Foram mais de 56 horas de viagem até o outro lado do mundo. Na bagagem, poucas malas. No coração, uma mistura de medo, expectativa e saudade. Assim começou a nova vida da psicóloga acreana Kassia Geovanna, que deixou o Acre para trabalhar no Japão e hoje representa a história de milhares de brasileiros que decidiram recomeçar em outro país.
A experiência da psicóloga ganha ainda mais significado na semana em que é celebrado o Dia do Imigrante, lembrado nesta quinta-feira, 25. Mas ela não está sozinha. Em Portugal, outra acreana, Maria Mariana Moura, também construiu uma nova trajetória e descobriu que viver longe de casa significa aprender a dividir o coração entre dois lugares.
“Tive apenas quatro meses para mudar toda a minha vida”
Kassia chegou ao Japão no fim de janeiro de 2025, depois de ser aprovada em um processo seletivo para atuar como psicóloga infantil em um instituto brasileiro.
A aprovação veio no final de setembro de 2024. A partir dali, começou uma corrida contra o tempo para organizar documentos, despedidas e uma mudança internacional.
“Cheguei ao Japão no final de janeiro de 2025, depois de 56 horas de viagem. Tudo começou quando fui aprovada em um processo seletivo para atuar como psicóloga infantil. Tive apenas quatro meses para reorganizar completamente a minha vida.”
Ela conta que a mudança só foi possível graças ao apoio da família, dos amigos e dos professores.
“Recebi ajuda da minha família, do meu namorado, dos meus amigos e professores. Não teria como custear a passagem em tão pouco tempo. Foi um processo intenso, mas muito gratificante.”

A conquista teve um significado ainda maior dentro de casa. Kassia é a primeira pessoa da família a concluir uma graduação.
“Sou a primeira pessoa formada da minha família. Minha mãe nunca saiu do Brasil, então ver a filha partindo para o outro lado do mundo por causa da própria trajetória profissional foi motivo de muito orgulho para todos nós.”
O choque cultural do outro lado do mundo
Desde a chegada ao Japão, a acreana afirma que as diferenças culturais aparecem diariamente. Entre os aspectos que mais chamaram sua atenção estão a organização urbana, a segurança e os hábitos sociais.
“Acho que me deparo com as diferenças culturais o tempo todo: no funcionamento da sociedade, nos cuidados com a saúde, na segurança, no trânsito e nas relações sociais e de trabalho.”
Ela destaca ainda características que considera marcantes na rotina japonesa.
“A separação do lixo e a limpeza dos espaços públicos são impressionantes. Aqui, a polícia não anda armada e eu não sinto medo de caminhar sozinha na rua, mesmo à noite.”

Por outro lado, adaptar-se aos costumes locais exigiu mudanças de comportamento.
“Vindo de uma cultura tão animada e barulhenta, precisei aprender a conviver com o silêncio no metrô, as conversas baixas nos restaurantes e tantas outras sutilezas do cotidiano.”
Aprendendo a viver no inverno
Entre os principais obstáculos enfrentados no processo de adaptação, Kassia aponta a mudança brusca de clima.
“Sem dúvida, uma das principais dificuldades foi a mudança de clima. Sair do calor do Acre para um lugar com temperaturas abaixo de zero foi um desafio enorme.”

Falando português no Japão
O idioma também faz parte dos desafios diários. Embora exista uma comunidade brasileira expressiva e diversos serviços oferecidos em português, Kassia considera importante aprender a língua local.
“Aqui vivem muitos brasileiros e há muitas facilidades em português. Existem mercados brasileiros, atendimento com tradução na prefeitura e tive a sorte de encontrar pessoas muito gentis que sempre me ajudaram nas situações mais burocráticas.”

Ainda assim, ela acredita que o esforço para aprender o idioma representa uma forma de respeito ao país que a recebeu.
“Aprender o básico da comunicação foi importante para demonstrar respeito pelo país que me acolheu. Mesmo com toda essa rede de apoio, o idioma continua sendo um desafio.”
Mantendo o Acre por perto
Apesar da distância, a psicóloga mantém forte ligação com suas origens e faz questão de preservar elementos da cultura acreana em sua rotina.
“Eu sou a minha cultura e carrego minhas tradições comigo, isso faz parte da minha personalidade. Somos um povo aguerrido, afetuoso e atrevido.”
Ela também busca compartilhar hábitos e costumes brasileiros com amigos que fez no Japão.
“Aprendi a fazer meu quibe de arroz usando arroz japonês e apresentei a receita aos meus amigos. Faço cuscuz, utilizo o artesanato e pulseiras dos povos da floresta e tenho orgulho de dizer quem produziu e de onde venho em todos os lugares onde chego.”
A saudade que atravessa oceanos
Questionada sobre a vontade de retornar ao Acre, Kassia admite que sente saudade, mas afirma que está aproveitando a experiência no Japão.
“Às vezes me pego imaginando como será voltar ao Acre: se vou querer primeiro um tambaqui no Mercado Velho ou um açaí com farinha. Mas não houve situações que me fizeram sentir pressa de voltar. Estou aproveitando o momento presente. O Japão é incrível.”
A saudade, segundo ela, é a parte mais difícil da experiência de viver longe da família e dos amigos.
“A saudade é o que mais aperta. Lido com ela por meio das videochamadas e das redes sociais, embora elas não substituam um abraço nem permitam tomar um suco de cupuaçu da polpa só olhando uma foto.”

Mesmo distante, Kassia busca formas de manter os vínculos afetivos.
“Vou aprendendo a conviver com a saudade de um jeito que me permita senti-la e expressá-la. Amar também tem dessas coisas. Escolher estar longe, muitas vezes, significa abrir mão de alguns momentos para viver outros e a saudade é uma consequência inevitável.”
Recomeçar sem esquecer as raízes
Ao refletir sobre o significado da imigração, a psicóloga resume a experiência como uma transformação permanente, sem rompimento com as próprias origens.
“A minha experiência como imigrante pode ser diferente da de muitas pessoas que saíram do Acre, então acho difícil resumir. Mas, para mim, migrar é viver com o coração dividido e desejar estar em dois lugares ao mesmo tempo.”
Para ela, a mudança para outro país representa a oportunidade de reconstruir a vida sem perder a própria identidade.
“É romper com o que é familiar para habitar o desconhecido, permitindo que uma nova cultura transforme a forma como enxergamos a vida. Tudo muda quando decidimos partir. Migrar é recomeçar sem deixar de ser quem somos. Mesmo vivendo de outra forma, continuamos sendo nossas raízes.”
Futuro em terras portuguesas
Além de Kássia, outra acreana que decidiu cruzar os oceanos em busca de novos desafios foi Maria Mariana Moura, que hoje reside em Portugal. O objetivo inicial era cursar mestrado e contou com o apoio familiar para a mudança. O plano inicial, no entanto, acabou se ampliando ao longo dos anos.
“Cheguei em 2016. Os meus pais apoiaram a minha vinda para o mestrado, só não imaginavam que isto ia se prolongar para o doutorado e depois para o resto…”, contou.
Entre sotaques, humor e choque cultural cotidiano
A adaptação ao país europeu veio acompanhada de diferenças culturais marcantes, especialmente na forma de comunicação e nas relações sociais. Maria Mariana destaca que o cotidiano exigiu ajustes além da língua.
“A distância entre as pessoas, a sinceridade portuguesa e a seriedade deles em tudo (difícil de entender o nosso senso de humor)”, afirmou.
É igual, mas diferente
Apesar de compartilhar o mesmo idioma, a bacharel relata que o português de Portugal trouxe desafios próprios, principalmente no início da experiência acadêmica.
“O idioma foi um desafio sim. A mesma língua com sotaque e expressões muito diferentes. Nas aulas parecia grego. Mas depois habitua-se”, disse.
Ela também relata a existência de barreiras simbólicas relacionadas ao sotaque brasileiro. “Há um preconceito linguístico com o sotaque brasileiro e o nosso português, mas depois de uma década, tudo superado e o meu acreanês prevalece”, afirmou.
Vida construída entre dois mundos
A permanência prolongada em Portugal levou a uma reflexão sobre pertencimento e identidade, especialmente após a maternidade. Maria Mariana descreve a sensação de viver entre dois lugares.
“Muitas vezes penso, sobretudo depois do nascimento da minha filha luso-acreana. Ter a família e amigos por perto do nosso jeito é muito diferente. Ao mesmo tempo, a vida está construída aqui e quando se é imigrante, você se parte em metades e não é inteiro mais em lugar nenhum.”
Novos hábitos e raizes acreanas
Ao longo dos anos, a brasileira incorporou elementos da cultura portuguesa ao cotidiano, sem abrir mão das referências acreanas.
“Da cultura portuguesa incorporei as festas dos Santos populares e comer doce na praia (bola de Berlim).”

Por outro lado, ela mantém hábitos ligados ao estado de origem e à identidade regional.
“Não falta farinha de Cruzeiro do Sul em casa! E eu falo ‘maninha’ e ‘égua’ para não perder o costume! E acho que o calor acreano fica aqui. Gosto de sempre receber acreanos por aqui e mostrar a cidade!”
Entre festas, futebol e adaptações
A convivência entre culturas também aparece em momentos de lazer e celebração, com adaptações aos costumes locais e brasileiros.
“Sim, festa e animação na Copa do Mundo e Peru no Natal (nada de bacalhau!)”, afirmou.
Metade aqui, metade lá
Ao refletir sobre a experiência de viver fora do país, Maria Mariana resume a condição do imigrante em uma palavra.
“A palavra seria ‘metade’.”
Ela explica que a saudade não é ausência, mas um sentimento constante que acompanha a vida no exterior. “A saudade existe, mas ela não é um sentimento de tristeza. É a certeza que o amor atravessa o oceano e não depende de presença física. Mas de vez em quando é muito bom acabar com ela!”

