Na última quarta-feira, o ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) tomou café da manhã em um hotel na Zona Sul do Rio com um enviado do senador Flávio Bolsonaro (PL) interessado em saber que denúncias ele tinha contra o presidenciável. Um corte de vídeo de Garotinho havia viralizado no início da semana após ser repostado por Michelle Bolsonaro em seu Instagram no auge da guerra da madrasta com os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nele, o ex-governador disse ter tido acesso a imagens de uma festa chamada “Noite das Astronautas”, promovida pelo banqueiro Daniel Vorcaro, com autoridades e mulheres estrangeiras nuas usando capacetes.
O interlocutor que gastou a manhã tentando arrancar informações de Garotinho foi o seu próprio filho, o ex-prefeito de Campos dos Goytacazes Wladimir, filiado ao PL de Flávio desde abril e alçado ao posto de coordenador da campanha do filho de Bolsonaro no Norte do estado. O rumor de registros da presença do senador na festa cresceu no mundo político porque Garotinho disse que nas gravações de 12 minutos existem “deputados, senadores e governadores, homens que defendem a família”. Embora negue a presença em eventos de Vorcaro, o próprio Flávio alimentou a expectativa de vazamentos comprometedores — em entrevista à CNN em maio, admitiu que poderia haver um “videozinho” dele com o dono do Master.
A “Noite das Astronautas” foi citada na representação feita pela Polícia Federal (PF) para embasar a oitava fase da operação Compliance Zero, que em maio fez busca e apreensão contra o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL). Segundo a investigação, Vorcaro gastou US$ 721 mil em uma festa com russas e ucranianas em uma suíte presidencial de Nova York.
Os dados da PF contrastam com a descrição que Garotinho faz do vídeo que diz ter. Em entrevistas no YouTube para o Brasil 247 e o Flow News, o ex-governador afirmou que as imagens nas suas mãos exibem um evento realizado em uma praia. Como sempre lembra da divulgação histórica que fez da “Farra dos Guardanapos”, em 2012, expondo fotos do ex-governador Sérgio Cabral e seus secretários em Paris, Garotinho se coloca em conversas com jornalistas na posição de autoridade quando o assunto são festas envolvendo poderosos. Assim, acaba pouco questionado sobre as suas contradições.
Após horas de conversas, Wladimir não conseguiu ver o vídeo que o pai alardeia, tampouco saber quais políticos estão nele. Mas saiu do café da manhã dando recados a Garotinho. Disse que o PL trabalhará para derrubar a candidatura dele para o governo do Rio, possível desde o mês passado quando o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou a condenação do ex-governador por compra de votos na eleição de 2016, em Campos dos Goytacazes.
O Republicanos de Garotinho e o PL voltaram a conversar em âmbito nacional desde a operação da Polícia Federal na semana passada que levantou suspeitas de fraude no Digimais, banco do bispo Edir Macedo. A sigla da igreja Universal, que antes planejava ficar neutra na corrida presidencial na expectativa de blindar os seus negócios privados, voltou a cogitar apoiar Flávio — o que implica diretamente nos palanques estaduais.
Cerca de 24 horas depois da conversa com o filho, um Garotinho bem diferente apareceu nas redes sociais. O ex-governador publicou vídeo em seu Instagram negando a presença de Flávio na “Noite das Astronautas”. Disse ainda que se sentiu usado na guerra familiar entre Michelle Bolsonaro e seus enteados.
A conversa entre Wladimir e Garotinho é mais um episódio da guerra fria que os dois travam desde o ano passado no Rio — ainda que apareçam sorridentes em fotos para a internet de tempos em tempos. No ano passado, pai e filho quase saíram no tapa e precisaram ser separados pela ex-governadora Rosinha em uma discussão dentro de casa. Garotinho queria que o filho se filiasse ao Republicanos para lançar-se candidato a deputado federal, desobrigando-o do compromisso de ser um puxador de votos da legenda para o Congresso e liberando-o para disputar o Palácio Guanabara em outubro.
Wladimir não obedeceu. Renunciou à prefeitura de Campos, se filiou ao PL para se candidatar a deputado e, agora, um dos principais argumentos do Republicanos para frear a candidatura a governador de Garotinho é que a sigla precisa dele para aumentar a bancada em Brasília. Desde abril, o ex-governador diz não aceitar a missão de enfrentar o próprio filho em uma eleição proporcional. Filiada ao Republicanos, a filha e ex-deputada federal Clarissa Garotinho também rejeita a ideia de voltar para Brasília. Migrou para a iniciativa privada e hoje é consultora da Seta, a empresa de relações governamentais da FSB.
Garotinho tem mais desafios para colocar de pé a candidatura a governador. Dentro do Republicanos também postula a vaga o ex-prefeito de Miguel Pereira André Português. Além disso, decisão do ministro do STF André Mendonça voltou a tornar elegível o ex-prefeito do Rio e deputado federal Marcelo Crivella, que deseja ser candidato ao Senado, o que aumenta a pressão para Garotinho vir a deputado.
No PL do Rio, há dúvidas sobre o efeito da candidatura Garotinho para a campanha a governador do presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas. Há quem defenda a necessidade de ele disputar para garantir o segundo turno e aqueles que consideram arriscado deixar participar de debates alguém que faz dossiês sobre políticos fluminenses há mais de duas décadas. Alguns deles com a ajuda de Álvaro Lins, ex-chefe da Polícia Civil do Rio.

