Após enfrentar a maior turbulência de sua pré-campanha ao Palácio do Planalto com a revelação das conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) agora tenta capitalizar a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como terroristas. Se a crise anterior levou até mesmo aliados como Tarcísio de Freitas (Republicanos) a manterem uma distância estratégica, o trunfo na pauta da segurança pública, cara à direita, trouxe um fôlego extra ao parlamentar junto a nomes de peso do segmento.

Além do governador de São Paulo, até mesmo rivais na corrida pela Presidência da República, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), reviram o próprio o tom. Nos últimos dias, ambos substituíram por elogios as críticas diretas por conta dos pedidos a Vorcaro para que financiasse um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
‘Encrencas de terceiros’
No caso de Tarcísio, nas palavras de um aliado, havia, até então, o receio de se “contaminar” com “encrencas de terceiros”. A postura, que mirava sobretudo a disputa interna em São Paulo, na qual o postulante à reeleição tem como principal adversário o ex-ministro Fernando Haddad (PT), gerou novos questionamentos dentro do bolsonarismo, que regularmente enxerga movimentos dúbios do governador em relação ao grupo político do ex-presidente.
Em duas oportunidades, sempre que questionado por jornalistas, Tarcísio chegou a dizer que Flávio deveria prestar todos os esclarecimentos necessários sobre a verba repassada por Vorcaro à cinebiografia “Dark horse”, que tratará da vitória de Bolsonaro nas urnas em 2018. Em paralelo, o governador paulista — embora tenha recebido telefonemas com essa cobrança, segundo interlocutores — não fez endosso público à defesa apresentada pelo senador, que negou irregularidades nas transações e sustentou tratar-se de um financiamento privado para uma obra privada.
Em meio aos desdobramentos sobre o caso, Tarcísio e Flávio passaram mais de duas semanas sem se falar após o lançamento, em Campinas, da pré-candidatura ao Senado de Guilherme Derrite (PP), ex-secretário de Segurança de São Paulo. Segundo aliados de ambos os lados, a falta de interlocução estendeu-se a integrantes das duas campanhas, que também não mantiveram contato.
Um levantamento da Bites realizado a pedido do GLOBO mostrou que Tarcísio mencionou Flávio diretamente uma única vez nas redes desde junho do ano passado. Para Jair Bolsonaro, como forma de comparação, a métrica é outra: no mesmo período de 12 meses, ainda segundo a consultoria, o ex-presidente foi citado 53 vezes.
— O fato de ele concorrer à reeleição já oferece ao Tarcísio um grau de liberdade e, de certa forma, de afastamento com esse núcleo duro do bolsonarismo. Permite que ele construa uma trajetória não mais tão ligada umbilicalmente com a família Bolsonaro. E o que ele deve politicamente ao Jair não é a mesma coisa que ele deve a qualquer um dos filhos — analisa o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A referência solitária ao senador, no entanto, reforça a leitura de que foi justamente a medida dos EUA contra o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comado da Capital (PCC) a dar o tom da guinada. Na última quinta-feira, Tarcísio parabenizou nominalmente Flávio pela “articulação firme e necessária” para que a gestão de Donald Trump classificasse as facções como grupos terroristas. O anúncio ocorreu dois dias após um encontro do senador com o presidente norte-americano, durante o qual ele diz ter tratado do tema.
“PCC e CV não são facções: são terroristas armados contra o povo brasileiro e com atuação além das nossas fronteiras. Quem domina territórios, impõe toque de recolher, mata inocentes e desafia o Estado pratica terror. O Brasil não pode mais ser refém de bandido. Terrorista tem que estar atrás das grades, sem relativização”, escreveu o governador, em retórica alinhada à do filho de Bolsonaro.
‘Gambá cheira a gambá’
A inflexão também marcou os pronunciamentos de Caiado e Zema. O ex-governador de Minas Gerais, que chegou a ser cotado como vice de Flávio, era quem vinha adotando palavras mais duras ao tratar das revelações envolvendo o senador e Vorcaro, numa tentativa de se cacifar como nome do conservadorismo para enfrentar Lula em outubro.
Zema alegou, por exemplo, que ele e o Partido Novo haviam sido “traídos” por conta do episódio relativo ao dono do Master. “Ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa”, disparou o mineiro.
— Para mim, quem se aproximou de um banqueiro bandido é um mau sinal. Gambá cheira a gambá — resumiu, em outra de uma sequência de declarações, que incluiu a afirmação de que “quem está votando no Flávio vai estar entregando a eleição para o Lula”.
A ofensiva incomodou parte do Novo, que viu risco a costuras entre o partido e o PL nos estados. A redesignação de CV e PCC pelos EUA surgiu, assim, como uma chance de apaziguar os ânimos. Zema, dessa vez, optou por personalizar o elogio: “O Flávio foi capaz de fazer aquilo que o Lula já deveria ter feito há muito tempo”.
Já o ex-governador de Goiás, que tenta vender a segurança como uma de suas bandeiras centrais, também referendou a medida norte-americana. “A única frustração é que não cheguei na Presidência da República para que eu pudesse tomar essa iniciativa”, disse. Antes, embora em grau abaixo de Zema, as manifestações de Caiado relativas a Flávio também estavam focadas no Master, com cobranças públicas por mais esclarecimentos.
— O que precisamos saber é quem terá autoridade moral para sentar na cadeira, quem terá independência intelectual para ter metas para o Brasil — chegou a sustentar.