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Fala de auxiliar de Abel Ferreira soa como crítica rasa ao Brasil e como estratégia de comunicação disfarçada

Numa rodada marcada por times alterados e atenções divididas com as competições sul-americanas, teve lugar numa sala de entrevistas o fato mais relevante. Não que seja novidade uma coletiva de um integrante da comissão técnica do Palmeiras gerar controvérsia. Mas João Martins, auxiliar de Abel Ferreira — novamente suspenso e provavelmente grato por não ter que falar com a imprensa —, causou impacto ao dizer que a punição a seu colega é a prova de que o futebol reflete a sociedade.

Primeiro, é importante deixar claro o que Martins pretendeu. Ao citar o noticiário da semana no Brasil, referindo-se a canais como a GloboNews e a CNN, sua ideia era se apropriar da crise no STF para fazer de Abel Ferreira mais uma vítima de um tribunal. É difícil não se ver remetido a um trecho de Hamlet, de Shakespeare, a cada entrevista de Abel ou de um de seus colegas, assim como a cada reação enfurecida na beira do campo: “há método nessa loucura”. No Brasil, comissões técnicas amam se vitimizar. A do Palmeiras talvez tenha o mais estruturado plano de desenvolver um “nós contra o mundo”, combustível de um bem-sucedido projeto para mobilizar seus jogadores.

A questão é que João Martins, ao sugerir que a suspensão de Abel prova que o futebol de um país reflete sua sociedade, terminou por dizer que a sociedade brasileira está retratada na crise do Judiciário nacional. E o Brasil não é isso, tampouco o futebol brasileiro. O Brasil é uma democracia em funcionamento, e cabe ter especial dedicação a lutar para que permaneça sendo, porque o país viveu recentemente, e ainda vive, claros movimentos que pretendem colocá-la em risco. E somente numa democracia a sociedade tem instrumentos para conhecer, investigar e punir os malfeitos. O que ocorre aqui, e em qualquer outro regime já experimentado no mundo, é a existência de quem faça mau uso de suas atribuições e poderes. Mas o mau uso da democracia, em uma sociedade que use suas instituições para combater os desvios, ainda é melhor do que a ausência dela.

No entanto, dizer que a punição a Abel Ferreira prova que o futebol de um país é o reflexo de uma sociedade soa raso demais. O futebol do Brasil, como um bem cultural, naturalmente tem traços da nossa realidade. É possível falar da festa e da violência, da desigualdade ou da inventividade, ou mesmo do esporte como ascensão social. Aliás, o jogo é uma rara plataforma de transformação para jovens pretos, descendentes de escravizados. E, ao mesmo tempo, o jogo ainda é palco de manifestações racistas que existem na sociedade. É tudo muito mais complexo do que uma decisão de um tribunal.

A sentença de João Martins é tão reducionista como dizer, por exemplo, que a sociedade portuguesa estaria retratada no comportamento de uma comissão técnica que chuta microfones e destrata árbitros e árbitras ultrapassando, sistematicamente, todos os limites das boas maneiras. E, como todos nós sabemos, Portugal é muito melhor do que isso.

Em dado momento de sua passagem pelo Brasil, João Martins disse que “o sistema não te deixa ganhar duas vezes”. É um método, não uma constatação sobre o Brasil como sociedade. Desde que chegou ao país, Martins e Abel Ferreira já conduziram o Palmeiras a títulos nacionais seguidos, mas também perderam. Da mesma forma que presidentes conseguiram ou não se reeleger, segundo a vontade democrática da maioria da população.

Algo precisa ficar claro: numa democracia, Abel e Martins precisam ter preservado o direito à manifestação. E negá-lo a eles por serem portugueses seria xenofobia. Mas também é preciso estar atento quando observações sobre a sociedade brasileira são, a rigor, estratégia de comunicação disfarçada, numa busca por vantagem esportiva.

Massacre e drama

Fosse o Flamengo x Corinthians uma partida de basquete, teria chegado ao intervalo com uma confortável margem de 20 pontos. Fosse tênis ou vôlei, os sets teriam sido fechados com conforto. Só o futebol pode transformar tamanho massacre num drama resolvido apenas no minuto final do tempo regulamentar. Ótimo em todo o jogo, salvo em uma passagem do segundo tempo, o Flamengo reafirmou que, no momento, é o melhor time do Brasileiro.

Crescimento

Não fosse a sua crônica dificuldade de transformar volume em gols, o Vasco talvez tivesse sofrido menos para vencer o Grêmio. Desde o primeiro tempo, era o melhor time em campo em Porto Alegre. Não é que a equipe tenha se tornado plenamente confiável, a ponto de ser possível cravar que a luta contra a queda está ganha. Ainda há risco. Mas hoje existe mais solidez, mais competitividade e, com as contratações recentes, mais recurso técnico.

Queda livre

As incertezas administrativas no clube e as mudanças no elenco conduziram o Botafogo a uma reta final que parecia impensável: seis rodadas sem vencer, e a aproximação de uma zona perigosa da tabela. Para piorar, o contexto é cruel com o treinador. No Brasil, técnicos jovens costumam ganhar chances em meio a instabilidade e tensão, até serem alvos de questionamentos justamente pela falta de experiência. A ver se Rodrigo Bellão terá respaldo.