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Como recuperar o desejo sexual na era da ansiedade, da pressa e da imediatidade

Por Redação Juruá em Tempo.1 de junho de 20263 Minutos de Leitura
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Nos últimos tempos, tenho recebido cada vez mais relatos de mulheres que chegam ao consultório dizendo praticamente a mesma coisa: que antes sentiam mais vontade de buscar momentos íntimos com seus parceiros, que continuam amando essas pessoas, mas que “já não é como antes” e que gostariam de se conectar novamente, mas não conseguem.

Elas chegam cansadas, com a sensação de estarem constantemente atendendo às demandas externas, menos às próprias necessidades. E não se trata de falta de amor.

Muitas dessas mulheres têm dificuldade de estar realmente presentes. E isso é compreensível. Vivemos em uma época em que parece necessário estar disponível o tempo todo: para trabalhar, responder mensagens, cuidar dos filhos, manter relacionamentos, organizar a casa, resolver problemas e ainda se sentir bem.

Estamos sempre correndo. E, no meio dessa corrida, acabamos deixando algo importante para trás: nós mesmos.

Tornamo-nos especialistas em antecipar tarefas e revisar mentalmente listas intermináveis de afazeres. Mas esquecemos que o erotismo tem uma característica essencial: ele só acontece quando estamos presentes.

O desejo não surge enquanto pensamos na lista de compras do supermercado. Ele precisa de presença.

Paralelamente, há outro fenômeno cada vez mais comum: a ansiedade.

Nem sempre ela se manifesta como uma crise intensa ou uma sensação evidente de angústia. Muitas vezes aparece de forma silenciosa, por meio de pensamentos repetitivos, dificuldade para relaxar e a sensação de continuar resolvendo problemas mesmo depois que o dia termina.

Nosso cérebro possui um sistema muito inteligente. Quando percebe ameaça ou sobrecarga, prioriza a sobrevivência antes do prazer.

Mesmo sem um perigo físico real, o estresse contínuo, a carga mental e a ansiedade podem ativar esse mecanismo. O corpo entra em estado de alerta, deixando o erotismo entre as últimas prioridades.

Por isso, muitas mulheres acreditam que existe algo errado com elas, quando, na realidade, frequentemente não se trata de uma falha do desejo, mas de um corpo exausto pedindo uma pausa.

A autora relata o caso de uma paciente que acreditava estar enfrentando um problema hormonal porque havia meses não sentia desejo. Durante as conversas, surgiram outros fatores: poucas horas de sono, excesso de trabalho, responsabilidades familiares e a sensação constante de nunca conseguir dar conta de tudo.

Então veio uma pergunta simples:

“Quando foi a última vez que você fez algo apenas para você?”

A paciente ficou em silêncio. Não conseguia se lembrar.

Muitas vezes acreditamos que recuperar o desejo significa procurar algo fora de nós, quando o primeiro passo pode ser justamente voltar a nos encontrar.

Porque o erotismo não começa no quarto, mas muito antes: quando voltamos a perceber nosso próprio corpo e deixamos de nos tratar como máquinas de produtividade.

Quando nos permitimos descansar sem culpa, sentir emoções, brincar, nos distrair ou simplesmente estar presentes.

Talvez a pergunta mais importante não seja mais “o que há de errado comigo para eu não ter vontade?”, mas sim “como estou vivendo o meu presente?”.

Porque talvez o desejo não tenha desaparecido. Talvez ele esteja apenas esperando encontrar espaço para voltar a surgir.

*Antonela Ance é formada em Sexologia e Terapia Sexual (Espanha) e em Casais e Sexualidade, pela Sociedade Argentina de Sexualidade Humana (Argentina), co-fundadora do Museu da Vulva e membro aderente da Federação Sexológica Argentina.

Por: El País.
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