O Exército de Israel intensificou a operação militar iniciada na semana passada na Cisjordânia, ampliando um cerco a cidades e vilas palestinas que inclui prisões, agressões e demolições de casas. Organizações humanitárias denunciam que o bloqueio está impedindo que moradores tenham acesso a atendimento médico, mas o governo do premier Benjamin Netanyahu, que viaja aos EUA nesta terça-feira, não parece disposto a recuar.
Centrada em Nablus, uma das maiores cidades da Cisjordânia, a ofensiva se espalha por dezenas de vilarejos próximos, onde foram relatadas dezenas de detenções ao longo do fim de semana. Ao menos uma mesquita foi incendiada em al-Qusra, em um ato atribuído a moradores de assentamentos judaicos, ilegais pela lei internacional. Em Abu Fuzaa, perto de Hebron, plantações e oliveiras foram vandalizadas, e rebanhos foram atacados.
Nas estradas que levam a Nablus, os bloqueios montados pelos militares provocam congestionamentos de vários quilômetros, e são numerosos os relatos de ambulâncias e veículos particulares com pacientes cuja entrada na cidade foi negada. Segundo a rede Quds News, uma gestante que seguia para um atendimento de urgência em Nablus teve a passagem negada e perdeu o bebê. Para amenizar a situação, o Crescente Vermelho Palestino montou 72 postos de primeiros socorros em vários pontos da Cisjordânia.
— Hospitais e equipes de atendimento médico de emergência estão protegidos pelas Convenções de Genebra. Deve-se permitir que realizem seu trabalho de salvar vidas, e eles não podem ser alvos de violência — disse ao jornal Haaretz um porta-voz da Cruz Vermelha em Jerusalém, acrescentando que a organização está dialogando com as autoridades israelenses “para tentar facilitar a passagem de ambulâncias e profissionais de saúde em seus esforços para prestar assistência a outras pessoas”.
Na semana passada, um enfrentamento entre civis palestinos e colonos israelenses na vila de Tal, próxima a Nablus, terminou com seis mortos — quatro palestinos e dois israelenses — e serviu como argumento para uma nova operação militar na Cisjordânia, além de ataques contra áreas urbanas e rurais. Além de prisões e incursões, a ofensiva prevê a ampliação da dominação israelense sobre terras palestinas, como parte de uma política cara ao governo de Netanyahu e condenada pela ONU e dezenas de nações.
Com eleições no final de outubro, Netanyahu vê na expansão dos assentamentos na Cisjordânia, além de um flerte a comunidades militares em Gaza, uma ferramenta para convencer o eleitorado de direita e extrema direita a permitir sua permanência no cargo. Segundo pesquisas, são grandes as chances de derrota, o que, avaliam analistas, poderia marcar o fim de sua carreira política.
No momento em que integrantes do governo de Israel avaliam a situação no território palestino como “extremamente perigosa e volátil”, Netanyahu embarcou nesta segunda-feira rumo a Washington, na primeira visita à cidade desde o início da guerra contra o Irã, em fevereiro. Oficialmente, ele vai aos EUA para o funeral do senador Lindsey Graham, morto no dia 11 de julho, mas seus assessores conseguiram costurar uma reunião de última hora com Trump, algo que o premier tentava há meses.
“Poucos aliados se reuniram com tanta frequência e poucas alianças alcançaram tanto em tão pouco tempo”, afirmou o gabinete do primeiro-ministro em comunicado. “O presidente Trump e o primeiro-ministro discutirão as questões decisivas do nosso tempo e como aproveitar nossa grande aliança para vencer a guerra e construir uma paz duradoura.”
Embora os laços entre EUA e Israel sigam robustos (apesar da mudança na opinião pública americana sobre o país), Trump não ostenta o mesmo afeto pelo premier. Em junho, o republicano chamou o israelense de “completamente maluco” em um telefonema, expressando a insatisfação com a sequência dos combates no Líbano, afetando as negociações com o Irã.
Alguns assessores e aliados do presidente não esquecem que a argumentação de Netanyahu foi determinante para convencer Trump a lançar a guerra contra o Irã, mudando o status quo do Oriente Médio, mas sem os ganhos rápidos e fáceis prometidos. Recentes decisões da Casa Branca, como a autorização da venda de caças F-35 à Turquia (à qual Israel se opunha), também mostraram que nem sempre os interesses israelenses dão as cartas em Washington.
— Bibi corre um risco ao vir à Casa Branca. Ele pode acabar sendo pressionado pelo presidente Trump com algum pedido, em vez de acontecer o contrário — disse Elisa Ewers, atualmente pesquisadora do Council on Foreign Relations, ao portal Politico.— A visita à Casa Branca, por si só, já é a conquista dele.
A viagem não prevê escalas em Nova York, onde o prefeito, o democrata Zohran Mamdani, afirmou que exerceria a ordem internacional de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional (apesar de reconhecer que não tem meios para tal). No domingo, Netanyahu disse que planeja ir à cidade em setembro, durante a Assembleia-Geral da ONU, e acusou Mamdani de “fomentar o ódio”.
—Ele (Mamdani) deveria ser o prefeito de todos os nova-iorquinos, judeus, cristãos, muçulmanos, todos — disse à Fox News. — Mas ele está tentando colocar um grupo contra o outro. Eu converso com judeus americanos, e eles estão com medo neste momento.

