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Jaques Wagner admite elo com ex-sócio do Master e faz críticas a ‘patacoada’ da PF

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: Folha de São Paulo. 26/06/2026 às 10:36

Um dia após deixar a liderança do governo no Senado, o ex-governador da Bahia Jaques Wagner (PT-BA) afirmou à Folha que reclamou com o presidente Lula (PT) da atuação da Polícia Federal na operação da qual foi alvo, particularmente pela divulgação de foto com cédulas de moeda estrangeira apreendidas no apartamento onde vive em Brasília.

“Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF? Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta”, afirma. Para ele, isso violou a orientação do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal) —que determinou que a busca e apreensão ocorresse “de forma discreta” pelo “caráter sigiloso da investigação”.

Na entrevista, concedida em seu escritório político na Bahia na quinta-feira (25), Wagner afirmou desconhecer governador ou prefeito que não se relacione com empresários. E disse que é ridículo supor que o recebimento de dois convites para um show configure favorecimento. “Estão achando que ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?”

Ele revelou que os valores pagos pelo Banco Master para a empresa de sua nora são maiores do que os R$ 3,5 milhões divulgados e defendeu que o dinheiro tem origem legal. Também admitiu pegar carona com empresários, mas negou que tenham colocado um avião à sua disposição.

“Está se tentando criar uma retórica hipócrita. Tenho relação com uma porção de gente. Aí o cara diz para mim: ‘terça-feira eu estou indo para Brasília, quer ir de carona?’ Eu vou, qual o problema? Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca.”

O sr. resistia à ideia de afastamento do cargo para que não fosse interpretado como confissão de culpa. O que o presidente disse que o fez mudar de opinião?
Era importante ter uma conversa pessoal com o presidente. Quando ele me ligou, no dia do episódio, foi primeiro para se solidarizar e, depois, perguntar se era bom continuar ou não. Eu disse que minha cabeça era não entregar [o cargo], mas ontem [quarta] fui lá conversar. Ele disse que me conhecia há 48 anos, mas que construíram uma história que eu teria que desmontar e questionou se eu teria cabeça para fazer as duas coisas [a defesa e a liderança]. Então, decidi me afastar.

Há aliados que dizem que o sr. levou a crise para dentro do Palácio.
Quem faz essa crítica ou é ingênuo ou não está entendendo o que está acontecendo. Era mais próprio falar que a Polícia Federal tenta construir uma narrativa para envolver o PT. Não estou dizendo que foi feito por isso, não. Qual é a narrativa do Flávio Bolsonaro e do PL? “Tudo começou na Bahia”. Nada começou na Bahia. Quando nós privatizamos a Cesta do Povo, em 2018, o cartão [de compras do programa] foi junto. Não existia [Daniel] Vorcaro, não existia Master. O banco virou sócio do Augusto Lima em 2019, se não me engano.

Os petistas estão comprando o discurso do PL?
O cara [Flávio] pediu R$ 140 milhões [R$ 134 milhões para o filme ‘Dark Horse’]. Eu não pedi uma banda de conto.

O cara [Flávio] pediu R$ 140 milhões. Eu não pedi uma banda de contoJaques Wagner (PT-BA)

senador

O sr. diz que a PF está construindo uma narrativa, mas o diretor-geral foi escolhido pelo Lula. Como vê a atuação de Andrei Rodrigues?
Ele é quem tem que responder. A ordem do André Mendonça fala explicitamente para não ter fotografias. Eles foram ao quarto de hotel onde eu moro, botaram lá em cima da cama [notas de dólares e euros] com o escudinho [da PF] e fotografaram. Estão desrespeitando ordem de juiz e reinventando a Lava Jato. Quem tem que saber se abre ou não processo administrativo é o Andrei, não sou eu.

O senhor conversou com o presidente Lula sobre isso?
Falei. “Estão tentando fazer uma narrativa para botar no meu colo algo que não existe”. Não quero proteção, quero correção. Seguramente abriram o envelope do Senado onde estavam minhas diárias, botaram lá na caminha e fotografaram. Eu disse para ele [Lula] que era muito ruim que a Polícia Federal transformasse uma investigação em espetacularização. Aí, quem tem que cuidar disso é o ministro da Justiça, o chefe da Polícia Federal ou o próprio ministro André Mendonça.

Lula perguntou duas vezes ao sr. se havia envolvimento com o caso Master. O sr. disse zero. Não achou que sua relação com Augusto Lima pudesse associá-lo ao escândalo?
O presidente várias vezes me perguntou, e eu continuo afirmando para ele: não tem nenhuma relação comercial entre mim e Augusto Lima, muito menos com o Master. Conheci Augusto Lima no processo de privatização [do Cesta do Povo]. Criou-se uma relação. Sei que muita gente tem consultorias espalhadas pelo país. Eu poderia ter uma consultoria, não poderia? Não tenho. A Polícia Federal está construindo uma tese de que essa empresa da minha nora na verdade foi construída para me servir. Não tenho nada a ver com a empresa.

Não acha que essa sua relação expõe o sr. a esse tipo de ilação?
Recebi empresário quando fui construir o metrô, a Via Expressa, quando fui convidar empresas a investir na Bahia. As pessoas tentam criar uma retórica dizendo assim: “Fulano conversou com Beltrano.” Desconheço um prefeito ou um governador que não converse com empresários. Óbvio que conversei com Augusto Lima.

Mas o senhor omitiu do presidente a negociação do apartamento?
Pretendia dar um presente para minha filha nesse prédio que está em construção. A pergunta que cabe é a seguinte: por que você pediria para reservar um apartamento num prédio em construção se fosse para corrupção? Por que eu não ia pegar um apartamento novo pronto? Eu digo: “não tenho condições de comprar, ela vai ter que vender o apartamento dela para eu ajudar no resto e financiar uma parte. Eu só quero que garanta aquilo lá.” Foi isso. Eu sei que é nebuloso, que todo mundo vai… Mas objetivamente, está no meu nome? Foi doada para mim alguma coisa? Nada. O caminho dos corruptos não é esse de fazer um sexo explícito. E a Polícia Federal deve ter pego isso na ligação minha para ele. Alguém, se fosse para ser um escambo, ia ligar para o cara para dizer?

Eu sei que é nebuloso, que todo mundo vai… Mas objetivamente, está no meu nome? Foi doada para mim alguma coisa? Nada. O caminho dos corruptos não é esse de fazer um sexo explícitoJaques Wagner (PT-BA)

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Mas o senhor não teme que essas evidências de relacionamento com ex-sócio de Vorcaro associem o senhor ao escândalo?
Não tenho nada a ver. Conheci o Vorcaro duas vezes. Quando ele veio se apresentar, que virou sócio, e quando eu fui levar o ministro [Ricardo] Lewandowski. O Augusto Lima disse: “A gente precisa melhorar o padrão do banco. Você tem alguma sugestão para a área jurídica?” Eu disse: “O ministro Lewandowski tem pouco tempo que se aposentou, não vejo outro nome melhor. Não sei se ele quer.” Perguntei e ele disse: “Só quero se eu for tipo chefe da consultoria jurídica.” Fui acompanhar o ministro para ele conhecer o Daniel.

Foi onde?
No apartamento do Daniel em São Paulo. Eu levei o Lewandowski. Jantou-se, conversou-se com ele, eu saí, depois eles trataram da questão dos negócios.

A PF aponta essa destinação de R$ 3,5 milhões para a empresa da qual sua nora é sócia…
Só eles que podem responder. Romperam o contrato e pagaram, de luva do rompimento, aqueles R$ 3,5 milhões, que correspondem a um ano de contrato. Isso está lá na empresa deles, tudo escriturado. Aí o cara está inventando que era para mim. Caiu alguma coisa minha aqui? Estou muito tranquilo.

Mas o senhor não tinha noção do montante desses negócios?
Tomei um susto porque não é pouca coisa, é muita coisa. Mas repare: é muita coisa legalmente, tem contrato. Aliás, os meninos dizem que não pagaram nem o que deveriam ter pago a eles, tá? Quando viram um volume que ia crescendo muito, mudaram o tipo de contrato. Mas eu prefiro que o advogado explique. O gozado é que se apegam aos R$ 3,5 [milhões], que foi o rompimento. Mas eles antes disso, mês a mês, eles ganhavam. Não sei quando deu no total, mas foi uma grana boa.

A PF também aponta viagens e ingressos de R$ 66 mil para show como demonstração de favorecimento.Dois ingressos para um show nos Estados Unidos, favorecimento pessoal? É meio ridículo isso. A minha neta é apaixonada por… como é? Taylor Swift. Já estava tudo esgotado. Eu liguei pra ele e falei: “Você tem alguém conhecido lá nos Estados Unidos que tem empresa?” Conseguiu e mandou pra ela. Aí já inventaram que ela viajou daqui pra lá pra ver o show. Ela mora há oito anos nos Estados Unidos com os pais. Estão achando que ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?

E a viagem para Ilha da Paixão [a PF afirma que Lima colocou um avião à disposição de Wagner e seus familiares para voar para a ilha, de propriedade do empresário]?
Nunca fui.

Viagens? Carona de avião para o Rio?
Carona de Brasília para Salvador ou daqui para lá devo ter pegado. Agora, como se fosse viagens que ele botou o avião à minha disposição, desconheço.

O senhor teme que isso seja classificação de favorecimento ilícito pela PF?
Está se tentando criar uma retórica hipócrita. Tenho relação com uma porção de gente. Aí o cara diz para mim: terça-feira eu estou indo para Brasília, quer ir de carona? Eu vou, qual o problema? Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca. Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master. E eu nunca trabalhei a favor, trabalhei contra. Como, aliás, o então ministro da Fazenda [Fernando Haddad] veio a público declarar.

O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca. Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master. E eu nunca trabalhei a favor, trabalhei contra. Como, aliás, o então ministro da Fazenda [Fernando Haddad] veio a público declararJaques Wagner (PT-BA)

senador

Ele não busca alguma vantagem quando compra esse ingresso ou…
Se ele me deu dois ingressos achando que por conta disso ia conseguir comigo alguma vantagem, se enganou do freguês.

Qual a origem do dinheiro vivo em moedas estrangeiras encontradas pela PF?
Algumas vezes, eu indo viajar, comprei dólar no Banco do Brasil. Mas toda vez que você viaja pelo Senado tem diária, que pode ser paga, depositada na sua conta ou pedida em dólar. Sempre peço em dólar, que é uma forma também de eu economizar e guardar.

A soma de diárias é levemente inferior ao valor apreendido.
Eu mandei ver se tinha compra. Isso é ao longo de oito, dez anos. Fui governador, também recebia diária. A pergunta deles é se eu recebi dólar de alguém. Não recebi de ninguém.

Por que o senhor questiona judicialmente a atuação da PF no seu caso?
Questiono a exposição absolutamente inconveniente e não determinada pelo magistrado que preside a ação. Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF? Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, eu acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta. Eu não estou pedindo que não me investiguem, só estou dizendo para não fazer a patacoada que fazem. Aquela foto foi para tudo que é capa de jornal. Eu acho que isso é condenação a priori.

E a operação em si?
Construíram uma tese. Acham que a empresa foi construída para me servir e vão correr atrás de provar essa tese. Não vão provar. Não vou falar levianamente que foi feito isso a serviço do outro lado. Agora, que coincide com o que o outro lado quer mostrar, coincide. Porque o outro lado diz o tempo todo: “Tudo começou na Bahia.” Eu vou repetir: nada começou na Bahia. Quem viabilizou o Banco Master foi Roberto Campos Neto e seu Banco Central. Se foi errado, se foi certo, só estou dizendo o seguinte: só foi concretizado o Banco Master no governo Bolsonaro. Está parecendo a história igual da CPMI do INSS. A gente que investiga, a gente que estoura o esquema, e de repente querem nos botar a culpa.

Esse processo terá impacto sobre o presidente Lula?
Quem está sendo atacado? Eu, não o Lula. Amanhã eu vou para a rua. Estou dando entrevista pra você, mas a minha melhor entrevista é quando eu for para a rua. Vamos ver.

Há um pacto com ACM Neto para que o Master não seja tema da campanha?
Nenhum. Ele deu uma resposta clássica: isso é problema da Justiça. É óbvio, ele apareceu recebendo dinheiro do Master, tem R$ 5 milhões de consultoria. Eu não recebi dinheiro do Master.

O senhor conheceu Augusto Lima na época da negociação do Credcesta?
Conheci ele aí. Quando ele comprou, para nós foi tirar um trambolho de cima do estado. Repare, tem algum centavo de dinheiro público investido no Master da Bahia? Do Rio de Janeiro tem uma montanha, do BRB tem uma montanha. A Polícia Federal encontrou alguma coisa relativa à Bahia no escândalo? Até agora não. E nem vai encontrar.

O senhor se considera amigo do Augusto Lima?
Amigo não, mas criou um relacionamento. Ele se considera meu amigo. Ele sempre olhou pra mim: “Pô, você é minha referência” etc.

E nunca foi um empecilho o fato de ele ter um contrato com o governo do estado?
A única coisa que tem de Augusto Lima com o estado da Bahia é que ele foi, depois de dois leilões frustrados na Bolsa de São Paulo, o arrematador da privatização da cesta do Povo, que para ele foi um puta de um negócio. Ele ficou rico pra cacete, eu não. Se eu fosse sócio dele, eu deveria estar rico hoje. Por isso que eu digo que é bem cretina essa história de que tudo nasceu aqui.


RAIO-X | Jaques Wagner, 75

Senador pelo PT. Foi ministro do Trabalho e das Relações Institucionais nos governos Lula, ministro da Defesa e da Casa Civil no governo Dilma Rousseff e governador da Bahia. Deixou a liderança do governo Lula no Senado após operação da PF o acusar de atuar a favor do Banco Master, o que ele nega.

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