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China, parceira comercial crucial do Irã, rejeita ameaça de ‘Dia D econômico’ de Trump

A China afirmou, nesta sexta-feira, que a ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de promover um “Dia-D econômico” contra o Irã não “é do interesse de nenhuma das partes”. Pequim acredita que “sanções e táticas de pressão não são a solução”, disse o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Lin Jian, conclamando os países envolvidos a chegar a um acordo político.

— As sanções e as pressões não permitirão resolver o problema — disse Lin em uma entrevista coletiva. — A China incentiva todas as partes envolvidas a adotar medidas responsáveis e a resolver o problema por vias políticas e diplomáticas.

O republicano prometeu na quarta-feira impor “tremendas consequências econômicas” contra países que continuarem a fazer negócios com Teerã, com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, pedindo na quinta-feira que Pequim e aliados americanos se unam à operação de punição econômica contra o Irã. Segundo Bessent, os aliados dos EUA estão “conosco ou contra nós”.

Trump e Bessent não detalharam as medidas que planejam contra o Irã. O secretário do Tesouro disse que explicará o cenário em uma entrevista coletiva na próxima segunda-feira.

China é peça-chave

A capacidade de Trump de pressionar o Irã por meio de uma ofensiva econômica depende, em boa medida, da disposição da China de aderir às medidas americanas. Pequim é o principal comprador do petróleo iraniano e tem sido uma importante fonte de sustentação para a economia de Teerã. Desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, Pequim vem conduzindo sua diplomacia de forma cautelosa, mantendo comunicações abertas com os dois lados. Segundo dados da empresa de análise Vortexa Analytics citados pela Reuters, a China compra cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irã. O percentual, segundo analistas, representa uma parcela pequena das importações totais de petróleo chinesas.

A China, no entanto, não reconhece a importação de petróleo iraniano em seus dados alfandegários e há anos desafia as sanções ocidentais contra Teerã. O governo de Pequim também determinou que empresas chinesas ignorem restrições impostas pelos EUA a refinarias independentes que importam petróleo iraniano.

Por isso, uma medida de Washington contra compradores ou bancos chineses seria uma das formas mais diretas de apertar o cerco sobre Teerã, mas também poderia abrir uma nova frente de tensão entre as duas maiores economias do mundo. O risco é ainda maior às vésperas da visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, aos EUA, prevista para setembro.

Depois de um ano turbulento nas relações entre Washington e Pequim, marcado pela retomada da ofensiva tarifária de Trump, o presidente americano tem motivos para evitar uma nova escalada com a China. Uma visita de Trump a Pequim, em maio, ajudou a reduzir as tensões entre os dois países.

Pequim também dispõe de instrumentos para retaliar uma eventual ofensiva americana. Entre eles estão as terras raras, minerais críticos utilizados na fabricação de produtos que vão de smartphones e veículos elétricos a equipamentos militares. A China processa cerca de 90% do fornecimento mundial, o que dá ao país uma posição estratégica enquanto EUA e outras nações ocidentais tentam desenvolver cadeias alternativas de fornecimento.

Quais são as opções de Trump

Os EUA já atuam para restringir as exportações de petróleo iraniano. O bloqueio americano aos portos do país reduziu a quantidade de petróleo que Teerã consegue enviar a compradores internacionais, inclusive à China. De acordo com a empresa Kpler, que monitora o movimento de navios, o Irã pode ter petróleo suficiente já fora do bloqueio para garantir cerca de quatro meses de receitas com exportações. Depois desse período, porém, a receita poderia cair a zero caso as exportações sejam completamente estranguladas.

O problema para Washington é que ampliar a pressão exigiria atingir não apenas o Irã, mas também a extensa rede internacional que permite ao país comercializar petróleo, movimentar dinheiro e adquirir armas apesar das sanções.

Segundo o Departamento do Tesouro americano, essas redes atuam principalmente por meio dos Emirados Árabes Unidos, de Hong Kong e de Cingapura. A ofensiva poderia envolver medidas contra compradores de petróleo, bancos, empresas de fachada, casas de câmbio, registros de navios e mecanismos usados para transferir dinheiro.

“Qualquer vínculo restante com Teerã acelerará a ruína econômica de uma nação, seja esse vínculo construído deliberadamente ou ignorado conscientemente”, escreveu Bessent nas redes sociais na quinta-feira.

O desafio, porém, é que uma ofensiva desse tipo exigiria coordenação entre vários países e não produziria necessariamente efeitos imediatos.

Os Emirados Árabes, um dos principais centros comerciais utilizados pelo Irã, anunciaram nesta semana a suspensão de todo o comércio e das transações financeiras com Teerã. Analistas afirmam que o país tem sido importante nos esforços iranianos para driblar as sanções internacionais, embora autoridades emiradenses neguem a acusação.

Irã tenta se adaptar

Assim como a China, o Irã também condenou o que classificou como a ameaça “ilegal” de Trump de intensificar a campanha econômica contra Teerã, afirmando que ela remonta a “terrorismo econômico” e “crimes contra a Humanidade”.

A economia iraniana já sofreu um forte impacto com a guerra e enfrenta uma inflação elevada. O bloqueio americano e os ataques contra o país também atingiram setores importantes da economia.

Ainda assim, o efeito de uma ofensiva econômica total pode levar meses para se concretizar. Após décadas submetido a sanções americanas, o Irã desenvolveu uma “economia de sobrevivência, que permite ao país suportar mais dor econômica ao longo do tempo”, segundo Jorge Leon, chefe de análise geopolítica da consultoria Rystad.

O próprio governo iraniano já discute maneiras de reduzir os efeitos das novas medidas. Shamseddin Hosseini, presidente da Comissão Econômica do Parlamento iraniano, afirmou na quinta-feira que o país deveria diminuir a dependência dos portos do sul, onde o bloqueio americano está em vigor, e ampliar as rotas comerciais terrestres pela fronteira nordeste.

— Para sair da situação atual, o caminho da formulação de políticas econômicas precisa ser mudado — afirmou Hosseini, segundo a imprensa estatal iraniana.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, também disse nesta sexta-feira que Teerã está preparada para “sacrificar nossa riqueza” a fim de defender a “dignidade e a honra” do país, segundo a agência de notícias semioficial iraniana Tasnim.

— Devemos nos preparar para as sanções injustas para que possamos superá-las — afirmou Ghalibaf durante um encontro com representantes empresariais iranianos e iraquianos em Bagdá.

Segundo ele, os EUA e Israel perceberam que não poderiam derrotar o Irã e o Iraque em uma guerra convencional e, por isso, passaram a travar uma “guerra cognitiva e econômica”.

Pressão sobre aliados

A ofensiva de Trump também ultrapassa as fronteiras iranianas. Na quinta-feira, Washington anunciou que o Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã no Líbano, seria designado como afiliado do regime iraniano sob o comando da Guarda Revolucionária Islâmica. A medida veio acompanhada de novas sanções contra dez pessoas acusadas de trabalhar no contrabando de dinheiro para a organização.

Os EUA classificam o Hezbollah como organização terrorista desde 1997 e há décadas acusam o grupo de atuar como representante do Irã. A nova designação parece formalizar a avaliação de Washington de que o Hezbollah funciona como um braço direto de Teerã no Oriente Médio.

Para o governo iraniano, a escalada econômica representa mais uma frente de um conflito que, desde o cessar-fogo de junho, se transformou em um impasse tenso, com poucos sinais de avanço diplomático.

(Com New York Times)