix Huá). “O trabalho que o Instituto Flor da Floresta desenvolveu ao longo desse período já impactou a vida de mais de quatro mil pessoas”, contabiliza o médico Cesar Pedigone.
A meta do Instituto Flor da Floresta e da cooperativa é fazer com que as frutas liofilizadas sejam exportadas. Mas para isso terão que investir mais em infraestrutura. Há procedimentos sanitários exigidos para comercialização de alimentos que a Nix Huá ainda não tem condições de atender. Por enquanto, a venda acontece em feiras de Fair Trade (Comércio Justo) e Economia Solidária por diversas cidades do país.
“Ainda estamos em um processo completamente artesanal. Mas isso pode mudar com muito trabalho e apoio”, sugere o médico.
Quem coordena?
Cesar Mancilha Carvalho Pedigone é um médico com jeito de modelo fotográfico. Nascido em Franca, no interior de São Paulo, formou-se na prestigiada Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e resolveu especializar-se em Medicina Familiar e Comunitária. Há sete anos, deixou uma comunidade de caiçaras da região de Parati, no Rio de Janeiro, e decidiu se instalar no Jordão, no interior do Acre.
Junto com a esposa, Marcela Thiemi, uma jovem médica de Belo Horizonte pós-graduada em Nutrologia, percebeu uma contradição na rotina dos extrativistas e indígenas às margens do Rio Jordão.
“Aqui, há uma riqueza muito grande; há uma diversidade, inclusive alimentar, que não se encontra em qualquer canto. Mas eu percebi que essa riqueza não estava traduzida na vida dessas pessoas, muitas com fome, e consumindo alimentos que nada tinham a ver com a cultura daqui”, surpreendeu-se Pedigone. “E mais: não havia renda para essas pessoas”.
Os médicos perceberam que era preciso intervir naquele processo. E com urgência. Às margens do Rio Jordão, uma das regiões mais isoladas e preservadas do Acre, a riqueza da biodiversidade não dialogava com o consumo de suco em pó e macarrão instantâneo por parte de muitos moradores. “Era o que muitos consumiam aqui e, claro, que isso refletia na saúde deles”, lembra o médico.
Na tentativa de ajudar, Pedigone e a esposa resolveram investir na ideia de manejar óleos essenciais da região. A pouca renda que gerava para os extrativistas demonstrava que só aquilo não teria o impacto adequado. Era preciso mais. Foi nessa busca que nasceu a ideia de implantar na cidade um processo de liofilização.
Apoio
40 anos de Fundação BB pode ser “o apoio” para ampliar a liofilização no Jordão
Nos 40 anos da Fundação Banco do Brasil, o 13º Prêmio Fundação BB de Tecnologia Social pode ser o apoio que a cooperativa do Jordão precisa para ampliar a modesta linha de produção de liofilização instalada na cidade.
“Os duzentos mil para quem vencer o prêmio vai ser importante em um lugar onde a saca de cimento custa cento e quarenta reais”, afirma o médico Cesar Pedigone, do Instituto Flor da Floresta, responsável pela cooperativa que reúne 50 famílias no processo de liofilização de frutas amazônicas.
Uma equipe da Fundação BB esteve no município para avaliar a forma de trabalho do grupo. Essa avaliação será apresentada para um conjunto de jurados, especialistas nesse tipo de produção. O voto dos jurados e mais o voto popular (por meio do site www.fbb.org.br) vão escolher o projeto vencedor.

