Goiana de 22 anos, Mari Froes não dá pinta nas rádios brasileiras, mas esgotou ingressos em casas de Amsterdã, Estocolmo e Budapeste recentemente. Nesta quarta-feira (24), a cantora se apresentou em Florença, na Itália, a 17ª cidade de uma turnê que percorre a Europa e que ainda não chegou na metade.
Desde início do ano, a voz grave de Froes já passou por cidades como Londres, Manchester, Dublin, Bruxelas, Luxemburgo, Porto e Lisboa. Depois de Florença, ela segue para compromissos em Salerno, Córsega, Roma, Copenhague, Istambul, Madri e Rotterdam, entre outros destinos. Até o dia 8 de agosto ela terá percorrido 35 cidades em 17 países.
Em Portugal, Mari Froes esteve na escalação do Primavera Sound. No dia 12 de julho, ela será uma das atrações do North Sea Jazz, em Rotterdam, um dos maiores eventos de jazz do mundo que já recebeu nomes como Miles Davis, Herbie Hancock, Prince e Stevie Wonder. Depois, segue para Berna, onde canta no Gurtenfestival, tradicional festival da Suíça.
Como se deu esse burburinho lá fora? Dona de voz grave e de personalidade, com repertório ancorado em variações da MPB, Mari Froes começou a carreira cantando covers no YouTube. Muitos desses views gringos, vale dizer. Em 2024, uma versão dela de “Figa de Guiné”, de Nei Lopes e Reginaldo Bessa, viralizou nas redes sociais a partir de um remix do duo francês de música eletrônica Trinix (formado pelos produtores e músicos Josh Chergui e Loïs Serre), ultrapassando 72 milhões de visualizações. Atualmente, a dupla exibe outros remixes dela em seu perfil, como com a canção autoral “Vaitimbora”.
Vieram outros hits, até que a cantora começou a investir nas próprias composições. Mari fechou com o selo 777 Music Group em parceria com a Sony Alemanha, o que ajudou a direcioná-la para o mercado internacional. Mari Froes prepara o lançamento seu primeiro álbum de estúdio e planeja uma passagem pelo Brasil no fim do ano, a partir de dezembro.
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Em entrevista ao site da Quem, em 2020, você disse que se deu conta de que queria seguir na música quando seu vídeo ‘Girassóis de Van Gogh’, cover do Baco Exu do Blues, viralizou nas redes sociais. ‘Antes disso, apesar de ter um sonho de ser cantora, não achava que era possível isso se tornar uma realidade para mim’, você afirmou. Por que achava que não era possível?
Eu achava que era impossível porque sabia que era algo muito improvável, sabe? Infelizmente ainda é difícil para os artistas conseguirem viver da sua própria arte, e eu pensava “Com tantas pessoas tão talentosas e incríveis, por que logo eu?” Mas, mesmo duvidando disso, continuei a cantar e a gravar meus vídeos, e pra minha surpresa as coisas acabaram se desenrolando naturalmente, e estou aqui hoje em dia desfrutando de tantas coisas incríveis.
Esse é um caminho repetido por muitas cantoras da nova geração: se lançar com covers, e aos poucos mostrar um trabalho autoral. Essa trajetória foi planejada por você ou foi acontecendo?
Para mim é algo que aconteceu naturalmente. No começo, postava covers de músicas que me inspiravam de alguma forma. Não tinha confiança para gravar minhas próprias músicas ainda, apesar de compor muito. Foi com o apoio dos fãs e com o passar do tempo que comecei a lançar minhas primeiras composições autorais, e desde então esse lado meu foi aflorando cada vez mais. Compor pra mim é tão necessário quanto comer ou respirar, é uma forma de me acalmar e de me manter em paz comigo mesma, e fico muito feliz que o público tenha recebido sempre tão bem esse lado meu.
Pode falar um pouco sobre sua infância em Anápolis e sobre seus pais (já li que te influenciaram na música)? Como era a Mari criança? Mais tímida ou mais expansiva? Pensava em música desde cedo?
A Mari criança era definitivamente tímida, reservada, mas muito sonhadora e criativa. Minha mãe sempre conta que eu dizia para ela “Mãe, eu vou cantar para o mundo”. Isso há muitos anos atrás, em Goiânia, e para mim é surreal como a vida foi se movimentando para isso. Minha mãe gosta muito de MPB, já meu pai adora pós-punk, e eu cresci ouvindo essa mistura de gêneros e fui conhecendo mais do samba e da bossa-nova por conta própria. Cantar foi a primeira coisa que eu quis ter como profissão na vida, ainda criança, e é incrível poder viver isso nos dias de hoje.
Já adolescente, tinha algum plano B pro caso de não seguir na música? Pensava em fazer alguma faculdade?
Como eu imaginava que cantar seria um sonho impossível, estava estudando para me tornar uma diplomata um dia, já que gosto muito de línguas e de relações internacionais. Também já quis ser arquiteta e designer de interiores, são outros assuntos que adoro e sempre gostei de estudar sobre. Felizmente o caminho da música chegou até mim muito cedo, e segui nele com todo o meu coração.
Quais são suas principais influências na música?
Jorge Benjor, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Tom Jobim, Clara Nunes, Baden Powell, Cesária Évora, João Gilberto, Djavan e muitos mais. A música lusófona me inspira demais, somos abençoados com uma quantidade e qualidade surreal de música em nossa língua, e eu absorvo o máximo possível disso sempre.
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Olhando seu trabalho no Spotify, desde sua estreia na plataforma, há muitos singles, um EP, e participações em outros projetos. Como foi esse planejamento de lançamentos? Pretende lançar um álbum?
Meu primeiro disco se chama “Estrada do sol” e será lançado no meio desse ano, e estou muito feliz de finalmente lançar esse projeto no qual eu estive trabalhando com tanto carinho há tanto tempo. É um marco pra mim finalmente lançar meu primeiro álbum, principalmente depois de tantos singles e do meu EP “Nebulosa”, e acredito que esse seja o momento ideal para isso, mostrar ao mundo quem eu sou sem filtro e trazer com tudo toda essa linguagem ampla que já esteve me acompanhando nesses últimos lançamentos.
Chama atenção a quantidade de datas na Europa que sua turnê contempla. Como se deu essa construção do seu trabalho fora do Brasil?
Acredito que algo no meu som sempre atraiu uma quantidade significativa de estrangeiros, desde o comecinho, nos covers do YouTube. Me lembro que vinha a galera do México, da Colômbia, da Europa, e agora com “Figa de Guiné” e “Vaitimbora” isso se ampliou ainda vez mais. A Europa abraçou bastante a minha arte e a demanda foi aumentando a cada ano. Agora estamos com 42 datas por aqui, e está sendo completamente mágico compartilhar esses momentos com o público daqui.
E para os brasileiros que conhecem pouco o seu som, ou não conhece, como você descreveria seu trabalho? Encaixaria sua música dentro de algum ou alguns gêneros?
Para quem não me conhece, acho que eu diria que meu som é uma mescla de tudo. Do antigo com o novo, do moderno com o tradicional, e principalmente um som que, apesar de ter um apelo global, traz com muito orgulho nossas origens brasileiras. Gosto de trazer comigo muito suingue, axé, energia, paixão pela arte e sentimento, sempre. Uma mistura de samba, MPB, world music, bossa nova, pop, chanson francesa, jazz, blues e algumas coisinhas mais que eu amo e quero compartilhar com o mundo.

