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Dia dos Namorados: como a ‘confiança’ se tornou um trunfo nas relações, mas também motivo de rupturas

Por Redação Juruá em Tempo.12 de junho de 20266 Minutos de Leitura
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Neste Dia dos Namorados há quem espere muito mais do que flores, chocolates e perfumes. Ao que parece, o desejo do brasileiro da vez é, como compôs Cazuza e Roberto Frejat, a “sorte de um amor tranquilo”. É o que mostram relatos dentro de consultórios de terapia, de análise e também um levantamento feito pelas psicanalistas e pesquisadoras Carol Tilkian e Camila Holpert, que acaba de ser lançado. Na análise, que levou em conta as respostas de mil brasileiros (com todos os estados civis) por meio de um questionário online, quatro em cada dez respondentes buscam, antes de tudo, alguém em quem confiar dentro das relações. Em outra pergunta, seis em cada dez afirmam que a vida amorosa melhorou quando encontraram a tal “confiança”.

O papo sobre confiança não só apareceu no estudo, mas também é levado para psicólogos e psicanalistas brasileiros, onde o tema tem sido discutido em minúcias durante as sessões, assim como temáticas a exemplo da busca por companheirismo e por troca. Nesse sentido, o respeito, diz a pesquisadora Carol Tilkian, é o novo “afrodisíaco” para as relações.

— É importante apontar que em tempos ansiogênicos e inseguros como os nossos, a gente volta a olhar para o parceiro romântico como uma possibilidade de colo, de calma, de porto seguro. Passamos a olhar, com mais atenção, para esse amor que valoriza a confiança, o respeito. Acho que vem de um movimento muito positivo da gente parar de romantizar um amor que seja uma montanha-russa — diz Carol. — Mostra o quanto não queremos mais um amor que doi, que destroi, e pautado na posse. O respeito, que aparece muito na pesquisa também, é a busca por ser ouvido. E a falta de escuta também aparece na pesquisa como principal vivência negativa. É importante notar que ser respeitado também é ser ouvido. O que não quer dizer que a pessoa precisa concordar com você.

A busca por estabilidade acaba sendo um tema importante nas dinâmicas das terapias de casal. E, como é de se esperar, as redes sociais figuram como pólvora para problemas e muita ansiedade em uma vida a dois. Trata-se, inclusive, de um terreno que inspira preocupação por abrir espaço para controles excessivos. Uma pesquisa da empresa de segurança digital Kaspersky, lançada neste ano, mostrou que 1 em cada 5 mulheres brasileiras tiveram aplicativos de monitoramento instalados em seu telefone, um dado preocupante.

— As redes sociais atrapalham muito as relações, a conexão está prejudicada. Não raro, existe comparação e cobranças: “quem é essa pessoa que você está seguindo?”, é uma pergunta que as pessoas relatam fazer. E a confiança tem a ver com isso. Quem confia entende que tem coisas que fazem parte da vida do outro (exclusivamente) e que há outras coisas que são compartilhadas — diz a psicóloga Marina Vasconcellos, especializada em terapia de casal e familiar.

O psicólogo e autor de livros como “O tempo do autoencontro” (Editora Planeta) Rossandro Klinjey afirmou que há, ainda, uma certa confusão entre segurança e excesso de controle.

— Tem gente que confunde confiança com monitoramento. Quer saber onde está, pede a localização. Mas é preciso lembrar que dentro do raciocínio de confiança o não saber faz parte — afirma. — É preciso tomar cuidado para não sufocar o outro. Faz sentido buscar garantias, mas o risco faz parte das relações. O que a gente tranca, morre.

Sintoma do tempo

É possível, acreditam alguns especialistas, que a busca por confiança esteja de mãos dadas com o avanço do conhecimento sobre saúde mental, um tema que tem sido falado mais abertamente dentro e fora dos consultórios. Não há dados brasileiros sobre o tema, mas olhando para análises internacionais, o número impressiona. De acordo com uma análise de 2024 da Pew Research Center, com 10 mil adultos, a maioria dos respondentes comprometidos (79%) sente-se muito confortável em falar sobre saúde mental com os parceiros. Isso, avaliam os especialistas, ressoa na maneira que é construída a relação.

— Talvez a valorização da confiança seja um sinal de que a gente está começando a entender que amor não é só sentimento. Amor é escolha, é segurança, é coerência, é responsabilidade afetiva. E a verdade é que eu tenho muita esperança porque eu vejo mais pessoas hoje falando sobre saúde mental do que algum tempo atrás. E isso já é um sinal de que nós estamos caminhando para uma evolução dos relacionamentos — avalia Jéssica Oliveira Santiê, psicóloga e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC).

E, embora pareça uma obviedade, não é tão simples encontrar a confiança no caminho. Especialistas contam que muita gente não consegue abrir-se para um relacionamento porque justamente carrega traumas de vivências passadas a dois, ou porque não tem paciência de construir o vínculo. A pesquisa realizada pelas psicanalistas Carol Tilkian e Camila Holpert, que abre essa reportagem, também dá pistas nesse sentido. Entre os respondentes, 43% dizem que seu maior medo é “se machucar novamente”, e cerca de um em cada três diz ter “dificuldade em confiar”. É preciso, ponderam os especialistas, tolerar a própria imperfeição e a do outro.

— Confiança também está relacionado em mostrar quem você é, e não precisar fingir por medo de não ser aceito sem o famoso ‘pisar em ovos’ para não decepcionar o outro e ser abandonado — defende Natália Caixeta, psicóloga e professora na Faculdade de Minas (Faminas)

A falta de segurança no outro, inclusive, tem sido uma grande razão para a separação dos casais, diz a psicóloga clínica Dayane Louise, especializada em inteligência emocional e terapia de casal. Dar pouco crédito ao comportamento do paceiro, ela observa, figura como um dos principais motivos para o fim dos relacionamentos. Um ponto que precisa de muita atenção.

— A dificuldade em confiar pesa muito. A paixão ainda é importante, claro, mas ela não sustenta uma relação sozinha. O que eu percebo é que as pessoas estão mais conscientes de que precisam se sentir seguras emocionalmente, saber que podem ser quem são, que não vão ser julgadas ou desrespeitadas. Isso tem pesado mais na escolha — diz Dayane.

O ponto de atenção que Carol Tilkian chama para as relações dos novos tempos é a necessidade de ir além da parceria e lembrar de manter vivo o interesse como “amante”. E alerta para o perigo do que chama de “esvaziamento erótico”.

— Vejo no consultório pessoas que são ótimos sócios, parceiros na rotina, mas não são mais amantes. Porque não sobra energia. E isso tem a ver com o excesso de tarefas. Temos muitas coisas para fazer, e às vezes quando estamos juntos, é uma presença ausente, porque estamos com o laptop aberto resolvendo algo do trabalho. Divide-se a tabela financeira, mas não um carinho ou um beijo de língua mais demorado — diz Carol. — Esse vínculo romântico com o parceiro e parceira tem que ser construído. E o Dia dos Namorados é um convite para pensar em como fazer esse movimento e voltar a olhar para o outro com curiosidade.

Por: O Globo.
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