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“Não existe solução definitiva”, diz DNIT sobre erosão que ameaça pontes e margens de rios no Acre

Por Redação Juruá em Tempo.16 de junho de 20268 Minutos de Leitura
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O desabamento parcial da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, ocorrido na noite de 5 de junho, trouxe à tona um fenômeno conhecido há décadas na Amazônia: as chamadas “terras caídas”. A estrutura, inaugurada há cerca de dois anos e meio e construída ao custo de R$ 36 milhões, teve aproximadamente 60% de sua extensão destruída após ceder sobre o Rio Iaco, deixando quatro pessoas feridas.

Enquanto a obra segue sob investigação e a Justiça já determinou o bloqueio de bens da empresa responsável pela construção, a reportagem do ac24horas ouviu o superintendente regional do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) no Acre, Ricardo Araújo, que explicou os aspectos técnicos do fenômeno e os desafios enfrentados pela engenharia na região amazônica.

O que são as “terras caídas”?

Segundo Ricardo Araújo, o fenômeno corresponde ao desmoronamento das margens dos rios provocado pela erosão contínua causada pela força da água. “Com o tempo, o rio remove o material que sustenta a base da margem. Isso reduz a estabilidade do terreno até ocorrer o colapso. É um processo natural dos rios amazônicos, mas que pode causar impactos significativos quando atinge áreas ocupadas ou estruturas de infraestrutura”, explicou.

O gestor destaca que a situação é agravada pelas características naturais da Amazônia. Durante os períodos de cheia, os solos ficam saturados pela água, reduzindo sua resistência. Já nas vazantes, a rápida queda do nível dos rios retira o suporte hidráulico que ajudava a sustentar as margens, favorecendo os deslizamentos.

No Acre, o problema é potencializado pela predominância de solos argilosos, conhecidos por sofrerem ciclos de expansão e retração conforme variam os níveis de umidade.

Fenômeno comum na Amazônia

De acordo com o DNIT, as terras caídas não são um evento isolado nem exclusivo do Acre. Trata-se de um processo regional que acompanha a própria dinâmica natural dos rios amazônicos.“É um fenômeno bastante característico da Amazônia. A combinação entre erosão fluvial, grandes oscilações dos níveis dos rios e características dos solos cria um ambiente naturalmente propício para esse tipo de ocorrência”, afirmou Araújo.

Ele ressalta que a engenharia já possui conhecimento técnico consolidado para identificar áreas de risco e desenvolver soluções de mitigação, mas alerta que cada caso exige estudos específicos.“O desafio não está na falta de conhecimento técnico, mas na complexidade dos sistemas fluviais amazônicos. Não existem soluções padronizadas. Cada situação precisa ser analisada individualmente”, pontuou.

Acre convive historicamente com o problema

O superintendente destacou que o Acre registra frequentemente episódios relacionados às terras caídas, especialmente ao longo dos rios Acre, Purus, Iaco, Envira, Juruá e seus afluentes.

Segundo ele, a erosão contínua das margens faz parte da evolução natural desses rios, mas pode provocar prejuízos para comunidades ribeirinhas, vias de acesso, edificações e obras públicas.“O fenômeno ocorre quando a correnteza remove gradativamente a base da margem. A parte superior perde sustentação e acaba desabando. Isso faz parte da dinâmica dos rios amazônicos, mas pode representar riscos quando há ocupação humana próxima”, explicou.

Existe prevenção?

Para o DNIT, a principal forma de prevenção é investir em estudos geotécnicos e hidrológicos antes da implantação de qualquer obra. “A prevenção começa pelo conhecimento do terreno. Estudos adequados permitem identificar áreas instáveis e orientar projetos mais seguros”, destacou.

Entre as soluções utilizadas pela engenharia estão obras de contenção de margens, sistemas de drenagem, estabilização de taludes, proteção contra erosão e monitoramento permanente das áreas de risco.

Araújo enfatiza, porém, que não existe uma solução definitiva para impedir a ação natural dos grandes rios amazônicos.“O objetivo da engenharia não é impedir que o rio evolua naturalmente, mas reduzir riscos, aumentar a segurança e adaptar as obras ao comportamento do ambiente”, afirmou.

Outras estruturas também enfrentam riscos

O DNIT confirmou que o fenômeno das terras caídas representa ameaça para diversas obras de infraestrutura na Amazônia. Entre os casos citados pelo órgão estão a ponte sobre o Rio Caeté, no Acre, além das pontes sobre os rios Curuçá e Autaz-Mirim, localizadas na BR-319.“São estruturas que exigem monitoramento constante devido às características dos rios e dos solos da região”, declarou Araújo.

Medidas em andamento

Segundo o superintendente, o órgão atua em três frentes principais: monitoramento contínuo, estudos técnicos e intervenções emergenciais quando necessário.

No caso da ponte sobre o Rio Caeté, por exemplo, já existe uma contratação emergencial em andamento para reduzir riscos e avaliar soluções definitivas. Entre as alternativas analisadas estão obras de contenção, proteção de margens, melhoria de solo e aplicação de tecnologias como o jet grouting, técnica utilizada para reforço geotécnico de terrenos instáveis.

Estudos avançam no Acre

Ricardo Araújo também destacou que universidades e instituições de pesquisa vêm ampliando o conhecimento sobre o fenômeno no estado.

Pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e por outros centros de pesquisa têm contribuído para o mapeamento de áreas suscetíveis, avaliação de riscos e desenvolvimento de metodologias de monitoramento.“O aprofundamento desses estudos é fundamental para aprimorar as estratégias de prevenção, orientar intervenções de engenharia e aumentar a segurança das populações e das estruturas localizadas próximas aos rios”, concluiu.

Veja a entrevista de Ricardo Araújo na íntegra:

1. O que é o fenômeno conhecido como “terras caídas”, que estaria relacionado ao colapso da ponte em Sena Madureira?

Resposta: O fenômeno conhecido na Amazônia como “terras caídas” corresponde ao desmoronamento das margens dos rios, provocado principalmente pela ação erosiva da água na base dos taludes. Com o tempo, o rio remove material de sustentação da margem, reduzindo sua estabilidade até ocorrer o colapso. Esse processo é intensificado pelas grandes variações do nível dos rios amazônicos, que saturam os solos durante as cheias e os fragilizam durante as vazantes. No Acre, a situação é ainda mais sensível devido à predominância de solos argilosos, que apresentam comportamento expansivo e são naturalmente mais suscetíveis a movimentos de massa.

2. Trata-se de um fenômeno local ou regional? Engenheiros, empreiteiras e construtoras estão preparados para lidar com esse tipo de ocorrência?

Resposta: Trata-se de um fenômeno bastante característico da Amazônia, especialmente em áreas sujeitas à dinâmica dos grandes rios. Sua ocorrência está relacionada a fatores naturais comuns na região, como a erosão fluvial, as intensas variações dos níveis dos rios ao longo do ano e as características geotécnicas dos solos, que, no Acre, são predominantemente argilosos e mais suscetíveis à instabilidade quando submetidos a ciclos de saturação e secagem. Quanto à capacidade de lidar com esse tipo de ocorrência, a engenharia dispõe de conhecimento técnico consolidado para sua identificação, monitoramento e mitigação. Existem diversos estudos desenvolvidos na região amazônica sobre erosão de margens, movimentos de massa e estabilidade de taludes fluviais, que fornecem subsídios para projetos, obras e intervenções mais seguras. O grande desafio, muitas vezes, não é a ausência de conhecimento técnico, mas a complexidade da dinâmica natural dos rios amazônicos e a necessidade de investigações geotécnicas e hidrológicas adequadas para cada situação específica.

3. O Acre sofre frequentemente com esse fenômeno? Como ele ocorre e quais são suas principais causas?

Resposta: Sim. O Acre sofre frequentemente com esse fenômeno porque ele está diretamente ligado à dinâmica natural dos rios amazônicos. A erosão das margens, as grandes variações do nível dos rios e os solos argilosos da região criam condições favoráveis para desmoronamentos que conhecemos popularmente como terras caídas.

4. O que pode ser feito para evitar que construções sejam afetadas ou destruídas por esse processo?

Resposta: A principal forma de prevenção é conhecer o terreno antes de construir. Estudos geotécnicos e hidrológicos permitem identificar áreas de risco e orientar projetos mais seguros. Quando necessário, a engenharia dispõe de técnicas de contenção de margens, drenagem, proteção contra erosão e monitoramento contínuo para reduzir significativamente os riscos associados às terras caídas. Não há registro de solução definitiva contra a dinâmica natural de um grande rio amazônico. O objetivo da engenharia é reduzir riscos, aumentar a segurança e adaptar as obras ao comportamento do rio, e não simplesmente impedir que ele evolua naturalmente.

5. O DNIT tem conhecimento de outras estruturas ou obras ameaçadas pelo fenômeno das terras caídas? Quais?

Resposta: Sim. O fenômeno das terras caídas já afetou e continua representando risco para diversas obras de infraestrutura na Amazônia. Casos associados à erosão de margens podem ser observados em estruturas como a ponte sobre o Rio Caeté e as pontes sobre os rios Curuçá e Autaz-Mirim, na BR-319. Por isso, o monitoramento contínuo e os estudos geotécnicos são fundamentais para garantir a segurança e a durabilidade dessas obras.

6. O que o órgão tem feito para prevenir ou minimizar esses impactos?

Resposta: O órgão atua em três frentes principais: ações emergenciais quando há risco imediato, monitoramento contínuo das estruturas e estudos técnicos para definição das melhores soluções de engenharia. No caso da ponte sobre o Rio Caeté, por exemplo, existe uma contratação emergencial em andamento, enquanto equipes acompanham as condições da estrutura e da região. Paralelamente, são avaliadas alternativas de estabilização e melhoria do solo, como contenções, proteção de margens e técnicas como o jet grouting, sempre considerando a viabilidade técnica de cada caso.

7. Existe algum projeto ou estudo aprofundado em andamento sobre o fenômeno no Acre?

Resposta: Existem estudos importantes sendo desenvolvidos no Acre sobre erosão fluvial, estabilidade de margens e movimentos de massa associados às chamadas terras caídas. Além de estudos acadêmicos e técnicos realizados por instituições de pesquisa e pela Universidade Federal do Acre (Ufac), cada situação que envolve infraestrutura crítica demanda investigações geotécnicas específicas, que subsidiam as decisões técnicas e as medidas de mitigação adotadas pelos órgãos responsáveis.

Por: AC24horas.
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