O vira-lata caramelo é brasileiro? A pergunta ganhou força nas últimas semanas após uma decisão do Estado do México reacender uma disputa inusitada sobre a identidade de um dos cães mais populares do país. Presente em ruas, praças e bairros de norte a sul do Brasil, o caramelo virou símbolo da cultura nacional, mas agora também é reivindicado pelos mexicanos.
Em abril, a Procuradoria Ambiental do Estado do México declarou o chamado “perro caramelo” uma raça mexicana nativa, ao lado de cães tradicionalmente associados ao país, como o chihuahua. A medida repercutiu no Brasil e provocou reações de quem vê no animal um retrato da própria formação da sociedade brasileira. “Como podem dizer que o caramelo não é brasileiro? É a cara do Brasil”, afirmou a tutora Luciana Valle ao The New York Times.
A história do caramelo se confunde com a do Brasil
Embora não seja uma raça oficialmente reconhecida, o vira-lata caramelo é resultado de séculos de cruzamentos entre cães trazidos por colonizadores e imigrantes de diferentes partes do mundo. Um estudo genético conduzido pela empresa DNA Pets identificou traços de quase 300 raças em sua composição. Segundo a geneticista Jaqueline Oliveira Rosa, responsável pela pesquisa, a miscigenação desses animais acompanhou a própria formação do país.
“A história do caramelo é a história do Brasil”, resumiu a pesquisista.
Especialistas apontam que características como a pelagem curta e castanha contribuíram para a adaptação desses cães ao clima tropical. Além disso, a ampla diversidade genética está associada a uma maior resistência a determinadas doenças hereditárias. Ao longo dos anos, o animal deixou de ser visto apenas como um cão de rua e passou a ocupar um lugar de destaque no imaginário popular, aparecendo em memes, campanhas publicitárias, músicas, projetos de lei e até produções audiovisuais.
No México, defensores da causa animal afirmam que o reconhecimento do “perro caramelo” busca combater o preconceito contra cães sem raça definida. Para Claudia Edwards, diretora do programa mexicano da Humane World for Animals, a iniciativa foi inspirada justamente pelo movimento de valorização do caramelo no Brasil.
— O Brasil foi o primeiro a colocá-lo no mapa. Os brasileiros devem se orgulhar disso — afirmou ao NYT. — É latino-americano.
Apesar da discussão sobre nacionalidade, protetores de animais destacam que a visibilidade do tema pode ajudar uma causa mais urgente. Estimativas apontam que mais de 20 milhões de cães vivem em situação de rua no Brasil, muitos deles com as características dos famosos caramelos. Para entidades de proteção animal, transformar o cão em símbolo cultural pode contribuir para incentivar a adoção e ampliar o cuidado com os animais abandonados.

