A inflação de junho veio à metade do esperado pelo mercado: ficou em 0,16%, enquanto a mediana das projeções apontava para 0,32%. A surpresa baixista foi disseminada entre diversos subitens do índice, o que lhe confere um caráter mais estrutural, avalia o economista Étore Sanchez, da Ativa Investimentos. Pela primeira vez desde janeiro, a inflação acumulada em 12 meses desacelerou, passando de 4,72% para 4,64%, segundo os dados do IBGE. O principal destaque foi o grupo Alimentação e Bebidas, que recuou 0,25% — a primeira queda desde novembro do ano passado e a maior desde setembro. Não fosse a aproximação do El Niño e o elevado grau de incerteza provocado pelo conflito no Oriente Médio, já seria possível falar em sinais mais consistentes de redução das pressões inflacionárias à frente.
— A inflação de junho mostra os efeitos da guerra se dissipando. Alimentos de reposição frequente são muito sensíveis aos custos de combustíveis, por causa do impacto do frete. Em junho, a alimentação caiu muito em razão da redução dos combustíveis, que também registraram variação negativa. Outro dado positivo foi o de serviços que desacelerou de 0,40% para 0,34%. Esse movimento é importante porque será esse componente que continuará pressionando a inflação quando o impacto da guerra acabar — afirma Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime.
Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Rena, pondera que, embora os serviços subjacentes tenham mostrado alguma melhora, os serviços intensivos em mão de obra seguem sem sinais de alívio. A inflação desse grupo permanece elevada, acumulando 7,12% em 12 meses.
— Olhando para frente, o cenário para serviços ainda inspira cautela, diante da perspectiva de um choque climático provocado pelo El Niño e dos efeitos do fim da escala 6×1. Nas medidas dessazonalizadas, o IPCA apresentou melhora, mas ainda muito incipiente. A inflação continua em um patamar elevado e exige cautela — avalia a estrategista.
Enquanto Marcela Kawauti e Étore Sanchez entendem que os dados mais recentes reforçam a possibilidade de um novo corte da taxa básica de juros na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom), Andréa Angelo projeta a manutenção da Selic em 14,25%.

