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Tão perto e tão longe: a 20 minutos do estádio da estreia, bairro mais brasileiro dos EUA não consegue ter contato com a seleção

A cerca de 20 minutos do MetLife Stadium, onde o Brasil estreia neste sábado na Copa do Mundo, um bairro de Newark, Nova Jersey, leva uma rotina bem diferente da de um típico cenário americano. Na caixa de som na entrada de uma loja de móveis, Alceu Valença deixa o dia mais animado. Lojas esportivas estampam produtos com os símbolos de clubes de futebol brasileiros. Restaurantes vendem churrasco, feijoada e comida mineira. E o inglês não é escutado em lugar algum. Só espanhol ou português.

— Aqui é um pedacinho de Brasil — resume Aderlânio, o “Baiano”, que deixou Itanhém-BA há 22 anos.

O bairro de Ironbound é conhecido por reunir a comunidade portuguesa, brasileira e hispano-americana. Os lusitanos foram os primeiros a migrar para lá, nos anos 1950. A partir dos anos 1990, a região começou a ganhar um toque verde e amarelo. Mais recentemente, veio a onda das outras nacionalidades latinas.

Bar dá as boas-vindas com as cores e o nome do Brasil em Ironbound, Newark, em Nova Jersey — Foto: Rafael Oliveira

Nos anos 2000, os brasileiros chegaram a superar os portugueses e formar maioria na região. Não há números oficiais. Mas estima-se que, hoje, sejam entre 12 e 13 mil. Está longe de ser a maior comunidade verde e amarela dos Estados Unidos. Entretanto, estão mais concentrados do que em outras regiões do pais, formando uma espécie de bolha.

— Newark é um lugar onde você chega e se sente apoiado. Tem lojas brasileiras, supermercados… É uma zona de conforto mesmo. Ele ficam muito à vontade. Todo mundo fala português, até na polícia tem brasileiros — explica Rafael Moreira, que chegou na cidade aos 15 e, depois de 30 anos, é dono de uma rede de bares e lanchonetes na localidade.

Há brasileiros de diversas origens. Mas a grande maioria vem de Minas Gerais. Até por isso, a culinária mais presente é a do estado, seja nos restaurantes ou nas padarias. E as camisas de clubes mais encontradas são as da dupla Cruzeiro e Atlético-MG.

Kathlen Santos e o amigo Manuel Batista vão assistir aos jogos do Brasil pela TV e já têm programação — Foto: Rafael Oliveira

A presença brasileira é percebida de diversas formas. As padarias oferecem pão de queijo e pão francês (que você não encontra com facilidade no restante dos EUA). O bairro conta, inclusive, com uma filial da Igreja Universal. E até barraca de pastel com caldo de cana pode ser encontrada (embora a bebida não tenha o mesmo sabor da do Brasil).

— Cada um tem uma realidade diferente. Muitos moram aqui, outros vão para uma cidade vizinha. E normalmente os que moram fora de Newark têm aqui como uma referência e vêm para cá no fim de semana — completa Moreira.

O empresário já tem seu ingresso garantido para o jogo entre Brasil e Haiti, no dia 19, na Filadélfia. Mas ele é uma exceção na região. A maioria não irá ao estádio.

— É too much money. Está caro demais — comenta Aderlânio. — Tinha a expectativa de ir porque achava que os valores seriam iguais aos do Mundial de Clubes (do ano passado). Ali foi acessível. Pensamos que iria ser só um pouco mais caro. Mas está muito mais.

Figurinhas da Copa são anunciadas em Ironbound, o bairro mais brasileiro de Newark, Nova Jersey — Foto: Rafael Oliveira

Longe do sonho americano

Esqueça a ideia do sonho americano. A grande maioria dos brasileiros que vivem em Newark não chega pelos trâmites oficiais, o que influencia nos empregos que conseguem encontrar. Graças a rede de apoio já estabelecida pela comunidade, é fácil arrumar trabalho. Mas são na área da construção, para os homens; e de faxina e salão de beleza, para mulheres. Além do comércio, para todos em geral. Quando as vendas começaram, os ingressos mais baratos para o jogo do Brasil custavam cerca de 1 mil dólares. Isso equivale a uma semana ou até duas de trabalho para estas pessoas.

— As pessoas pensam que a vida aqui é fácil. Mas não é. Além do gasto com o ingresso, tem o transporte, bebida e comida no local. Está tudo muito caro. Além disso, ir para o jogo é deixar de trabalhar um dia — explica Katyane Freitas, que trabalha com faxinas. — A gente gasta dinheiro com aluguel, com babá das crianças para podermos ir trabalhar… Não dá para nos comprometermos com esse custo.

Camisas de clubes de futebol brasileiros são vendidas na rua em Ironbound, Nova Jersey — Foto: Rafael Oliveira

Ver a seleção na entrada do hotel ou do CT foi uma opção considerada por muitos. Mas o forte esquema de isolamento da delegação e o local isolado escolhido para hospedagem criaram uma barreira. Grupos barrados a metros de distância da entrada do centro de treinamentos chamaram a atenção nos primeiros dias. Depois, a quantidade de pessoas caiu.

Os poucos que conseguiram ir aos treinos abertos foram através de contatos com a prefeitura de Morristown (cidade onde fica o centro de treinamento) e outras organizações. Ou convidados de patrocinadores, como influenciadores ligados às marcas que apoiam à CBF e o cineasta Spike Lee. O brasileiro médio morador da região foi privado até deste contato.

— Os que vêm do Brasil como turistas vão frequentar mais os estádios do que os próprios brasileiros que moram aqui — aposta Amauri Ferreira, que deixou São Paulo há 10 anos. — Sempre gostei de futebol, sou corintiano e fiquei bem animado quando soube que a Copa iria ser aqui. Mas os ingressos estão muito caros. Poderiam ter sido mais acessíveis.

Em geral, pode-se perceber que a maioria dos brasileiros da região são pessoas que, sem muitas perspectivas de futuro na própria terra, rumaram para os EUA em busca de uma vida melhor. Trabalho não falta, e o pagamento é em dólar. A qualidade de vida é melhor do que a que tinham. Mas, tirando o aspecto financeiro, o coração sente falta do Brasil. Conseguir ver a seleção de perto seria uma oportunidade de matar esta saudade.

— Por isso que podia ser um ingresso menos salgado. Porque esses brasileiros vêm para o exterior, mas a cabeça deles ainda fica no Brasil — opina Carlos Cascardo, mais conhecido na região como Carlão Newarkão.

Carlão Newarkão e sua esposa, Elene: influenciador local conhecido por todos — Foto: Rafael Oliveira

Caminhar com Carlos nas ruas de Ironbound é andar com uma celebridade. Ao vê-lo, todos abrem um sorriso e imitam seu bordão (uma espécie de “uuuhhh”). Carioca de Jacarepaguá, deixou o Brasil em 2011 após sofrer seguidas tentativas de sequestro. Hoje, é um influenciador local conhecido por todos. Em seus perfis no Instagram (41 mil seguidores) e no Facebook (28,mil seguidores), ele conta (em português, claro) todas as notícias de utilidade pública sobre Newark que recebe de fontes e seguidores. Hoje, ninguém conhece tão bem a comunidade brasileira quanto ele:

— Trabalham muito aqui. Têm pouco tempo para diversão. Eu, por exemplo, quando cheguei e era entregador, trabalhei por três anos sem tirar um dia de folga. Tem muita gente que passa por isso aqui. Porque hoje os aluguéis estão muito caros, o combustível também. Se você é imigrante, tem que pagar as contas. Então é trabalho, trabalho, trabalho.

Medo de prisão

A política migratória atual é outro empecilho. Em meio ao verde e amarelo, é possível notar a tensão. O número de brasileiros em Ironbound era de cerca de 15 mil antes do segundo mandato de Donald Trump. Alguns foram presos. Outros, assustados, decidiram retornar ao Brasil. O comércio sentiu o baque através da queda nas vendas.

— Há duas horas, vimos um homem ser preso quando deixava o filho na escola. É muito triste — conta a mineira Kathlen Santos, há seis anos em Newark, que antes de conceder entrevista pediu à reportagem que apresentasse alguma identificação profissional. — Você pode sair para o estádio, ser detido e deixar um filho sozinho em casa. As pessoas ficam com receio.

Bares e restaurantes de Ironbound, bairro dos brasileiros em Newark, na expectativa para os jogos da seleção na Copa do Mundo — Foto: Rafael Oliveira

Mas nem por isso a vida é em preto e branco em Newark. Bares e restaurantes se preparam para receber o público nos jogos do Brasil. Também haverá um espaço aberto com telão para grupos maiores. Ainda que pela tela, a brasilidade ficará acirrada. E não vai faltar energia positiva para Vini Jr, Ancelotti, Neymar & cia.

— Mas mesmo assim a gente se sente pertinho de casa. A gente reúne todo mundo em família. Já temos até programação — completou Kathlen.

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