O gesto de coração feito com as mãos, que passou a aparecer em fotografias, encontros e eventos políticos de Mailza Assis e Jéssica Sales, assim como de tantos outros políticos, virou motivo de uma nova disputa na eleição para o Governo do Acre. É que a coligação Trabalho da Esperança e o senador e candidato ao governo, Alan Rick, levaram o caso ao Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC) e pedem que as duas sejam multadas em R$ 25 mil cada por suposta propaganda eleitoral antecipada.
A representação eleitoral foi protocolada em 2 de setembro e distribuída por sorteio ao juiz Leandro Leri Gross. O processo foi apresentado por Alan Rick e pela coligação formada por Republicanos, PSD, Novo e Avante contra Mailza e Jéssica, que concorrem, respectivamente, aos cargos de governadora e vice-governadora.
A nova representação se soma ao ambiente de crescente judicialização que vem marcando a disputa entre os grupos de Alan Rick e Mailza. Os dois lados têm recorrido à Justiça Eleitoral para questionar condutas, manifestações e conteúdos relacionados à pré-campanha e à campanha, transformando o tribunal em uma das frentes do embate eleitoral.
O coração é um dos principais elementos usados na argumentação. A coligação não afirma que o gesto, isoladamente, seja ilegal ou que possa ser considerado propriedade de alguma candidatura. Pelo contrário, a própria representação reconhece que se trata de um sinal amplamente utilizado e sem exclusividade.
A tese apresentada é de que, no caso de Mailza e Jéssica, a repetição do gesto teria adquirido função de identificação eleitoral quando passou a aparecer associado à dupla, ao número 11 e a manifestações de apoio.
Coração antes da campanha
Segundo a ação, os registros questionados foram publicados entre 5 de junho e 12 de agosto de 2026, antes do início oficial da propaganda eleitoral. A representação sustenta que, ao longo desse período, o gesto deixou de aparecer apenas como uma pose espontânea para fotografias e passou a ser repetido em diferentes ambientes, envolvendo Mailza, Jéssica, apoiadores e integrantes do grupo político.
Um dos episódios citados ocorreu em 1º de julho, durante a entrega da revitalização do Ginásio Alailton Negreiros, em Cruzeiro do Sul. De acordo com a petição, Mailza aparece formando o coração com as mãos ao lado de diversas pessoas presentes no evento. Para os autores da ação, o registro seria relevante porque mostra a repetição do gesto também em uma atividade institucional de grande exposição pública.
Em 18 de julho, outro registro, desta vez em Bujari, mostra um grupo numeroso reproduzindo simultaneamente o coração com as mãos. A representação argumenta que a repetição coletiva teria produzido uma imagem padronizada e facilmente associável ao grupo político.
Três dias depois, em 21 de julho, Mailza e Jéssica aparecem juntas formando um único coração com as mãos. Na publicação, segundo a ação, Mailza escreveu: “Juntas, eu e @jessicasalesdeputada seguimos fortalecendo um projeto que acredita nas pessoas e no futuro do Acre”. O documento usa o episódio para sustentar que o gesto já era apresentado conjuntamente pelas duas futuras integrantes da chapa.
Outro momento destacado foi 30 de julho, em Sena Madureira. A imagem reunia um grande grupo de pessoas, com Mailza ao centro, enquanto praticamente todos reproduziam o coração. A publicação também fazia referência à proximidade da convenção partidária, marcada para 4 de agosto.
Na convenção Avança Acre, em 4 de agosto, o gesto voltou a aparecer ao lado de dirigentes, candidatos e aliados. Para a coligação de Alan Rick, o evento representa um ponto de conexão entre a utilização anterior do coração e a posterior incorporação do símbolo à comunicação oficial da candidatura.
Número 11 e apresentação da chapa
A representação, porém, não se limita ao gesto de coração. A coligação também questiona conteúdos publicados antes de 16 de agosto que, segundo os advogados, apresentavam conjuntamente Mailza e Jéssica, faziam referência ao número 11 e registravam manifestações de apoio.
Em 13 de julho, uma publicação conjunta nos perfis das duas apresentava, segundo a ação, o número 11 e a identificação “MAILZA E JÉSSICA SALES”. O documento considera que a combinação desses elementos, antes do início oficial da propaganda, reforçaria a tese de antecipação da identidade eleitoral da chapa.
A ação também chama atenção para conteúdos em que Jéssica é apresentada como futura vice-governadora. Para os autores, a combinação entre a apresentação da dupla, o coração, o número 11 e manifestações de apoio teria produzido uma identificação antecipada da chapa perante o eleitorado.
O que Alan Rick pede
A representação pede que o TRE-AC reconheça a ocorrência de propaganda eleitoral antecipada positiva e considere o conjunto das publicações como uma estratégia de identificação eleitoral anterior ao período permitido.
Entre os pedidos estão a aplicação de multa individual a Mailza e Jéssica em valor próximo ao máximo previsto em lei, não inferior a R$ 25 mil para cada uma, além da proibição de republicação, repostagem ou impulsionamento dos conteúdos questionados. A ação também solicita a oitiva do Ministério Público Eleitoral.
Também solicitam, caso necessário, informações das plataformas digitais sobre datas de publicação, alcance e eventual impulsionamento.
A legislação citada na ação estabelece que a propaganda eleitoral é permitida a partir de 16 de agosto e prevê multa de R$ 5 mil a R$ 25 mil para propaganda antecipada, ou valor equivalente ao custo da publicidade, caso seja maior.
Mailza reage e fala em “ciúme eleitoral”
Após a ação, a assessoria de Mailza divulgou um posicionamento em tom crítico à iniciativa de Alan Rick. O texto chama a movimentação de “ciúme eleitoral” e afirma que o próprio candidato também aparece fazendo o mesmo gesto de coração em fotografias com eleitores durante a pré-campanha.
“Alan Rick também aparece fazendo o coração com as mãos em fotografias ao lado de apoiadores”, diz o material divulgado pela assessoria. Segundo o texto, o gesto teria sido utilizado pelo candidato antes de ganhar força associado à candidatura de Mailza.
A assessoria também argumenta que, no caso de Mailza, o gesto teria sido reproduzido espontaneamente por eleitores em diferentes situações. “Crianças, jovens, trabalhadores, mulheres, famílias e lideranças comunitárias passaram a reproduzir o sinal em caminhadas, bandeiraços e encontros realizados em diferentes municípios”, afirma o posicionamento.
O texto divulgado pela equipe de Mailza ainda sustenta que a própria representação apresentada por Alan reconhece que o coração é um gesto comum e não pode ser reivindicado com exclusividade por nenhuma candidatura.





