A República Islâmica do Irã suspendeu as negociações de paz por meio de mediadores com os EUA nesta segunda-feira, informou a agência de notícias Tasnim — veículo de imprensa vinculado à Guarda Revolucionária iraniana — afirmando que Teerã só vai retornar ao diálogo indireto quando exigências relativas ao fim das hostilidades de Israel contra o Líbano e a Faixa de Gaza forem consideradas. As Forças Armadas israelenses lançaram ataques abrangentes contra o sul de Beirute nesta segunda, em uma ação que anunciaram como destinada a atacar alvos do Hezbollah, aliado iraniano como parte do “Eixo da Resistência”.
A decisão, segundo a agência Tasnim, foi tomada devido ao que o regime iraniano considera “crimes” cometidos por Israel no Líbano e violações “em todas as frentes” do cessar-fogo entre o Irã e os EUA. Em razão disso, “a equipe de negociação iraniana está (…) suspendendo o diálogo e a troca de textos por meio dos mediadores”, afirmou a agência, sem atribuir a afirmação a uma fonte específica.
Mais cedo, o principal negociador e presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o bloqueio naval dos EUA a portos iranianos e a escalada no Líbano eram “evidências claras do descumprimento do cessar-fogo”, em uma publicação na rede social X. O principal porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, disse em uma coletiva de imprensa que “um cessar-fogo no Líbano é uma condição essencial para qualquer acordo que vise o fim da guerra”.
Ainda de acordo com a Tasnim, o plano iraniano inclui mobilizar os grupos integrantes do “Eixo da Resistência” em um esforço conjunto para bloquear completamente o Estreito de Ormuz — onde fontes americanas afirmaram que o Comando Central dos EUA estaria auxiliando a passagem de embarcações comerciais —, e que Teerã buscaria ativar outras frentes de pressão.
Uma das alternativas mencionadas foi o fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb, localizado do outro lado da Península Arábica, com ajuda do movimento rebelde Houthi. A hipótese já havia sido ventilada em momentos anteriores, como uma forma de aumentar a pressão sobre os impactos econômicos do conflito.
A suspensão das negociações ocorre em um momento em que fontes americanas afirmaram que o presidente dos EUA, Donald Trump, havia respondido à última proposta iraniana com demandas ainda mais duras, incluindo concessões sobre o programa nuclear e o tráfego naval em Ormuz. Autoridades iranianas já tinham condicionado mais cedo que qualquer acordo deveria incluir um cessar-fogo no Líbano — país que vem sendo alvo de constantes ataques israelenses.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ordenou ataques contra o sul de Beirute como parte da ampliação da campanha contra o Hezbollah, enquanto o ministro da Defesa Israel Katz afirmou em nota que “não haverá calma em Beirute” caso os ataques do Hezbollah continuem, referindo-se a disparos do grupo libanês contra o norte de Israel. Os EUA têm apoiado as operações do aliado.
O Conselho de Segurança da ONU realizará uma reunião de emergência na segunda-feira para discutir a crescente ofensiva israelense, disseram fontes diplomáticas à AFP.
Agressões renovadas
O frágil cessar-fogo entre Washington e Teerã também não interrompeu as hostilidades em sua totalidade. Os países trocaram novas agressões desde o fim de semana, com o lado americano afirmando ter disparado contra sitemas de radar e de controle de drones na cidade de Goruk e na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz, “em resposta às ações agressivas do Irã, que destruiu um drone americano MQ-1 que operava em águas internacionais”.
A Guarda Revolucionária do Irã anunciou, por sua vez, ter atacado uma base utilizada por forças dos EUA para bombardear o território iraniano. O comunicado oficial não citou a localização da base, mas o Exército do Kuwait informou que sua defesa aérea interceptou mísseis e drones “hostis”, atribuindo os ataques ao Irã. O Ministério das Relações Exteriores kuwaitiano afirmou que “considera o Irã plenamente responsável pelos ataques abjetos”.
Guarda Revolucionária divulga imagens de lançamentos de mísseis com mensagem contra os EUA
Em um vídeo transmitido pelo canal público de TV iraniano IRIB nesta segunda-feira, é possível ver foguetes sendo disparados. Em uma das imagens, um dos projéteis aparece com uma mensagem colada nele, com uma imagem do presidente americano, Donald Trump, e um texto escrito em inglês: “Até que o último soldado americano deixe a região”.

