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‘Evangélico perdeu a confiança em Flávio por não falar a verdade sobre Vorcaro’, diz bispo

No fim do ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro trocou de interlocutor preferido no segmento evangélico. Saiu o estridente pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e entrou o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra. Além de ter acompanhado Bolsonaro de perto enquanto esteve preso na Papudinha, o bispo mantém-se informado até hoje sobre o estado de saúde do aliado. Conversa semanalmente com Michelle, a única com contato diário e sem interrupções com o ex-presidente desde a decretação, em março, da prisão domiciliar pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Dono de mais de 1.200 templos pelo país, além de emissora de TV, rádios e editora de livros, Rodovalho é o segundo entrevistado da série da newsletter “Jogo Político” com as maiores lideranças evangélicas do país. Depois de ouvir o Apóstolo Estevam Hernandes — criador da Marcha para Jesus em São Paulo — sobre a rivalidade entre pastores da velha e da nova geração, o foco agora é a política e as dificuldades envolvendo a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República após a revelação do envolvimento dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Abaixo os principais trechos da entrevista:

A última pesquisa Quaest apontou que Flávio Bolsonaro teve queda de nove pontos percentuais no público evangélico na disputa contra Lula. Por que isso aconteceu?

Acho que foram duas questões. A primeira delas, o vazamento da conversa com o Daniel Vorcaro, e ele ter dito antes que não tinha nenhuma relação com o banqueiro. Está custando muito caro para o Flávio isso. O evangélico pensa: às vezes é melhor votar num candidato que não é cristão do que um que diz ser, mas não mantém a coerência.

Para o evangélico o problema maior do Flávio foi pedir dinheiro para o Vorcaro ou ter mentido sobre a relação?

Foi a contradição, evangélico é intransigente com mentira. A pior coisa que tem é uma coisa ser dita e a realidade ser outra. Ele deveria ter falado sobre o assunto desde o início. Pedir recursos para um filme era um movimento legítimo e teve zero de verba pública. O Banco Master era uma entidade privada que sempre fez investimentos em patrocínios. Além disso, as condutas do Daniel Vorcaro eram desconhecidas do público em 2024.

A questão é que a Polícia Federal está investigando se o dinheiro foi só para patrocínio mesmo ou se foi para pagar a estadia nos EUA do Eduardo Bolsonaro, que acaba de ser condenado pelo STF por coação da Justiça…

Por isso é que o Flávio precisa imediatamente abrir todas as contas do “Dark Horse”. Ele está perdendo a confiança do segmento, as pessoas estão achando que, se mentiu desta vez, pode mentir na próxima. O copo de cristal trincou, e ele vai precisar reconhecer isso. Mostrar arrependimento, pedir desculpas. Não dá para ficar camuflando o assunto, achando que o tempo vai fazer os evangélicos esquecerem porque o Lula tem mais escândalos.

Falando em escândalos, o Flávio tem um histórico envolvendo rachadinha e a compra da mansão de R$ 6 milhões em Brasília. A direita e evangélicos bolsonaristas não acabam sendo seletivos quando o tema é corrupção?

Não vejo comparação. Vamos lá, rachadinha: sou absolutamente contra, mas vi acontecer em inúmeros gabinetes quando fui deputado federal (Rodovalho exerceu mandato na Câmara entre 2007 e 2010). Compra da mansão: ele financiou oras, qual o problema na compra? Já o PT, teve envolvimento em casos de corrupção gigantescos. Foi Mensalão, Petrolão, e agora o INSS. Tudo caso de fraude institucionalizada.

O caso Master não é um clássico exemplo de fraude institucionalizada?

Vejo como um movimento individual. O Vorcaro é um rapaz que queria enriquecer a qualquer custo usando os atalhos de um sistema bancário cheio de brechas. Se cercou de uma rede mafiosa e fez amizades em instituições para se sentir protegido e cometer fraudes.

Aliás, também fez amizades em igrejas, como a Lagoinha de André Valadão que passou a ter integrantes investigados por fazer parte de toda a engrenagem do Master…

Vorcaro foi da Igreja Lagoinha, chegou até a ser apresentador da TV deles. Sim, reconheço que, de fato, é muito ruim para o segmento evangélico termos dúvidas sobre a atuação de uma igreja nesse esquema.

No início da entrevista, o senhor disse que dois motivos levaram Flávio a despencar nas pesquisas entre os evangélicos. Além do caso Master, qual o outro problema do senador no segmento?

Flávio fez poucos movimentos na direção de lideranças evangélicas. Tem uma história na Bíblia que ilustra exatamente o que quero dizer. Roboão foi filho do rei Salomão e neto do rei Davi. Também virou rei, mas presumiu que o reino já era dele sem precisar se esforçar. No fim das contas, foi justamente com Roboão que houve a crise da cisão do reino unificado de Israel. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento, ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no passado.

Mas aí o problema não está na origem da candidatura Flávio, vista com má vontade por vocês líderes que preferiam o governador Tarcísio de Freitas como opção?

Sim, reconheço o problema de origem, muitos não concordaram com a decisão, é verdade. Eu, no entanto, sempre achei que a escolha acabaria passando por uma sucessão dentro da família mesmo. O espólio da direita é dos Bolsonaro. E aí que volto a bater na tecla. O Jair construiu uma relação conosco por anos, e olha que sempre vimos ele como católico. O ex-presidente trabalhou por isso, sentou para bater papo muitas vezes. Passava verdade nas palavras. Entendo que, em qualquer sucessão, herança de capital político é volátil e é natural a dificuldade do Flávio. Mas, nesse período de pré-campanha, ele tinha que estar fazendo exatamente o que o pai fez . Conversando com cada um de nós. Em agosto, quando a campanha começar, não vai dar mais tempo para se conectar com os líderes.

Estar rompido com Michelle Bolsonaro atrapalha Flávio a ter o mesmo desempenho que o pai entre os evangélicos ou estamos superestimando essa treta familiar?

Eleição é emoção, igual a torcida em jogo de futebol. A Michelle mexe com o eleitorado feminino e com os jovens. Aliás, ela mexe até com o público gay, que tradicionalmente não milita para a direita. Ela tem relevância, sim, e claro que está fazendo falta para o Flávio.

Qual a chance da candidatura do Flávio ruir e a Michelle assumir a cabeça de chapa?

Esse assunto já foi muito estudado e falado na família lá atrás. Hoje, o recado é seguirmos com a candidatura do Flávio, mas eu peço a Deus voltar a ter a possibilidade de conversar com o Jair. Vejo muitas fragilidades no cenário atual, o panorama não é nada animador. Lula subiu nas pesquisas e essa cesta com Desenrola e fim da escala 6×1 está sendo decisiva. Para a direita ganhar a eleição, vai ser preciso algum movimento novo e inteligente.

O senhor está defendendo a Michelle candidata?

Essa decisão é do Jair, não é minha, e a ideia precisa nascer como um projeto da família. Agora, eu seria uma pessoa a validar esse movimento, sim. Ou ela poderia ser vice do senador Rogério Marinho (PL). Ou até mesmo do governador Ronaldo Caiado (PSD). Que fosse vice do próprio Flávio. Fato é que Michelle precisa estar engajada na campanha.

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