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Enzo Celulari: ‘Me orgulho de ser filho dos meus pais, mas senti que era importante construir minha própria história’

Enzo Celulari passou pelo tapete vermelho do 54º Festival de Cinema de Gramado na última segunda-feira (17) como integrante da equipe de “Shibal”, curta-metragem de João Rubio Rubinato estrelado por Tavinho Teixeira e Bianca Comparato.

Filho da atriz Claudia Raia e do ator Edson Celulari, Enzo chega ao festival com seu primeiro grande projeto como produtor de cinema. Há cerca de quatro anos, o carioca de 29 anos vem se dedicando ao trabalho como produtor de forma silenciosa, buscando entender o meio e tirar do papel os primeiros projetos em sua própria companhia, a IPA Filmes.

No momento, o produtor celebra a oportunidade de exibir o curta no tradicional evento da Serra Gaúcha, enquanto possui muitos novos projetos em mente, desde a estreia como diretor ao primeiro trabalho ao lado da mãe.

Enzo conversou com O GLOBO durante a passagem pelo Festival de Gramado e destacou a vontade de seguir sua trajetória própria, sem perder de vista a importância dos pais em sua formação.

Como o projeto de “Shibal” chegou até você? Por que decidiu produzir o filme?

Eu já conhecia o João (Rubio Rubinato). Tínhamos feito um trabalho de publicidade há alguns anos e já tínhamos entendido que o nosso gosto para cinema era muito parecido. Tínhamos um apreço pelo bom cinema e pelo bom feitio do cinema. Já tinha aí um namoro. Aí ele veio com este roteiro muito feliz, muito redondo, para um curta-metragem e eu logo me encantei. A única coisa que pedi é que fizéssemos uma imersão de um mês no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, para entender o lugar onde se passa essa história. Eu me vejo no lugar de um produtor artístico. A arte é o mais importante para mim. Não enxergo o cinema como um produto. Acho que isso vem da escola que tive dentro de casa. Brinco que devo ter mamado mais em sets ou coxias de teatros do que dentro de casa. Cresci observando o trabalho de atores, de diretores, de produtores. Dentro da minha casa, só se falava de arte, só se respirava arte. Não tinha como cair muito longe do pé.

Tavinho Teixeira e Bianca Comparato em "Shibal", curta produzido por Enzo Celulari, com direção de João Rubio Rubinato — Foto: Divulgação
Tavinho Teixeira e Bianca Comparato em “Shibal”, curta produzido por Enzo Celulari, com direção de João Rubio Rubinato — Foto: Divulgação

O que na produção de cinema te cativou?

Como produtor, amo levantar o circo. Quando me achei neste caminho, há uns quatro anos, eu vi que era um meio em que poderia começar devagarinho até que eu tivesse algo para falar. Sendo filho de quem sou, eu sei que existe uma bagagem, mas nunca tive complexo. Meus pais, antes de tudo, são grandes pais. E também são grandes artistas e grandes exemplos, me orgulho muito de ser filho deles. Mas senti que era importante construir minha própria história. O cinema e a produção foi uma paixão que me tomou por inteiro. Tem sido muito especial apresentar este curta e entender o meu espaço dentro do universo do cinema.

Você já tem outros projetos a caminho?

Sim, inclusive de longas-metragens. Tenho um projeto de documentário que irei codirigir com a Bianca (Comparato) e que vai falar sobre o processo artístico dela com a Daniela Thomas na peça “Autobiografia do vermelho”, inspirada em verso de Anne Carson, que está em cartaz em São Paulo. Tenho também um projeto de longa para a minha mãe, que é a adaptação de um livro maravilhoso. Eu me deparei com este livro que tem uma personagem que eu não conseguia parar de pensar em minha mãe. Pensei, esse pode ser o retorno dela para o cinema. Oferece uma desconstrução total e ela ficou encantada com a ideia. Vai ser uma produção minha.

Pode falar o nome do livro?

Chama “A extinção das abelhas”, da Natalia Borges Polesso, uma vencedora do prêmio Jabuti. A protagonista é uma mulher completamente diferente da minha mãe e dos papéis que ela já fez. Acho que vai ser um desafio artístico e ela está super disposta.

Produtor Enzo Celulari, do curta-metragem brasileiro "Shibal", no Festival de Gramado — Foto: Divulgação / Ticiane da Silva / Ag.Pressphoto
Produtor Enzo Celulari, do curta-metragem brasileiro “Shibal”, no Festival de Gramado — Foto: Divulgação / Ticiane da Silva / Ag.Pressphoto

Seus pais construíram suas histórias, principalmente, à frente das câmeras. O que te fascinou pelo lado de trás das câmeras?

Minha mãe conta que desde muito pequeno, ela me levava para ver grandes peças e eu, quando voltava para casa, ficava falando que gostaria de reproduzir o espetáculo. Eu tinha três, quatro anos, e dava um jeito, com as coisas da minha casa, de montar a minha versão daquela peça. Acho que como eu sempre observei os bastidores, acabei me interessando pelo trabalho dos diretores, produtores, pelo ofício da técnica, da elétrica. Gosto de montar todo aquele quebra-cabeças.

Como você falou, é natural termos artistas seguindo a carreira dos pais. Nos últimos anos, no entanto, essa discussão ganhou uma nova dimensão com o termo “nepobaby”. Como você vê este debate?

Criou-se uma conotação negativa onde, necessariamente, não existe. Me orgulho de ter os pais que tenho, da trajetória artística que eles construíram e de ter adquirido essa bagagem dentro de casa para poder escolher o meu caminho e seguir por conta própria. Não tenho vergonha e não acho ruim que me chamem de nepobaby, independente do que achem que esta palavra tem como conotação. Sou muito bem resolvido. Eu nasci neste meio e aprendi a lidar com isso muito cedo. Essas terminologias vão surgindo. Daqui a pouco vão inventar outro termo para nos chamar.

Você falou de trabalhar com sua mãe. Já tem algum projeto com seu pai?

Com meu pai, tenho uma ideia de um roteiro, um sonho antigo dele. Mas ainda não posso falar, é algo mais distante. O meu pai fez mais cinema na vida do que minha mãe. Ela sempre conciliou as novelas da TV Globo com os grandes musicais, projetos que demandavam muito. Mesmo tendo feito filmes importantes ela não conseguiu se dedicar tanto ao cinema. Não tinha a pretensão de fazer um filme com minha mãe ou meu pai tão cedo, mas é um movimento que vejo como natural. A partir do momento em que estou produzindo e eles são grandes artistas que admiro, e que estão muito próximos de mim, os projetos acabam surgindo.

A sua produtora se chama IPA Filmes. Qual a inspiração?

IPA nasce de Ipanema. É uma homenagem à cidade em que cresci e também a este bairro que foi um berço efervescente da cultura brasileira nos anos 1960 e 1970, foi tema de músicas e abrigou muitos artistas, como Caetano. O Circo Voador começou no Arpoador, teve o Teatro Ipanema, tem a Casa de Cultura Laura Alvim.

* O repórter viajou a convite do Festival de Cinema de Gramado