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Ficará difícil Lula dizer que ele e PT nada têm a ver com Master

Por Redação Juruá em Tempo.19 de junho de 20264 Minutos de Leitura
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Os novos capítulos da Operação Compliance Zero espalham o rastro de desgaste do escândalo do Banco Master para praticamente todo o sistema político brasileiro, tornando difícil quantificar em que medida as candidaturas, sobretudo as presidenciais, serão abaladas pelas revelações, que continuam se sucedendo em base diária.

Já era esperado que o caso atingisse o PT da Bahia, graças aos negócios da instituição comandada por Daniel Vorcaro com o governo do estado. O que não estava no radar com a força que emergiu nesta quinta-feira era a centralidade que seria conferida ao líder do governo no Senado, Jaques Wagner, um dos petistas mais próximos a Lula.

Os detalhes das investigações, tornados públicos por decisão do ministro-relator, André Mendonça, revelam uma relação de intimidade entre Wagner e a cúpula do Master, por meio do ex-sócio de Vorcaro, o também baiano Augusto Lima — a quem, mesmo agora, o senador insiste em chamar de Guga. As explicações esboçadas até aqui por Wagner parecem capengas, improvisadas e, em alguns casos, sem pé nem cabeça.

  • Leia também: Sem trégua institucional

A gênese das relações envolve a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) em 2018 pelo governo estadual. A operação foi destinada à criação do cartão Credcesta, produto de crédito consignado voltado ao funcionalismo público da Bahia, depois ampliado para outros públicos e para outros estados. A partir da análise de material obtido nas oito fases anteriores da operação, a PF vê indícios de que Wagner fosse o “beneficiário central” de um esquema envolvendo o pagamento de propinas e outras vantagens financeiras em troca de atuação em favor do grupo.

Esse enredo aproxima a situação do PT da vivida pelo Centrão e pelo bolsonarismo, grupos que já haviam aparecido como beneficiários da “generosidade” de Vorcaro. Fica evidente que o banqueiro procurou se cercar de pessoas-chave em todos os partidos relevantes no Congresso, para expandir os negócios sem lastro de seu banco. Com Wagner no mesmo barco de nomes como Davi Alcolumbre e Ciro Nogueira, fica difícil para Lula sustentar o discurso segundo o qual ele e o PT não têm nada a ver com o caso Master, como vinha fazendo.

É verdade que a presença de um parlamentar, mesmo de primeira grandeza e umbilicalmente ligado ao presidente, difere bastante da acusação que ainda recai, sem explicação, sobre o adversário de Lula, Flávio Bolsonaro, flagrado pedindo (e recebendo) milhões a Vorcaro sem intermediários para um projeto familiar, o filme sobre seu pai. Mas claramente a direita ganhou um discurso para tentar diluir o desgaste que fez com que Flávio patinasse nas pesquisas nas últimas semanas.

Tem sido comum a comparação do caso Master com a Operação Lava-Jato, tanto pela ampla teia de corrupção sistêmica e pela movimentação de bilhões entre público e privado quanto pelos questionamentos, por parte dos citados e de juristas, dos métodos de investigação. Embora tenha sido deflagrada em 2014, a Lava-Jato não foi decisiva na eleição daquele ano.

Foi a partir de 2015 que passou a sacudir o sistema político, tendo forte impacto no impeachment de Dilma Rousseff, na posterior queda do algoz da ex-presidente, Eduardo Cunha, na prisão e inelegibilidade de Lula e em tudo o que se seguiu — e depois foi paulatinamente anulado.

Foi na eleição de 2018 que os efeitos da Lava-Jato se fizeram sentir de fato nas urnas, com a eleição do outsider Jair Bolsonaro com base num discurso antissistema fajuto. Dificilmente o Master produzirá um efeito arrasa-quarteirão como a Lava-Jato a partir de 2015. Mas claramente será um assunto indigesto com que Lula, Flávio e o Centrão terão de lidar.

André Mendonça já deixou claro que não aliviará para ninguém. Mas é difícil saber se resistirá à pressão, que cresce na mesma proporção da lista dos enredados com Vorcaro, para tirar o pé do acelerador de olho no calendário eleitoral.

Por: Vera Magalhães, dO Globo.
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