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Finanças a dois: os erros que separam casais e como evitá-los

Por Redação Juruá em Tempo.12 de junho de 20268 Minutos de Leitura
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Um amor e uma cabana pode ser uma imagem boa na ficção, mas, na vida real, é comum casais se separarem por problemas financeiros. Falta de diálogo, desconhecimento de finanças pessoais e até mesmo displicência são algumas das causas que podem pôr fim a um relacionamento — transformando o “felizes para sempre” em “falidos para sempre”.

O gaúcho Antonio, nome fictício, aprendeu cedo como os problemas financeiros interferem na vida dos casais. Os pais se separaram em parte devido ao descontrole financeiro e a experiência marcou a personalidade do hoje advogado, que desenvolveu precocemente um forte senso de organização e grande interesse pelo controle do dinheiro. “A experiência da minha família me fez focar em querer estudar finanças e me organizar, pois aprendi que é preciso estar preparado financeiramente para qualquer imprevisto“, conta.

O interesse aumentou em 2017, com a proximidade da formatura e a primeira oportunidade de emprego, o que o fez procurar livros e materiais sobre investimentos. Nessa época, Antonio começou a namorar a também gaúcha Maria, nome também fictício, gerente de conteúdo digital, e que tinha em comum uma experiência ruim na família causada por problemas financeiros. Em 2019, Antonio a convidou para morarem juntos e “otimizar as despesas” e, em 2023, mudaram-se para São Paulo. “Um dos pilares da família é a organização financeira, mas infelizmente nem todas têm”, diz Antonio, citando casos de parentes que não conseguem ainda organizar suas contas.

Maria diz que, depois de acompanhar a experiência ruim dos pais com dinheiro, já se preocupava desde cedo em manter o controle das contas e economizar. Mas foi na companhia de Antonio que ela aprofundou os conhecimentos financeiros, fazendo com ele cursos sobre economia e mercados. “Cada um tem sua independência financeira, sua conta, seu cartão, conversamos todos os dias e, uma vez por semana, sentamos para conversar e organizar nossos gastos“, explica Maria, que já trocou o caderno de anotações das despesas por planilhas digitais. “Vimos como esse acompanhamento é importante e dá liberdade para tomarmos decisões”, acrescenta.

Antonio montou uma carteira de investimentos com ações e outros papéis e pretende continuar estudando. Ele explica que o casal se organiza para atingir objetivos mais amplos, como viagens ou grandes compras, mas sempre respeitando a capacidade financeira de cada um. Atualmente, o plano mais ambicioso é preparar o casamento, o que vai exigir um esforço extra de ambos.

Mais que dinheiro

A vida financeira interfere muito mais nos relacionamentos do que a maioria dos casais imagina, afirma Ana Paula Netto, especialista em planejamento financeiro da Onze, fintech de solução de saúde financeira. “No fundo, dinheiro não é só dinheiro, ele fala de segurança, liberdade, medo, poder, escolhas, futuro e até da forma como cada pessoa aprendeu a lidar com afeto e escassez dentro de casa”, diz.

Segundo ela, muitas brigas que aparecem como “você gasta demais” ou “você só pensa em dinheiro” escondem outras questões: falta de confiança, sensação de injustiça, medo de faltar, desejo de controle ou desalinhamento de prioridades. Por isso, antes de falar de planilha, investimento ou conta conjunta, o casal precisa aprender a conversar sobre dinheiro sem transformar a conversa em acusação, algo que não é muito comum. A pesquisa Fidelidade Financeira, feita pela Onze, mostrou que apenas 38% dos casais ouvidos tinham um controle financeiro compartilhado e 23% afirmaram ter gastos ou fazer compras escondidos do parceiro em alguma frequência. “O problema, muitas vezes, não é nem a dívida em si”, diz Ana Paula. “O que machuca a relação é o segredo, porque o outro passa a se perguntar: ‘o que mais eu não sei?’“.

Muitas vezes, o dinheiro em si nem sequer é o verdadeiro problema do casal, diz Amerson Magalhães, economista da Crefaz. Ele apenas expõe comportamentos e reflete visões de mundo que, quando são divergentes, podem gerar atritos. “A maioria dos casais não briga pela falta do dinheiro, mas por falta de alinhamento de prioridades“, afirma. Para Magalhães, assim como em outras questões conjugais, o diálogo costuma ser a melhor saída, e conversar sobre a organização da vida financeira, estabelecer limites e construir metas para um objetivo futuro são o primeiro passo. Mesmo casais de namorados, que ainda não moram juntos, podem e devem falar sobre dinheiro e planejar o futuro financeiro. Para os casados, é importante ter uma conta bancária conjunta para organizar os gastos fixos, além de contas individuais para garantir autonomia pessoal, e construir uma boa reserva de emergência para imprevistos como manutenção da casa ou despesas médicas.

Quando o planejamento é conjunto, o dinheiro deixa de ser conflito e vira construção, diz Karolina Arcocha, planejadora financeira da Genial Investimentos. Segundo ela, a vida financeira é um dos principais pontos de atrito nos relacionamentos porque envolve expectativas, valores e prioridades diferentes. “Dinheiro no relacionamento não é só número, é onde o casal revela seu comportamento e visão de futuro“, diz. Quando não há alinhamento, alerta, pequenas decisões do dia a dia podem gerar conflitos maiores ao longo do tempo.

Sinais de crise e como evitá-la

O primeiro sinal de que as finanças são um problema para o casal é o silêncio, alerta Karolina. A falta de transparência, como esconder gastos ou dívidas, as constantes discussões sobre dinheiro e estilos de vida muito diferentes, como um parceiro poupador e outro impulsivo, são outros sinais. “Endividamento recorrente, descontrole nos gastos e dependência financeira de forma desequilibrada também indicam risco“, afirma.

Em geral, as crises financeiras são precedidas por sinais, reforça Magalhães, da Crefaz. O primeiro costuma ser a falta de transparência: quando um não sabe quanto o outro ganha nem o quanto gasta. Outros sinais são a compulsão por consumo e o padrão de vida acima da renda. “O sintoma costuma ser um casal que vive no crédito rotativo, no cheque especial e em parcelamentos constantes“, diz. Há ainda os casos mais graves em que o dinheiro se torna instrumento de poder e manipulação, ou seja, quem ganha mais passa a decidir tudo. “O dinheiro, nesse contexto, deixa de ser uma ferramenta de construção conjunta e vira mecanismo de controle“, observa.

Sobre os cuidados para evitar problemas futuros com dinheiro, Magalhães diz que o primeiro é conversar sobre o regime de bens antes do casamento. Para alguns casais, pode ser válido o contrato pré-nupcial, que garante proteção patrimonial e mais transparência. “É preciso quebrar o preconceito de que falar sobre patrimônio antes do casamento significa falta de confiança, quando é sinal de respeito e consideração pelo outro”, diz.

Karolina, da Genial, defende também que a independência financeira não é falta de parceria, mas maturidade. Ter contas individuais, mesmo que exista uma conta conjunta para despesas do casal, ajuda a preservar essa autonomia. Também é importante evitar misturar o patrimônio sem acordos claros, principalmente em investimentos e bens de maior valor. Formalizar aquisições, como imóvel ou carro, de acordo com a participação de cada um reduz possíveis conflitos futuros, e manter uma reserva individual também é fundamental para garantir segurança em qualquer cenário.

Mas e se o desentendimento financeiro continuar? Para Ana Paula, da Onze, a primeira coisa a enfrentar no caso de um parceiro esbanjador é separar falta de educação financeira de falta de responsabilidade. “Muita gente nunca aprendeu a lidar com dinheiro, cresceu em famílias onde esse assunto era tabu, onde havia muita escassez, briga, medo ou desorganização, então, não dá para partir direto para o julgamento“, diz. Mas, ao mesmo tempo, ela observa que uma relação adulta exige responsabilidade financeira dos dois lados, mesmo que um ganhe mais, saiba mais ou seja naturalmente mais organizado.

Ela recomenda também que, quando uma pessoa tem mais conhecimento financeiro do que a outra, deve evitar assumir um papel de professor rígido. “Educação financeira dentro do casal não pode virar sermão, e tem de começar com coisas simples“, defende Ana Paula. “Às vezes, antes de falar em investimento, o casal precisa organizar cartão de crédito, renegociar dívida ou criar uma pequena reserva.”

Ela sugere criar sistemas para não depender só de força de vontade de cada um, como:

  • Débito automático para investimentos;
  • Limite menor no cartão;
  • Conta separada para despesas da casa;
  • Valor livre para cada um gastar sem culpa;
  • Acompanhamento semanal ou mensal de tudo.

“A disciplina melhora quando o ambiente facilita”, acrescenta Ana Paula, alertando que o objetivo não é transformar o parceiro em uma cópia, mas construir um combinado que proteja a vida financeira do casal sem anular a personalidade de ninguém.

“Agora, se a pessoa não quer conversar, não aceita aprender, esconde informações, repete erros graves e joga a responsabilidade sempre no outro, aí o problema já não é só falta de educação financeira, é falta de compromisso com a vida em comum”, alerta Ana Paula. O parceiro pode apoiar, incentivar e caminhar junto, mas não pode carregar sozinho a responsabilidade financeira de duas pessoas.

Por: InfoMoney.
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