O compasso de Gilberto Gil traçou o ritmo da cerimônia de entrega do 23º Prêmio Faz Diferença, na noite desta quinta-feira (11), na Casa Firjan, em Botafogo. Apresentada por Míriam Leitão e Ancelmo Gois, colunistas do GLOBO, a festa teve como ponto alto a premiação do cantor, compositor, ex-ministro da Cultura e imortal da Academia Brasileira de Letras como Personalidade do Ano de 2025. Aos 83 anos — prestes a completar 84 daqui a duas semanas —, o homenageado, que ajudou a desenhar parte fundamental da cultura e do pensamento no Brasil nas últimas seis décadas, recebeu a honraria das mãos de João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e de Alan Gripp, diretor de redação do jornal. O Faz Diferença é uma realização do jornal O GLOBO, com patrocínio da Firjan SESI e apoio da Petrobras, Light e Naturgy.
— Eu teria feito diferença com um ano de idade se tivesse nascido com dez quilos ou qualquer coisa assim. Mas foi preciso chegar aos 84, que estou chegando agora, ter produzido uma obra festejada por todo o Brasil, por todos os nossos queridos homens, mulheres e crianças que se lambuzam com nossa música — disse Gil, agradecendo a premiação, que teve trilha sonora instrumental de suas canções ao longo de todas as homenagens da noite. — Esse prêmio me honra muito, me dá alegria e justifica toda essa trajetória de tantos anos.
A homenagem ao autor de “Tempo Rei” foi precedida pela apresentação da Orquestra Maré do Amanhã, sob regência dos maestros Filipe Barreto Kochem e Rômulo de Freitas Santos Nicolai. No palco da Casa Firjan, os 14 cantores e oito músicos emocionaram Gil (e a plateia, claro) ao entoar “Palco”, um dos muitos clássicos do repertório do baiano.
Na abertura da cerimônia, João Roberto Marinho falou sobre a essência do Prêmio Faz Diferença: valorizar pessoas capazes de tornar o Brasil um país melhor.
— Para nós, do GLOBO, a festa do Faz Diferença é uma das noites mais especiais do ano. Porque esse prêmio nasceu de uma crença simples que acompanha o jornal desde a sua fundação por Irineu Marinho, nosso avô, em 1925: a de que o Brasil está repleto de pessoas capazes de torná-lo melhor — disse o presidente do Grupo Globo.
Na sequência, foi a vez de Luiz Césio Caetano, presidente da Firjan, afirmar que o prêmio celebra pessoas e empresas que buscam um “futuro brilhante”. No discurso, ele aproveitou para lembrar o fato de que na terça-feira (9) o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) decidiu, por unanimidade, determinar o tombamento do Palacete Linneo de Paula Machado e de seus jardins, atual sede da Casa Firjan, palco do Faz Diferença deste ano.
— O Faz Diferença reconhece pessoas e empresas que contribuem para um Brasil melhor. Em 2027, a Firjan comemora 200 anos atuando pelo benefício da população fluminense. Iniciativa de um futuro mais próspero que nos faz lembrar da letra de nossa personalidade do ano:. Que “o Rio de Janeiro continua lindo” seja associado a um futuro brilhante que vamos buscar — disse Luiz Césio Caetano, citando o verso icônico de “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil.
Mariangela Hungria
Pesquisadora da Embrapa, a engenheira agrônoma Mariangela Hungria foi premiada com o Faz Diferença na categoria Economia. O trabalho dela é considerado fundamental para o desenvolvimento de insumos biológicos utilizados na produção agrícola brasileira.
Mariangela Hungria — que este ano entrou na lista das cem pessoas mais influentes do mundo da revista Time — recebeu o prêmio do vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo GLOBO, José Roberto Marinho, e da editora de Economia, Luciana Rodrigues.
— Estou muito emocionada de estar aqui. Uma premiação na categoria Economia representa muito para nós cientistas. Nunca tive um centímetro de dúvida que teria espaço para os biológicos na agropecuária brasileira. Dentro de todo cientista existe um economista. Para fazer ciência nesse país, com a falta de apoio, é preciso fazer economia. Na última safra da soja, ao substituir produtos químicos por biológicos economizamos US$ 29 milhões — afirmou Hungria.
Débora Garofalo
Em 2015 ela decidiu transformar o pouco que tinha, sucatas, basicamente, em material para o desenvolvimento educacional de seus alunos. Dez anos depois, a professora Débora Garofalo se tornou a educadora mais influente do mundo, segundo a Varkey Foundation, criadora do Global Teacher Prize, considerado o Nobel da Educação.
Vencedora do Faz Diferença na categoria Educação, ela recebeu o prêmio de Flávia Barbosa, editora executiva do GLOBO, e Thiago Bronzatto, diretor da sucursal de Brasília do jornal.
— Muito obrigado por reconhecerem a educação. Sou professora da rede pública de ensino. Assumi outros cargos executivos, mas minha essência é o chão da escola, lugar onde sinto que posso fazer a diferença no mundo, principalmente na periferia. Temos falta de infraestrutura, problemas na formação docente, mas temos avanços, como quando a gente lembra que essa escola já foi para poucos. Hoje é para muitos — Débora Garofalo.
Marisa Monte
O universo particular da música brasileira esteve representado no Faz Diferença por outra gigante do cancioneiro nacional. Vencedora na categoria ELA, a cantora Marisa Monte. Diretamente da Paraíba, onde se apresentará na sexta-feira no palco principal do São João de Campina Grande, ela enviou um vídeo para agradecer a premiação:
— Esse prêmio me honra, me motiva, me dá força para seguir sempre fazendo o meu melhor e fazendo a diferença — disse a diva.
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura
No ano passado, o cada vez mais totalmente premiado cinema nacional foi destaque no Faz Diferença com a presença de Walter Salles e Fernanda Torres, escolhidos na categoria Personalidades do Ano. Desta vez, na categoria Cinema, o nível seguiu nas alturas com mais uma dupla estreladíssima: o diretor Kleber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura foram os vencedores.
Os dois não puderam comparecer, mas foram representados por Emilie Lesclaux, produtora de “O agente secreto”, que recebeu o prêmio de André Miranda, editor executivo do GLOBO, e de Ana Claudia Esteves, gerente de publicidade e mídia da Petrobras.
— É uma honra estar cercada de pessoas que eu admiro e em quem me inspiro. Tanto o Kleber quanto o Wagner vêm do jornalismo, então é um prêmio que com certeza tem um significado muito especial para eles — disse Lesclaux.
Em vídeo, Kleber e Wagner também agradeceram a premiação:
— Coloco todo o crédito do sucesso do filme no Kleber Mendonça Filho, um artista extraordinário. “O Agente Secreto” foi uma das maiores experiências que eu tive em um set de cinema — disse o ator, que está em meio a mais um trabalho audiovisual nos Estados Unidos.
Do outro lado do mundo, na Austrália, onde está para participar do Festival de Sydney, o diretor de “O som ao redor” deixou seu recado:
— Num país onde vimos nos últimos anos uma série de ataques totalmente estúpidos contra os que fazem a cultura neste país, lançarmos um filme e termos o respeito da grande mídia não é pouca coisa — ressaltou o cineasta.
Debora Bloch
Sucesso absoluto na pele de uma das vilãs mais icônicas da teledramaturgia brasileira, Debora Bloch fez o Brasil parar diante das telinhas em 2025. Seu desempenho como Odete Roitman no remake de “Vale Tudo” rendeu o Faz Diferença na categoria TV e Séries.
— É um prêmio muito especial por ser por essa personagem. Era um enorme desafio, uma grande responsabilidade. Era um risco recriar uma personagem que ficou icônica na interpretação maravilhosa de Beatriz Segall, numa novela que foi um grande sucesso, um acerto de direção e de elenco — afirmou Debora Bloch, que recebeu o prêmio das colunistas do GLOBO Patricia Kogut e Vera Magalhães.
A atriz dedicou o prêmio ao pai, o ator Jonas Bloch, que estava na plateia, e enfatizou a importância das novelas na cultura brasileira:
— Achei muito legal ganhar um prêmio que se chama Faz Diferença com uma personagem de novela, porque acho que muitas vezes a novela é subestimada por alguns setores. Mas a novela é uma expressão artística muito democrática, muito acessível a todos os brasileiros. Num país como o Brasil, que é tão grande, ela chega aos lugares mais remotos.
Michelin
A Michelin foi a vencedora do Prêmio Faz Diferença na categoria Indústria: Futuro do Rio. A empresa foi reconhecida pela condução do programa Praia para todos, iniciativa criada pelo Instituto Novo Ser que promove a inclusão e acessibilidade por meio de atividades gratuitas de esporte e lazer na praia para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.
Ana Cristina Lopes, diretora de Relações Institucionais e Corporativas da Michelin, subiu ao palco para receber o prêmio das mãos de Frederic Kachar, Diretor Geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, e Luiz Césio Caetano, presidente da Firjan.
— A Michelin vai fazer cem anos em 2027 sempre buscando chamar as pessoas para construir um futuro juntos. Ao longo de todos estes anos, ajudamos mais de 60 mil pessoas em várias praias cariocas. E convido as pessoas a conhecerem este programa tão inspirador — disse.
Othon Bastos
Em 2025, o ator Othon Bastos viajou o Brasil com a peça “Não me entrego, não!”, monólogo escrito por Flávio Marinho no qual o ator repassa sua trajetória artística de 70 anos. Ele levou o prêmio na categoria Artes Cênicas. O intérprete de Corisco no filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) de Glauber Rocha está em casa se recuperando do rompimento de um tendão e foi representado pelo filho Pedro, que recebeu prêmio de Marcelo Balbio, editor de Cultura, e de Malu Gaspar, colunista do jornal. Em vídeo, Othon Bastos agradeu o reconhecimento:
— Obrigado, obrigado, muito obrigado. Obrigado ao Jornal O GLOBO por esse evento e ao júri pelo prêmio Faz Diferença. Lamento profundamente não poder estar presente, mas meu amigo acaso teve planos diferentes para mim. Aproveitem a festa e divirtam-se! — desejou Bastos, em vídeo.
Museu do Amanhã
Símbolo da revitalização do Centro da cidade há pouco mais de 10 anos, o Museu do Amanhã recebeu apenas em 2025 cerca de 1,3 milhão de visitantes, se consolidando como o museu mais visitado da América do Sul, entre instituições de arte e de ciência. Cristiano Vasconcelos, diretor executivo do museu, e Ricardo Piquet, diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), subiram ao palco para receber o prêmio das mãos de Rafael Galdo, editor de Rio, e Alexandre Nogueira, presidente da Light.
— Temos que agradecer aos cariocas. No mês que vem vamos ultrapassar a marca de 9 milhões de visitantes. Nesses anos, passamos por pandemônios antes da pandemia, quando um prefeito, um governador e um presidente eram contra a ciência, mas conseguimos prosseguir. É uma alegria receber este prêmio. O museu já foi reconhecido em todo mundo, mas esse prêmio no Rio é especial — destacou Ricardo Piquet.
Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri)
Vencedor da categoria Mundo do Prêmio Faz Diferença, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) é reconhecido por promover o debate contínuo sobre temas centrais da agenda internacional e sobre como o Brasil se insere nessas discussões globais. A diretora-presidente do Cebri, Julia Dias Leite, e o presidente do Conselho Curador da instituição, José Pio Borges, receberam o prêmio da editora de Mundo, Leda Balbino, e do colunista Lauro Jardim.
— O Cebri foi criado há 28 anos sob a inspiração do nosso saudoso chanceler Luiz Fernando Lampreia, que percebeu a crescente inserção do Brasil no mundo e o papel de um think tank independente e apolítico para oferecer uma perspectiva brasileira sobre o Brasil no cenário internacional — afirmou José Pio Borges. — Foram vários os percalços que enfrentamos, vários os lugares que ocupamos, mas essa premiação nesta noite também celebra nossa nova sede.
Lincoln Gakiya
Com mais de duas décadas de atuação no combate ao crime organizado, o promotor Lincoln Gakiya subiu ao palco da Casa Firjan para receber o Prêmio Faz Diferença 2025 na categoria Brasil. Integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, Gakiya recebeu a honraria das mãos do editor executivo Paulo Celso Pereira e de Thiago Prado, editor de Política e Brasil.
— O Brasil não precisa de ídolos ou heróis. Tenho tido homenagens apenas por cumprir o meu dever. Clamo que esse país esqueça a polarização política e faça um pacto contra o crime organizado. Hoje, devido à omissão do Estado brasileiro, temos nossa soberania questionada com a classificação pelos EUA do CV e do PCC como grupos terroristas — disse Gakiya ao agradecer o prêmio.
Carlos Monteiro
O Faz Diferença na categoria Ciência e Saúde foi entregue ao professor e pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Monteiro, uma das primeiras vozes no mundo a alertar sobre os riscos de uma dieta baseada nos chamados alimentos ultraprocessados. O troféu foi entregue por Adriana Dias Lopes, editora de Saúde, e Bernardo Mello Franco, colunista do jornal.
— Sou fã da imprensa brasileira. Queria agradecer ao GLOBO e às pessoas que julgaram que nosso trabalho faz diferença. Aos meus colegas do Nupens, onde o conceito (de ultraprocessados) foi formado. Agradeço a USP, onde fiz minha formação acadêmica e onde trabalho há cinquenta anos — disse Monteiro.
Afonso Borges
O Faz Diferença na categoria Livros foi para o mineiro Afonso Borges, que há pelo menos quarenta anos se dedica à divulgação de escritores nacionais. O gestor cultural, jornalista e empresário estima ter organizado cerca de oito mil eventos voltados para dar visibilidade ao trabalho de escritores de todo o país. Borges recebeu o prêmio de Letícia Sander, editora executiva do GLOBO, e do colunista e presidente da ABL Merval Pereira.
— Agradeço ao Jornal O GLOBO pelo prêmio. Reverencio Toni Belotto e Ana Maria Gonçalves, meus parceiros nesse prêmio. Agradeço aos jurados e a quem votou em mim país afora. Apesar do avanço das redes sociais, uma coisa permaneceu intacta: a conversa verdadeira e olho no olho. É a síntese de uma trajetória construída na presença, no diálogo e com artistas como o Gil, plateias, ideias e pessoas. Produzi mais de oito mil eventos em mais de 40 cidades brasileiras. E uma certeza perpassa o tempo: a literatura é a única coisa capaz de aproximar as pessoas de forma profunda — disse Afonso Borges.
Hugo Calderano
O Prêmio Faz Diferença da categoria Esporte ficou com o atual quinto colocado do ranking mundial masculino do tênis de mesa: Hugo Calderano. O atleta ajudou a consolidar a imagem do Brasil no mapa da modalidade com sucessivas conquistas ao longo de seus 20 anos de carreira. Em 2025, tornou-se o primeiro latino-americano a vencer a Copa do Mundo do esporte. Por conta de compromissos profissionais, o atleta não pode comparecer à festa, mas enviou um vídeo de agradecimento:
— Dois mil e vinte e cinco foi, sem dúvidas, o melhor ano da minha carreira até aqui, com o título da Copa do Mundo e a medalha de prata no Campeonato Mundial. Mas recebo esse prêmio como um reconhecimento à conquista que eu considero a mais importante, a mais relevante na minha carreira, que é ter colocado o Brasil no topo de tênis do mesa mundial e ter apresentado o tênis de mesa a um número muito maior de pessoas — disse ele.
João Gomes
E na categoria Música… o Faz Diferença foi para o pernambucano João Gomes. Ao apresentar o premiado, Míriam Leitão afirmou que o cantor e compositor “mostrou que o Brasil tem cores que nenhum algoritmo pode prever”. O artista de 23 anos, vencedor do Grammy Latino pelo projeto “Dominguinho”, não pôde comparecer à cerimônia.

