O acordo firmado entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio abriu caminho para a reabertura do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. Apesar do anúncio do presidente americano, Donald Trump, de que a via marítima estará “completamente aberta” a partir de sexta-feira, documentos citados por autoridades iranianas preveem um prazo de até 30 dias para a retomada da navegação na região. Ao mesmo tempo, empresas do setor e analistas afirmam que ainda há dúvidas sobre a segurança da passagem, a remoção de minas e a capacidade da República Islâmica de voltar a bloquear o tráfego no futuro.
Após semanas de confrontos, Washington e Teerã devem assinar formalmente nesta sexta-feira, em Genebra, um memorando de entendimento que prevê a normalização da navegação na região e o início de negociações sobre o programa nuclear iraniano. Ainda assim, especialistas alertam que a normalização do fluxo comercial pode levar semanas ou até meses.
O que prevê o acordo
Desde o anúncio do entendimento, autoridades americanas e iranianas têm apresentado sinais de avanço na retomada da navegação.
Na segunda-feira, Trump afirmou que o estreito já estava “parcialmente aberto” e garantiu que a passagem será totalmente liberada após a assinatura do acordo.
— Eles estão procurando algumas minas que já encontraram, mas os navios já começaram a sair. Na sexta-feira, estará completamente aberto — declarou durante encontro com o presidente da França, Emmanuel Macron, na cúpula do G7.
O presidente americano também afirmou que o acordo prevê a manutenção da passagem sem cobrança de tarifas.
Do lado iraniano, a televisão estatal informou nesta terça-feira que petroleiros e outras embarcações voltaram a navegar após a implementação da operação de suspensão do bloqueio naval imposto pelos EUA desde 13 de abril.
Segundo a emissora, três petroleiros iranianos navegavam no norte do Oceano Índico, enquanto outros dois navios transportando produtos essenciais e ração animal seguiam em direção aos portos do sul do país.
Apesar das declarações otimistas, ainda há divergências sobre os prazos. Enquanto Trump afirma que a rota estará totalmente aberta na sexta-feira, o memorando citado pela agência iraniana Mehr prevê a reabertura do Estreito de Ormuz em até 30 dias.
Tráfego segue reduzido
Os dados mais recentes indicam que a retomada da navegação ainda está longe dos níveis observados antes da guerra.
Segundo a plataforma de monitoramento marítimo Kpler, apenas quatro embarcações transportando matérias-primas atravessaram o estreito até a tarde desta terça-feira. Na segunda-feira, foram registradas cinco travessias.
O ritmo é semelhante ao observado durante o conflito e muito inferior ao registrado antes do fechamento da passagem. Antes do início da guerra, cerca de 120 embarcações cruzavam diariamente o estreito, segundo o veículo especializado Lloyd’s List.
— O Estreito de Ormuz continua operando abaixo dos níveis comerciais normais, apesar dos sinais de avanço diplomático — afirmou a Kpler.
Empresas de navegação apontam que ainda persistem dúvidas sobre a segurança da região. Entre as preocupações estão a existência de minas marítimas, a definição de rotas consideradas seguras e a possibilidade de cobrança de taxas para a utilização da passagem.
A associação internacional de armadores de petroleiros Intertanko informou que, durante o conflito, a Marinha americana orientou embarcações a cruzar o estreito durante a noite, próximas à costa de Omã, com luzes e transponders desligados para reduzir os riscos.
Novo poder de pressão
Embora o acordo possa restabelecer o fluxo marítimo, avaliações recentes das agências de inteligência americanas indicam que a guerra produziu uma consequência duradoura: o Irã demonstrou ser capaz de interromper o tráfego na principal rota energética do planeta.
Segundo fontes ouvidas pela CNN, analistas dos EUA concluíram que Teerã pode voltar a fechar o Estreito de Ormuz quando considerar necessário, transformando a passagem em um poderoso instrumento de pressão econômica e diplomática.
As avaliações apontam que o país preservou uma parcela significativa de suas capacidades militares, incluindo mísseis, drones, lançadores e centenas de embarcações rápidas capazes de assediar navios comerciais ou instalar minas marítimas.
Autoridades americanas afirmam ainda que o conflito alterou a forma como o governo iraniano enxerga o uso desse tipo de estratégia. Na visão dos analistas, Teerã percebeu que consegue afetar diretamente o comércio global sem comprometer de forma significativa seu arsenal militar.
Uma das fontes consultadas pela emissora americana afirmou que o fechamento do estreito deu ao Irã uma nova ferramenta de influência geopolítica, capaz de provocar impactos econômicos globais.
Diante desse cenário, o governo americano tenta negociar mecanismos que dificultem um eventual bloqueio futuro da passagem.
Erro de cálculo
De acordo com fontes familiarizadas com as avaliações da inteligência, autoridades americanas subestimaram a disposição do Irã de fechar o estreito quando a guerra começou.
O governo Trump acreditava que a medida prejudicaria mais a economia iraniana do que os EUA e contava ainda com a influência da China para dissuadir Teerã de adotar uma ação tão drástica. Por isso, Washington concentrou seus esforços militares em alvos estratégicos iranianos e não na prevenção de um eventual bloqueio da rota marítima.
A avaliação mudou após o fechamento efetivo da passagem.
Segundo fontes ouvidas pela CNN, autoridades americanas acreditam que o Irã decidiu interromper o tráfego ao interpretar declarações iniciais de Trump sobre uma possível mudança de regime em Teerã como uma ameaça existencial.
As avaliações também apontam que as preocupações americanas vão além do próprio Estreito de Ormuz.
O governo iraniano considera a possibilidade de incentivar os houthis, grupo aliado de Teerã no Iêmen, a bloquear o estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Oceano Índico e constitui outro dos principais gargalos do comércio marítimo mundial.
Analistas avaliam que um fechamento simultâneo do Estreito de Ormuz e de Bab el-Mandeb teria potencial para provocar uma grave crise econômica internacional.
Até o momento, os houthis não retomaram ataques em larga escala contra embarcações americanas ou europeias, embora continuem afirmando que navios ligados a Israel permanecem como alvos legítimos.
Missão europeia
Enquanto persistem as dúvidas sobre a segurança da navegação, França e Reino Unido lideram uma coalizão internacional preparada para atuar na região.
Segundo Macron, cerca de 20 países já fizeram contribuições concretas para uma operação destinada a restabelecer a confiança no tráfego marítimo.
A França disponibilizou o porta-aviões nuclear Charles de Gaulle, estacionado próximo à Península Arábica desde maio, além de dois navios especializados na remoção de minas. O Reino Unido enviou um destróier para a região, enquanto Itália e Alemanha também colocaram embarcações caça-minas à disposição.
Além da desminagem, a coalizão poderá auxiliar na escolta de aproximadamente 2.000 petroleiros e cargueiros que aguardam condições seguras para deixar o Golfo.
Apesar dos preparativos, especialistas alertam que a recuperação total do tráfego dependerá menos da capacidade militar disponível e mais da confiança das empresas de navegação.
— O que realmente importa é como os armadores enxergam a situação. Se eles não tiverem confiança de que isso mudará significativamente o cenário, não farão fila para retirar seus navios do Golfo Pérsico — afirma Elisabeth Braw, especialista em segurança marítima do Atlantic Council.
Mesmo com o acordo prestes a ser formalizado, a principal incerteza já não é apenas quando o Estreito de Ormuz voltará a operar normalmente, mas se o Irã recorrerá novamente ao bloqueio da rota em futuras crises regionais. As avaliações da inteligência americana indicam que Teerã demonstrou não apenas capacidade para bloquear a via, mas também disposição para usar essa estratégia futuramente caso considere seus interesses ameaçados.
(Com AFP)

