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Boicote à Copa de Clubes em pauta: queda de braço entre Uefa e Fifa promete novo capítulo nesta semana

A crise que cerca o presidente da Fifa, Gianni Infantino, ganha novos capítulos a cada dia. Mesmo após a entidade abandonar a ideia de criar uma subsidiária para vender uma fatia de ações de suas competições a investidores privados, o boicote anunciado pela Uefa às competições organizadas pela instituição mundial segue em vigor e joga dúvidas sobre os torneios marcados para o calendário internacional: da Copa do Mundo Feminina sub-20, com início em setembro, a uma possível segunda edição da Copa de Clubes, em 2029.

A Uefa manteve o boicote em vigor, sob alegação de que as condições para restabelecer a confiança na gestão de Infantino “não foram atendidas”. Com isso, dúvidas começam a pairar sobre a primeira competição Fifa sob esse novo cenário: a Copa do Mundo Feminina sub-20, na Polônia, que começa no próximo dia 5. Além das anfitriãs, há outras cinco participantes europeias no torneio. Em 2027, há a Copa do Mundo Feminina, no Brasil. Dois anos depois, está prevista a segunda edição do reformulado Mundial de Clubes, um dos carros-chefe da gestão de Infantino.

Segundo a rádio britânica Talksport, o presidente da Uefa, o esloveno Aleksander Ceferin, deve aproveitar uma viagem à Áustria, onde acompanhará o duelo entre PSG-FRA e Aston Villa-ING, na quarta-feira, pela Supercopa da Uefa, para discutir com Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG e do Comitê de Clubes Europeus (ECF), um possível boicote à edição de 2029 do Mundial se Infantino estiver no cargo — há eleições na Fifa em 2027, e o franco-suíço planeja se reeleger para um quarto mandato.

Aleksander Ceferin (à direita), da Uefa, ao lado de Gianni Infantino, da Fifa, em abril de 2026: relação rompida — Foto: Reprodução/Instagram
Aleksander Ceferin (à direita), da Uefa, ao lado de Gianni Infantino, da Fifa, em abril de 2026: relação rompida — Foto: Reprodução/Instagram

O torneio ainda não tem martelo batido sobre sede, data, patrocinadores e questões financeiras. Antes de ser um sucesso entre os torcedores em sua primeira edição, no ano passado, sofreu críticas de clubes, atletas e do próprio Ceferin pelas incertezas e pela adição de mais uma competição no já inchado calendário dos clubes.

Na época, uma das soluções da Fifa para apaziguar o clima foram generosas cotas financeiras. Só de participação, os clubes europeus receberam de 12,8 milhões a 38,1 milhões de dólares (cerca de R$ 65 a 193,6 milhões), enquanto os sul-americanos ficaram com 15,2 milhões de dólares (cerca de R$ 77,2 milhões). Com premiação escalonada fase a fase, o torneio rendeu 125 milhões de dólares (R$ 635,4 milhões) ao campeão, o inglês Chelsea.

Um ano depois, o mandatário enfrenta um cenário em que nem mesmo as cifras parecem suficientes para tirá-lo do olho do furacão, ainda que o redirecionamento de recursos para as federações ao redor do mundo tenha sido um dos principais pilares de sua gestão, iniciada em 2016. A proposta dos investimentos privados, por exemplo, previa um aporte de 20 milhões de dólares, cerca de R$ 101,6 milhões, para cada uma das 211 federações-membro num intervalo de três anos, valor que poderia ser até dobrado. Ainda assim, foi recebida entre rejeição e silêncio das confederações.

A turbulência vem próxima à eleição na Fifa, marcada para 18 de março de 2027 — as candidaturas devem ser apresentadas até 18 de novembro. Infantino pretende concorrer ao quarto e último mandato, mas pode ter a concorrência de nomes como o canadense Victor Montagliani e o bareinita Salman Al Khalifa. Na Europa, há dúvidas sobre a participação de Ceferin, que poderia dar lugar a Al-Khelaifi. A única certeza, por enquanto, é que a Uefa, berço de Infantino no futebol mundial e da qual já foi secretário-geral, virou sua principal opositora.

Acusações pessoais

O distanciamento entre Fifa e Uefa não é de hoje e já havia aumentado na Copa do Mundo, marcada por polêmicas, principalmente relacionadas à proximidade entre Infantino e o presidente dos EUA, Donald Trump. A anulação da suspensão do atacante americano Balogun, após apelo de Trump, foi um dos principais incômodos dos europeus. Ceferin sequer esteve na final entre Espanha e Argentina.

O desgaste ganhou contornos de crise pouco mais de uma semana após a final do Mundial, com o vazamento do projeto da Fifa de vender uma fatia das participações de seus torneios a investidores. No dia 30 de julho, as 55 federações da Uefa aprovaram por unanimidade um boicote às competições da entidade em retaliação ao plano de Infantino. Um dia depois, a Fifa abandonou oficialmente a ideia.

Nos últimos dias, a exposição do dirigente saiu do campo profissional para o pessoal, com uma matéria do jornal inglês The Telegraph afirmando que uma amante de Infantino teria recebido um alto valor como compensação para deixar seu cargo na Uefa após a descoberta de um caso com o ítalo-suíço, secretário-geral da confederação europeia na época. As informações foram confirmadas pela Uefa.

A Fifa se defendeu em nota:

“É cada vez mais evidente que existe um esforço coordenado e contínuo de alguns setores para enfraquecer a Fifa e seu presidente. Aqueles que não contam com o apoio das associações-membro da Fifa não devem tentar obter, por meio de acusações, insinuações ou desinformação, aquilo que não conseguem alcançar pelos processos democráticos estabelecidos pela entidade. Reportagens recentes incluíram afirmações sem fundamento e alegações comprovadamente falsas relacionadas à Fifa e ao seu presidente. Especulações e insinuações não devem ser apresentadas como fatos, e a repetição de uma acusação não a torna verdadeira”, diz trecho do comunicado.