Formada pela UFF, a economista Isabella Helter, de 27 anos, acaba de ter sua dissertação de mestrado pela PUC-Rio premiada pela Sociedade Brasileira de Econometria. Ela foi a primeira estudante a conquistar esse prêmio, até então só entregue a professores doutores já no exercício da profissão. A pesquisa mediu o impacto do desemprego dos pais na inserção dos filhos no mercado de trabalho.
Isabella, que agora está cursando o pré-doutorado em Princeton, criou um projeto inovador para ajudar outros estudantes que são os primeiros da família a chegar à faculdade, e almejam estudar em centros de excelência no exterior e no Brasil.
Isabella criou um “mapa do caminho”, apresentação que leva às universidades para orientar estudantes, da conquista da vaga à conclusão do curso. O roteiro explica como obter isenção da taxa do exame da Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec), etapa de acesso ao mestrado; reúne bolsas e mentorias oferecidas por redes como a de Economistas Pretas e Pretos; apresenta oportunidades de pesquisa no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que permitem conciliar trabalho e estudo na reta final da preparação; e traça um panorama da renda esperada ao longo do percurso — como assistente de pesquisa no segundo ano do mestrado e, depois, no doutorado no exterior ou no mercado financeiro.
Falta representatividade
A economista entrou na PUC-Rio com a intenção de estudar o trabalho infantil, uma questão que não costuma estar no rol de interesses dos estudantes típicos da universidade, mas acabou mudando o rumo da pesquisa depois do aumento do desemprego provocado pela pandemia:
— Todas as mulheres da minha família começaram a trabalhar aos 10 anos, sou a primeira da família a entrar na faculdade e conseguir fazer o mestrado.
A avó era analfabeta e a mãe se formou no ensino médio no mesmo dia em que Isabella apresentava sua dissertação de mestrado. O objetivo é levar o material ao maior número de universidades.
— A economia tem um perfil muito homogêneo e isso tem impacto direto nas políticas públicas. Falta representação de negros e pobres. Somente 10% dos PhDs em universidades do topo têm pais sem estudo. Se não altera a base, não traz esses talentos para os centros competitivos mais seletos com salário maior — explica Isabella.
Segundo ela, um artigo de Stansbury e Schultz publicado no Journal of Economic Perspectives mostra que, entre os brasileiros que fazem doutorado nos Estados Unidos, a Economia está entre as áreas com menor proporção de estudantes que são os primeiros da família a concluir o ensino superior.
— O brasileiro que chega ao doutorado de economia nos EUA é mais filtrado pela origem familiar que o brasileiro de quase qualquer outra ciência. Ou seja, quem define o que a economia pergunta, ensina e recomenda como política pública vem quase inteiramente do topo da distribuição.

