Os Estados Unidos planejam anunciar nesta quarta-feira que alcançaram um amplo acordo nuclear com a Arábia Saudita, que pode proporcionar ao país enriquecer seu próprio combustível para reatores atômicos. O acordo visa estreitar ainda mais os laços entre Washington e o governo saudita, em um momento em que a guerra com o Irã causa tensões na relação. Segundo autoridades, a administração de Donald Trump estima que o pacto vai trazer bilhões de dólares para a indústria nuclear dos EUA — começando pela Westinghouse, que projeta muitos dos reatores vendidos no exterior.
Logo após o anúncio formal a assinatura do acordo nesta quarta, o governo Trump deve enviar os detalhes da negociação para o Congresso, que precisará analisá-lo. Nos termos da Lei de Energia Atômica, o Legislativo tem o poder de votar uma resolução de desaprovação. No entanto, na prática, é provável que o acordo seja aprovado, pois o Congresso teria de reunir uma maioria capaz de superar um veto para derrubar a iniciativa de Trump.
Embora o acordo provavelmente conte com o apoio de muitos republicanos, alguns legisladores de ambos os partidos, juntamente com autoridades israelenses, manifestaram oposição ao plano, temendo que o reino possa utilizar um projeto nuclear civil para, futuramente, desenvolver armas nucleares. A caminho das Filipinas nesta quarta, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, rejeitou as preocupações:
— Basta dizer que os EUA não firmarão nenhum acordo com qualquer país do mundo que resulte em risco de proliferação.
O acordo vem sendo discutido há anos e, durante o governo Joe Biden (2021-2025), foi concebido como parte de um pacto mais amplo que incluiria o reconhecimento diplomático de Israel pela Arábia Saudita. No entanto, após os ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, essa perspectiva perdeu força, e Trump desvinculou a proposta de cooperação nuclear civil entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita de qualquer exigência de que o país reconhecesse Israel.
Ainda assim, o debate em torno do acordo deve ser intenso. Para concluir o pacto com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, líder de fato do país, Trump teve de aceitar termos que podem limitar a atuação de inspetores internacionais em locais que considerem potenciais vias para o desvio de combustível destinado a projetos de armas nucleares.
Ele também concordou que, após um estudo conjunto com a Arábia Saudita sobre a viabilidade econômica da produção de combustível nuclear, os sauditas poderão ser autorizados a enriquecer urânio ou reprocessar plutônio em seu território. O príncipe herdeiro Mohammed afirmou que desenvolverá armas nucleares caso o Irã faça o mesmo, chegando a declarar que faria isso “sem dúvida alguma”.
Cooperação nuclear
O Irã mantém um programa nuclear que, segundo Teerã, tem fins civis, embora tenha enriquecido urânio a níveis próximos aos necessários para armamentos após Trump retirar os Estados Unidos, em 2018, do acordo nuclear firmado durante o governo de Barack Obama (2009-2017). Depois, Trump ordenou que as forças americanas se unissem a Israel para atacar instalações nucleares iranianas em junho de 2025 e, em fevereiro deste ano, deu início a uma guerra contra o Irã.
Trump e o príncipe herdeiro concordaram em avançar na cooperação nuclear civil entre EUA e Arábia Saudita durante uma visita do líder saudita à Casa Branca, em novembro. Desde então, autoridades dos dois países vêm negociando o plano. Elas finalizaram os detalhes ao longo da primavera e do verão no Hemisfério Norte e pretendiam apresentá-lo em breve ao Congresso, publicou o New York Times neste mês.
O acordo inclui duas cartas paralelas secretas negociadas com os sauditas. O governo americano deve argumentar que esses documentos contêm informações comerciais sigilosas e tratam de questões sensíveis de segurança nacional. Ainda assim, alguns integrantes do Congresso podem se recusar a votar o acordo se as cartas não forem divulgadas.
O tipo de acordo firmado pelo governo Trump com a Arábia Saudita é conhecido como Acordo 123, instrumento que estabelece um marco jurídico vinculante para a cooperação nuclear entre países. As obrigações previstas nesse tipo de acordo buscam garantir a não proliferação de armas nucleares. Os EUA mantêm atualmente 26 acordos desse tipo com 51 governos e com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
‘Padrão ouro’
As concessões feitas por Trump aos sauditas são significativas. Quando os EUA firmaram um acordo semelhante com os Emirados Árabes Unidos (EAU), que entrou em vigor em 2009, as condições eram muito restritivas. Os EAU aceitaram inspeções rigorosas, assinando o chamado protocolo adicional com a AIEA. Também renunciaram ao direito de produzir seu próprio combustível nuclear, eliminando a possibilidade de desenvolver a infraestrutura necessária para fabricar uma arma.
Esse acordo passou a ser conhecido como o “padrão ouro” da não proliferação nuclear. Embora o governo Trump planeje argumentar que haverá outras restrições — incluindo parcerias conjuntas com os sauditas que permitirão a Washington acompanhar de perto o programa nuclear do reino —, o fato é que Trump recuou em relação às limitações negociadas pelos governos de George W. Bush e Barack Obama.
O governo Biden também negociou com os sauditas um acordo de cooperação nuclear civil como parte de uma proposta que previa o reconhecimento de Israel pelo reino. Em abril de 2025, pouco depois do retorno de Trump à Presidência, o secretário de Energia, Chris Wright, discutiu a proposta com o príncipe herdeiro Mohammed durante uma visita ao reino, seis meses antes da viagem do saudita a Washington.
Em maio, Trump e o príncipe entraram em desacordo por causa da atuação dos EUA na guerra contra o Irã. O herdeiro se recusou a permitir que as forças americanas usassem o espaço aéreo saudita em uma operação para escoltar navios petroleiros comerciais pelo Estreito de Ormuz, área que, na prática, é controlada pelas forças iranianas. O acordo ajuda a recolocar as relações entre ambos em bases estáveis.
Defesa mútua
No governo Biden, EUA e Arábia Saudita também discutiram um acordo de defesa mútua como parte do plano mais amplo que incluiria cooperação nuclear em troca do reconhecimento de Israel pelos sauditas. Há anos o reino pressiona Washington por um tratado de defesa mútua que fosse ratificado pelo Senado americano, de forma que futuros presidentes dos Estados Unidos não pudessem abandoná-lo facilmente. Autoridades sauditas consideravam esse acordo importante como forma de dissuasão contra possíveis agressões do Irã.
Trump e o príncipe herdeiro Mohammed chegaram a um entendimento durante a reunião na Casa Branca, em novembro passado, sobre um acordo de defesa entre os dois governos, que incluiria a venda de caças avançados F-35 ao reino. No entanto, o entendimento ficou aquém de um tratado formal que pudesse ser submetido ao Senado para ratificação.
Durante a guerra contra o Irã neste ano, a Arábia Saudita contou com os Estados Unidos para fornecer mísseis interceptadores destinados à defesa aérea contra projéteis iranianos. Ainda assim, autoridades sauditas têm dúvidas sobre se a política americana para o Oriente Médio — incluindo a parceria entre Washington e Israel — está aumentando os riscos para a Arábia Saudita e outros países árabes do Golfo.
Em parte por causa dessas preocupações, diplomatas sauditas vêm tentando manter conversações com o Irã. Os dois países normalizaram suas relações diplomáticas em 2023, em um acordo mediado pela China.
(Com New York Times)

