Regina Casé sempre foi um zero à esquerda em química, física e biologia. Frequentou um colégio de freiras numa época em que mulheres eram educadas para casar. O único caminho profissional oferecido ali era o curso Normal, para se tornar professora. No entanto, a paixão pela natureza — concreta, quase fisiológica em seu corpo —, sempre a aproximou da ciência e dos mistérios da vida na Terra.
Por isso, quando começou a ouvir as conversas de Estevão Ciavatta (seu companheiro e cineasta que se debruça há mais de 20 anos sobre a Amazônia) com os cientistas Antônio Nobre e Fábio Scarano, esses dois mundos se conectaram dentro dela.
Da ignorância e curiosidade surgiram perguntas básicas e genuínas sobre o planeta, o tempo e questões ambientais urgentes. E que geraram as reflexões que agora ela, uma das maiores comunicadoras do Brasil, compartilha com toda a sua espontaneidade no espetáculo “Viva! Vida”, que estreia na próxima sexta-feira (5), no Teatro Sesc Ginástico, no Rio.
A peça, que marca a volta da parceria profissional entre Regina e Estevão desde o monólogo “Recital da onça (2019), tem texto assinado por ele, que também comanda a direção em parceria com Daniela Thomas, “espécie de terapeuta de casal”, como brinca Regina no “Conversa vai conversa vem”, que vai ao ar nesta quarta-feira (3), 18h, no Youtube e o Spotify. Confira trecho da entrevista:
‘Viva! Vida’ nasceu, então, desses altos papos…
Casei com o Estevão, e a expectativa geral era de que aquilo ia durar pouco. Ele tem 14 anos a menos que eu, que já tinha sido casada outras vezes, já tinha filho. Começamos a namorar trabalhando junto. Fizemos vários programas e, quando ele foi fazer outra coisa, estranhei. Porque o trabalho era parte importante da nossa relação. Difícil achar um cara que gostasse tanto de mato, de floresta, que adorasse árvore que nem eu. Que fosse a todas as favelas do Brasil e do mundo. Foi um encontro raro. Era um interesse pela vida na Terra que é exatamente o título dessa peça, um reencontro nosso em lugares comuns. Esse trabalho também vem para celebrar isso. É quase uma festa de 30 anos de casados. E também uma forma de levar o assunto a outros lugares e pessoas que nunca foram ou jamais irão à Amazônia… pra elas ficarem com vontade de ir.
“As pessoas dizem: ‘Salve o planeta!’. O planeta não! Ele existiu 4 bilhões de anos sem a gente. Temos é que salvar a nossa pele”, diz Regina Casé.
Junta seu amor pela natureza, com mais de 20 anos de pesquisa do Estevão sobre a Amazônia desagua numa peça com o seu poder de comunicação
Estevão fez vários filmes sobre a Amazônia. O objetivo era fazer as pessoas se apaixonarem mais do que dizer “tá tudo sendo destruído, que droga”… Da mesma maneira que eu não ia à favela pra mostrar a vala negra ou a chacina, e sim as coisas boas que existiam ali. A mesma coisa sinto em relação à Amazônia. O importante é que todo mundo entenda a beleza, a importância, a sorte de estarmos aqui nesse planeta. As pessoas dizem: “Salve o planeta!”. O planeta não! Ele existiu 4 bilhões de anos sem a gente. Temos é que salvar a nossa pele. Estevão tinha essas reuniões com cientistas para escrever esse outro filme, pegar dados. Eu ficava ouvindo. Nunca tive uma aula de química, física e biologia. Estudei em colégio de freira numa época que só tinha menina. Não sabia nada. Ficava ouvindo eles e falava: “Cara, não sabia. Jura?”. Fui ficando tão curiosa e vendo que era capaz de entender aquilo. Se eu que sou um prego em química, física e biologia, estou entendendo, acho que as pessoas vão entender. E se entenderem, vão dimensionar a importância desse troço.
A narrativa liga ciência, espiritualidade, filosofia, meio ambiente, ancestralidade, tecnologia. No meio disso, você diz verdades desconcertantes, tipo: “A nossa vida é igual de uma barata”…
É que a gente se acha, né? O ser humano se acha melhor do que qualquer coisa que tem na Terra. Bicho, planta. Trago a triste informação: “Imagina o cara que você mais detesta…. É seu parente! Pensa na barata: É sua parente!”. A gente veio do mesmo lugar e fica imaginado que pode separar uma coisa da outra.
‘Não estou defendendo a coisa purista e romântica de nunca mais falar no celular. Vivo no celular. Só que é preciso entender que não somos mais importantes do que uma onça’
Ailton Krenak diz que o maior problema da Humanidade foi o “divórcio com a natureza”. Ao mesmo tempo em que vivemos uma realidade hiperconectada, nos desconectamos do mais mais importa, do que nos dá a vida.
Exatamente. Achamos que não precisamos do sol. Nos desconectamos do mar, do vento e do aquilo significa. Passamos meses sem olhar uma estrela. Não estou defendendo a coisa purista e romântica de nunca mais falar no celular. Eu vivo no celular. Não tenho nem mais computador. Só que é preciso entender que não somos mais importantes do que uma onça ou aranha porque temos um celular ou vamos ao shopping.
Como enxerga a ligação entre cultura e meio ambiente? Como a sua voz pode espalhar a mensagem de que é preciso construir outro mundo aqui na Terra?
Uma coisa que fizemos em “Um pé de que?” (programa de TV de Regina e Estevão) e é o caminho: se distancia, parece que aquilo não vai te afetar, não vai fazer tudo morrer, você morrer, seus filhos, seus netos. Precisa aproximar ao máximo da vida cotidiana. Se não existisse uma árvore chamada juazeiro, o Luiz Gonzaga não ia cantar: “Juazeiro, juazeiro…” Se não existisse um dendezeiro, palmeira que foi trazida escondida com os escravizados para o Brasil, não ia ter acarajé. Toda a riqueza e a diversidade que temos fizeram da gente um lugar tão bonito e rico culturalmente. Todas as festas vêm de um momento da natureza. Tudo é troca com a natureza, não existe cultura sem a natureza se manifestar.
Pessoas que gostam de árvores são mais legais?
São, 90% são. As pessoas veem as árvores de maneira muito utilitária. Elas me levaram a conhecer pessoas maravilhosas. Não me conformo de crianças do Brasil não conhecerem nossas árvores. Se mostrar a uma criança uma fotografia de um leão, uma girafa ou até um coala, que só existe na Austrália, vão reconhecer. Se não, a mãe leva no neurologista. Se mostrar dez árvores brasileiras, não conhecem nenhuma. Queria que entrasse no currículo. Já fui a Brasília, mas não consegui ainda. Se mostrou uma embaúba, e a criança falou “sibibiruna”, é recuperação!
Você estampa em seus personagens a cara do Brasil. Se orgulha desses papeis? Por ter viajado tanto pelo país nem precisa fazer laboratório, né?
Quando fiz a Val, de “Que horas ela volta?”, com aqueles os gestos, e a Dona Darlene, de “Eu tu eles”, em que eu catava piolho… Me perguntaram se eu tinha feito laboratório. “30 anos!”, respondi. Foram oportunidades de eu derramar um monte de coisa que guardo. Admiração, emoções que não conhecia e vivi naquelas mulheres. Tenho orgulho tremendo de ter feito esses personagens.
Que personagens recentes te deixaram marca na vida?
Dona Lurdes, de ‘Amor de Mãe’. Ela veio na pandemia, todo mundo meio órfão de mãe, avô, avó. Dona Lourdes teve a chance de virar a mãe do Brasil. Consegui colocar nela todas essas mulheres que conheci e admirava, nordestinas ou não, empregadas domésticas, cortadoras de cana. Eu vinha sendo vista só de um jeito. Nunca pensei: “Quero ser apresentadora”. Sempre escrevi “atriz” em ficha de hotel. Trabalhei por 45 anos num ritmo industrial. Queria equilibrar, mas nunca acontecia.
“É diferente levar à TV gays bonitinhas da novela e um casal de cortadoras de cana. Gerava um tipo de rejeição diferente, um ódio vago que vinha pra cima de mim. Diziam: ‘Ela mora na Zona Sul e diz que gosta de favela'”.
Dona Lurdes te trouxe de volta para o lugar de atriz
Com um alcance maior. O Brasil vê mais TV que cinema. E também tem outra coisa: Nos programas, me viam na favela, com funkeiros, pagodeiros… Identificavam aquilo com coisas que têm medo. Se levava um funkeiro, aquilo era o estereótipo de alguém que ia assaltá-la. Existia um preconceito, e eu acabava virando um ralo. Foi duro para mim e minha família. Não era hater, era violência mesmo. É diferente levar à TV gays bonitinhas da novela e um casal de cortadoras de cana. Gerava um tipo de rejeição diferente, um ódio vago que vinha pra cima de mim. “Ela mora na Zona Sul e diz que gosta de favela”. Como se essas coisas fossem incompatíveis. O trabalho mais legal que fiz foi fazer essas pontes, atenuar polaridades. Com Dona Lurdes, começaram a ver: “Ela também é mãe, também é avó”.
Você tem essa habilidade de transitar, dialogar com pessoas de vários territórios, classes sociais, culturas e lugares…
Tenho orgulho das minhas amizades. Tem que prestar atenção, sabe? Não tem nenhum amigo PCD? Nunca namorou alguém que tem alguma deficiência? Quantas pessoas pretas tem nas festas que vai? Quando faz esse diagnóstico, vê como se o que pensa está de acordo com o que vive.
‘Ter um filho preto, uma filha PCD me levou para a sutileza, as nuances que não via antes’
O fato de ter um filho preto (Roque) e uma filha PCD (Benedita) abriu os horizontes?
Com certeza. Tenho amigos ricos, mas não me divirto tanto em festa de ‘carão’, dessas que parecem a gente está trabalhando, como me jogo num samba de caboclo, em Realengo. Me sinto mais à vontade, sempre foi assim. Mas nunca tinha prestado tanta atenção. A gente sabe das grandes questões, alguém xingou de macaco… Mas ter um filho preto, uma filha PCD me levou para a sutileza, as nuances que não via antes. Por mais que estude, tenha letramento racial, anticapacitista, viver o dia a dia é diferente.. Benedita se tornou uma ativista anticapacitista. Ela tinha pensado em ser atriz e não foi por capacitismo meu e dela. Via que tinha uma observação do outro mais aguçada que a minha. Talvez, a surdez tenha contribuído. Como faz leitura labial, está o tempo todo olhando na cara da pessoa e prestando atenção. Eu falava: “Tem que ser o psicanalista ou mãe de santo”.
‘Tem um filme em que me senti usadíssima’
Você fez um clássico da pornochancada, “Os sete gatinhos” (de Neville D’Almeida) gênero que objetificou a mulher, mas que também trazia certa liberdade sexual feminina. Como enxerga a evolução da representação da mulher no audiovisual?
Está em movimento. Sofri com aquilo. “Os sete gatinhos” foi um momento legal, livre. Mas outras vezes, me senti usada. Tem um filme em que me senti usadíssima. Foi difícil.
Qual?
Melhor não dizer. Mas acho que ainda está confusa a relação de saúde e estética. Primeiro, um padrão muito magro; depois: “você pode ter o peso que quiser”. Não sinto que chegamos num lugar confortável e sereno para as mulheres. As que estão se expondo fora do padrão, por mais que digam “me aceito, sou assim mesmo”… isso ainda gera sofrimento para elas.
Você foi testemunha e agente da mudança da representação da mulher no humor, que por anos foi “feia” ou a “gostosa”. Como o humor desenha sobre o papel da mulher na sociedade?
É vitrine do que está acontecendo. A base era o circo: aí, a mulher barbada ou com nanismo. Era sempre a graça feita em cima do sofrimento de alguém, o que vai dar nesses cuidados, que acham exagerados, do politicamente correto. Eu não acho. Para fazer essa transição, tem que passar por esse lugar. Esse cuidado e essa percepção de “olha o que todo mundo está fazendo”…. Porque, depois, vai no bullying, nos suicídios nas escolas. É a mesma coisa no humor. Vai entrar só uma boazuda no filme, no programa de humor. Ou uma mulher considerada horrorosa, que vai ser zoada o tempo todo. Isso se expande para várias outras coisas, para música e tal. Então, acho que teve que ter um rigor mesmo.
Nair Belo, Dercy Gonçalves… Há atrizes maravilhosas que, por não se enquadrarem no papel de mocinha, só encontraram lugar no humor…
Todo mundo que não encontra lugar em outro lugar vai parar no humor. Vê Chico Anysio, Tom Cavalcante, Renato Aragão. Só o fato de ser nordestino parecia uma piada, aquele sotaque. Aquilo é identificado, primeiro, com uma pessoa que é pobre; depois, caricata. Como se não pudesse ser nordestino e fazer o papel que quisesse. A gente começou a quebrar essa barreira com “A máquina” (espetáculo com Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta nos anos 2000). Começou a coisa do sotaque e do cara poder ser galã. Wagner Moura, que deu no que deu. Mas ele também ficaram um tempo ali no humor.
Já se incomodou em ser colocada em estereótipo ou se sentiu cobrada por não corresponder ao padrão estético que a sociedade nos impõe?
Tina Pepper (personagem de Regina na novela ‘Cambalacho’) era engraçada, caricata, mas era gostosa. E pegava o galã. O que era meio parecido comigo. Eu era engraçada, inteligente, a que não era bonitinha. Mas eu era a gostosa e passava o rodo. São não namorei o Michael Jordan, que gostaria de ter namorado. Fiquei numa dúvida interna se eu queria ser o Michael Jordan ou dar para o Michael Jordan (risos). Era louca por ele. Ia ver o jogo, saía gritando e os seguranças me tiravam. Sabe aqueles filmes de Beatles?
Pegou todo mundo que quis? Namorou o Caetano, que fez ‘Rapte-me, camaleoa’ para você?
Namorei. Se bem que não era muito esse termo… Mas, enfim, a gente ficou encantado quando se conheceu, mas logo se tornou amigo. Antes, também já era era amigo. Era diferente naquela época. Ele era apaixonado por “Aquela coisa toda”, do Asdrúbal (Trouxe o Trombone, grupo teatral que Regina integrou nos anos 1970/80) e tinha uma personagem que era a camaleoa. Então, foi pra ela que ele fez… Mas ele fez outra muito linda pra mim mesmo: “Muito”. Chegou da Bahia e falou: “Trouxe um presente para você”. Caetano, na minha vida e na minha educação, tem um tamanho que não sei nem te explicar.
‘Durante anos, a minha bolha achava que eu me vistia bem. Nas outras, fui eleita, por anos, a mais mal vestida’
Nesse lugar da estética, até que ponto cabe à mulher se libertar e essa uma discussão que precisa ser de toda a sociedade…
Olha, vou te dizer com roupa…. Durante anos, a minha bolha achava que eu me vistia bem. Nas outras, fui eleita, por anos, a mais mal vestida. Giovanni Bianco dizia que eu era a pessoa se que vestia melhor. Ao mesmo tempo era detonada pelo (Artur) Xexéo (jornalista). Bancar que quer se vestir daquele jeito dá um trabalho danado. Bancar que quer ter uma cara de acordo com a sua idade…. A idade, para mim, foi muito boa como atriz. Porque novinha… O nome ‘mocinha da novela’ já diz. Nunca pude ser a mocinha da novela, mas já pude ser a mãezona da novela quando eu fiquei mais velha.
‘Como muitas atrizes estavam muito botocadas e preenchidas, não poderiam fazer uma cortadora de cana ou a Dona Lurdes. Não ia combinar. E isso foi bom porque veio muito papel para mim’
Por que não podia ser a mocinha?
Porque não estava nesse padrão. Eu tinha cara de nordestina. Quais programas fiz quando entrei? Renato Aragão e Chico Anysio… Depois, ‘TV Pirata’, onde fazia papel de homem o tempo todo. Conforme fui amadurecendo, pude fazer uma mãe bonita. Porque a idade já não exige tanto que tenha aquele padrão de cara, de corpo. Ao mesmo tempo, como muitas atrizes estavam muito botocadas e preenchidas, não poderiam fazer uma cortadora de cana ou a Dona Lurdes. Não ia combinar. E isso foi bom porque veio muito papel para mim.
Você sempre viveu o feminismo na prática, não aceitou os “não” que te impuseram. Pagou um preço alto por se impor, exercer cargo de chefia? Talvez, uma fama de arrogante…
Sim, sem a menor dúvida. Agir como uma mulher que fala “não vou fazer essa cena porque não tem nada a ver, não aceito isso, não quero aquilo”, automaticamente, é arrogância. Ou você é louca, insubordinada, difícil de trabalhar, com temperamento forte. Não fui convidada para fazer 90% dos programas que fiz. A gente criou e levou.
‘Quando falamdo Estevão como um lindo caso de superação, é capacitismo’
Sobre voltar a trabalhar com Estevão… Como é olhar para 2008, quando ele quase ficou tetraplégico após acidente de cavalo e hoje, que até já subiu a Pedra da Gávea?
Hoje, ele é tetraparético, não dá para esquecer. Acho que quando falam como um lindo caso de superação, é capacitismo. Cria-se uma esperança em quem está passando por isso, de “ah, Estevão teve força de vontade, e Regina não aceitou nenhum ‘não'”. Teve isso, mas o caso dele foi possível de se regenerar, e até certo ponto. Não é só questão de acreditar. Perigoso isso… Mas ter vivido tudo que a gente viveu, momentos de profundo sofrimento, escuridão, falta de perspectiva e ter continuado junto… foi uma decisão mesmo. Essa intencionalidade fez com que, agora, a gente esteja junto de outro jeito.

O que foi fundamental para atravessarem essa história? Espiritualidade?
Espiritualidade, com certeza. Sincrética total. Me enfiava embaixo do manto de Nossa Senhora, as coisas chegavam a ficar azuis. Todos os orixás. Não é duvidar da ciência ou dos médicos de jeito nenhum, mas sempre ter um “e se…”. Benedita foi uma escola. Tomou um antibiótico ototóxico e teve uma perda grande da audição. Os médicos diziam para eu ensinar libras, que ela não ia oralizar, falar. Antes do Estevão sair do hospital, os médicos foram lá em casa dizer que tinha que tirar a escada para entrar a cadeira de roda. Aquilo era definitivo. E eu falava: “Tá, mas e se…”. De “e se…” a “e se…”, estamos ici (‘aqui’, em francês).
O Estevão decidiu transformar essa experiência dele num documentário. Não deve ter sido fácil também reviverem tudo.
Nossa, uma choradeira, uma barra. Estevão é muito corajoso, porque ele até fez cenas… ele reproduziu, fez a reconstituição do momento em que caiu. E a gente foi a todos os hospitais e aos médicos para revisitar esse momento. Achei muito corajoso da parte dele. Eu jamais faria um negócio desses. Mas acho que vai ser bom para muita gente.
O historiador Luiz Antônio Simas diz que a gente não faz festa porque a vida é boa, e, sim, o contrário. De onde vem a sua alegria e qual é a importância da alegria em nossas vidas?
É uma escolha. No “Recital da onça”, eu falava um texto do Mário de Andrade, “O turista aprendiz”: “É que o Brasil é uma gostosura de se viver. Vai mal? Acho que vai. E sofro. Mas meu sofrimento não atrapalha a felicidade. Porque eu penso nos meus sofrimentos de brasileiro e vejo como eles fazem parte da minha felicidade no mundo”.
Eu não entendia, quando ia em lugares miseráveis, viajando com os programas, como aquela pessoa que saiu de um lugar onde estava sendo massacrada, coberta de fuligem, trabalhando sem parar num canavial, que era descontada no dia que não ia trabalhar porque se machucou, era a pessoa que mais dançava comigo à noite. Acabava a gravação, eu e Hermano (Vianna, antropólogo) nos perguntávamos: “De onde vem essa alegria?”. Zé Celso (Martinez Correa, diretor de teatro), Simas, Oswald e Mario de Andrade, pessoas que se apaixonaram pelo povo brasileiro, com essa história de crueldade e sofrimento que forjou nossa sociedade, perceberam isso. A gente fica estupefato e, ao mesmo tempo, dá uma paixão. Isso é química ou alquimia? Isso é transmutar a dor em festa, em alegria.
Tem que escolher a alegria e respeitar a sua tristeza. A gente estava falando do Estevão… Eu olhava aquilo ali e falava: “Caraca, um deserto. Mas você tem que ir andando no deserto. Aí, acha um oásis de felicidade aqui, um momento de alegria ali. E tem que tratar ele com respeito, aproveitar e continuar andando até o próximo, ir escolhendo aqueles caminhos.
Você é uma ótima festeira… Qual o segredo de uma festa boa?
Ao contrário do que está acontecendo nas redes… Detesto essa coisa de “uma boate gay: todo mundo ali é gay”, “uma festa da terceira idade: todo mundo é velho”. Tenho pavor! É uma coisa importada dos EUA que não presta. A gente está muito mais avançado nesse aspecto, o Brasil é uma vanguarda anti-gueto, tem essa vocação. Já esteve até mais próximo, recuou muito. Tivemos um recuo conservador brutal. O mundo está esquisitão, mas eu ainda acredito. Quando vou para o samba, vejo que ainda temos essa capacidade de fazer festa boa. Porque o legal é que aquela senhora gordona esteja dançando com a gay animadérrima. Adoro quando olho, às quatro da manhã, tem um pula-pula com 500 crianças pulando no meio e todo mundo dançando.