O presidente Vladimir Putin, da Rússia, está sob pressão. Nas últimas semanas, a Ucrânia levou a guerra para dentro da casa dos russos de novas maneiras, com ataques a refinarias e em Moscou, valendo-se de seus avanços na produção de drones e mísseis. Será que o aumento dos ataques ucranianos contra o território russo acabará por convencer Putin a pôr fim à guerra? Até o momento, a resposta parece ser não.
Na quinta-feira, a Rússia lançou uma série de mísseis balísticos e drones contra Kiev, matando pelo menos 21 pessoas, no que pareceu ser a resposta imediata do Kremlin à pressão e o mais recente sinal de Moscou de que Putin está se mantendo firme.
Isso não significa que a campanha da Ucrânia não esteja tendo impacto.
Os ataques aéreos contra refinarias de petróleo russas causaram escassez de combustível em todo o país. O maior ataque com drones contra Moscou durante a guerra lançou enormes nuvens de fumaça negra sobre a capital russa no mês passado. Além disso, Kiev vem isolando gradualmente a Crimeia, a península do Mar Negro que o Kremlin anexou ilegalmente da Ucrânia em 2014, o que levou a cortes de energia, graves déficits de combustível e problemas no abastecimento de água na região.
Os russos parecem estar cada vez mais frustrados com a guerra, à medida que enfrentam perspectivas econômicas piores, impostos mais altos, restrições à internet, greves em solo russo e um desgaste generalizado devido a um conflito que já dura mais tempo do que a Primeira Guerra Mundial.
Após dias de silêncio, Putin abordou as crescentes dificuldades em uma entrevista à imprensa estatal no domingo. Ele prometeu resolver os problemas de combustível e produzir mais sistemas de defesa aérea, mas também prometeu continuar a luta no campo de batalha.
Está longe de ser claro que a crescente insatisfação pública com a guerra na Rússia se traduzirá em um desafio político formidável para Putin, visto que ele estabeleceu um sistema autoritário e aumentou drasticamente a censura e a repressão em tempos de guerra.
Alexander Gabuev, diretor do Centro Carnegie Rússia-Eurásia em Berlim, disse:
— As chances de a maré virar contra Putin existem, mas são de um dígito percentual. A pressão ucraniana torna isso mais provável, mas não acho que seja o cenário mais provável — acrescentou. — O cenário mais provável é que tudo continue com mais destruição e mais mortes em ambos os lados.
Os cálculos futuros de Putin dependerão, em parte, do alcance dos ataques aéreos ucranianos. Se a campanha aérea limitar ainda mais a capacidade da Rússia de travar guerra, destruindo fábricas de defesa e linhas de abastecimento, isso poderá forçar Putin a rever suas ambições.
Em seus comentários de domingo, Putin afirmou que a Ucrânia enfrenta uma grave crise de tropas, sugerindo que ele ainda acredita que precisa apenas resistir o tempo suficiente e continuar pressionando para que as defesas ucranianas entrem em colapso.
— Diante da catastrófica escassez de pessoal, as Forças Armadas da Ucrânia aparentemente acreditam que isso pode ser a sua salvação — disse Putin. — Mas salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos.
Em seguida, Putin ofereceu uma longa descrição das posições no campo de batalha que, segundo analistas, empregavam algum tipo de matemática mágica, com o líder russo reduzindo regularmente pela metade as distâncias entre suas forças e as cidades ucranianas.
— Ele está mal-informado, ou mentindo, ou ambos — disse Gabuev. — Mas não importa, porque ele parece irredutível quanto a isso. Não acho que, neste momento, haja qualquer indício de mudança.
Se os ataques ucranianos representarem uma ameaça mais grave à vida das pessoas na Rússia e na Crimeia, isso também poderá incitar maior resistência na sociedade russa e dar voz aos russos belicistas. Há anos, eles argumentam que o Kremlin precisa adotar uma postura mais agressiva, destituir o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e recorrer a armas nucleares, se necessário.
Uma das surpresas mais marcantes do conflito é o quanto Putin esteve disposto a sofrer internamente para atingir seus objetivos de guerra.
O conflito já isolou a Rússia da economia global, reverberou na região de Belgorod, criando uma zona de guerra dentro das fronteiras russas, e levou a um período de meses em que a Ucrânia ocupou parte da região de Kursk. Provocou um breve motim de mercenários que ameaçou Putin e resultou em cerca de 350 mil a 450 mil mortes de russos na linha de frente, além de uma vergonhosa retirada de Kiev no início da guerra.
Putin manteve-se firme em sua determinação.
Se Kiev conseguir manter a pressão sobre a Rússia durante meses e afetar a capacidade de Moscou de travar a guerra, isso será importante, disse Stefan Meister, analista da Rússia no Conselho Alemão de Relações Exteriores.
A campanha na Ucrânia já está forçando Putin a reagir, observou Meister, corroendo a crença dos russos de que podem vencer a guerra e de que sua liderança é capaz de realizar a tarefa.
Os ataques também prolongam o fardo militar de Putin num momento em que seus tecnocratas financeiros lutam para arcar com os custos crescentes da guerra sem causar consequências ainda mais negativas para a sociedade russa.
— A questão é: O que mudará a opinião de Putin? Quando o cálculo de custo-benefício começará a mudar fundamentalmente? — disse Meister. — Essa é uma pergunta que temos nos feito há anos. Com Putin, tenho minhas dúvidas, seja lá o que for, se ele vai parar.

