Pular para o conteúdo
O Juruá Em Tempo
Início / Famosos

Marcelo Serrado fala sobre luto, envelhecimento e livro sobre batalha contra crises de pânico

O ator Marcelo Serrado, de 59 anos, tem olhado bastante para o passado. Não apenas por conta do retorno de seu personagem Crô — que causou um sucesso violento, ele diz —, em participação na novela “Três Graças” recentemente, 15 anos após brilhar em “Fina estampa”, ambas do autor Aguinaldo Silva, na TV Globo. O motivo da retrospectiva pessoal é o lançamento do livro e documentário de mesmo título “Fora do roteiro” (editora Sextante e plataforma de streaming Aquarius), em que revisita a própria trajetória e fala em detalhes das crises de pânico que sofre desde a pandemia. Em texto e vídeo, o ator descreve os tremores das mãos que sentia e a iminência da morte. “Não consigo respirar, vou morrer e a única testemunha será uma porquinha rosa”, escreve sobre uma crise severa que teve num quarto de hotel em 2020, em que mirava o programa “Peppa Pig” na TV. Em conversa com o GLOBO num hotel em São Paulo, ele fala sobre saúde mental, por que decidiu trabalhar menos— recentemente esteve nas filmagens da cinebiografia de Marília Mendonça —, luto e decisão de não declarar votos nas eleições deste ano.

No doc, você fala de lutos, de Daniella Perez, sua amiga (morta em 1992), de Domingos Montagner (morto em 2016), além da morte da sua mãe, há três anos. Como lidou com as perdas?
O luto da Dani foi muito transformador porque eu era muito amigo dela. Fui par romântico da penúltima novela que ela tinha feito. Quando aconteceu, eu estava viajando, me senti muito culpado de estar fora do Rio e não estar presente naquele caos que foi o enterro dela. O assassino foi um cara com quem eu tinha trabalhado também (Guilherme de Pádua, morto em 2022). Aquilo foi devastador para mim. E depois teve esse outro luto do Domingos, eu estava gravando com ele (na época, a novela “Velho Chico”) e, no dia anterior, tomando uma cerveja com ele. Depois estava numa lancha, procurando o cara (Domingos morreu afogado no Rio São Francisco). E a morte da minha mãe… foi muito devastadora. Era uma pessoa em que eu era muito ligado. A minha vontade era voltar para o útero dela. Porque eu faço parte dela, ela me gerou. Quando vi minha mãe morta, o tempo parou para mim. Todo dia eu a vejo, e sinto presente em mim.

E esse luto não se resolve…
Sou filho caçula, fui o protegido dela. Não sei lidar com isso, tem quem lide melhor, mas para mim é uma dor que não passa. Vivi o luto em vida, vi ela morrendo a cada dia com Alzheimer. O filme “Ainda estou aqui”’ me pegou muito.

Está lidando bem com o envelhecimento?
Não tenho muito medo. Envelheci porque dei certo. Não há saída para isso.

Não tem noias?
Tenho todas as noias, mas meu pai está com 93 anos, é um exemplo de vida para mim. Ele sai, viaja, vai em show comigo. Ele faz assim todos os dias (no exemplo, Marcelo exercita as panturrilhas), diz que a batata da perna é o segundo coração do homem. Ele diz que sempre sorri para a vida. É isso que eu tento.

Suas crises de pânico parecem ter relação com momentos de pausa, descanso. Pensou no porquê?Sempre fui um cara muito ativo, muito fazedor de coisas. E foi exatamente no momento (de parada) que eu vi essa ruptura. Eu já tinha passado por coisas menores. Como uma vez que estava num hotel em 2020. Mas na crise forte eu estava num avião, e em um avião você não tem controle. Foi um divisor de águas, foi apavorante. É apavorante.

E existe uma culpa quando você se vê tendo uma crise de saúde mental. Pensar: “Como assim, eu?”
Tem um papo assim… Frescura, né? É frescura.

Passou por isso?
Passei. Vi pessoas falando na internet: é frescura. Tem o machismo, ouvi de muito homem coisas como “vou jogar bola com os amigos e resolvo isso”. Você não escolhe. A saúde mental, a crise de pânico, ela não escolhe a cor, classe, ou qualquer coisa. Tem a Simone Biles, o Gabriel Medina, eles passaram por isso. E também Jim Carrey, ou o João que é gari, tem o Mário, que trabalha com Uber. Uma senhorinha me abraçou uma vez no Aeroporto de Congonhas, perguntei se ela queria uma foto, ela disse que não. Falou, baixinho no meu ouvido: “Não pare de falar sobre isso (sobre saúde mental). Porque você me ajudou, me senti abraçada por você.”

Sabia nomear o que estava sentindo?
Agorafobia (crise que surge em locais em que não há como pedir ajuda), tive um episódio num hotel na Barra da Tijuca, e em Curitiba. Achava que em todo hotel eu iria ter isso. Li um livro que chamava “O poder do subconsciente”, do Dr. Joseph Murphy. Aquilo foi pólvora pra mim. Esse livro me fez abrir a janela do subconsciente.

Você dá detalhes do que passou no livro e no doc, fala de sintomas físicos como o formigamento das mãos, e da constatação de que ia morrer. Não teve gatilhos de volta para a crise?
Foi complicado, porque o gatilho está ali. Só que aconteceu algo inverso, quanto mais eu falava disso, mais eu me libertava. No começo não sabia se queria fazer, por conta do gatilho. Só que me ajudou a melhorar, não a potencializar. Havia ainda a possibilidade de chegar no outro, de deixar algo para a sociedade, o livro continua.

Teve medo de ficar marcado por falar do seu diagnóstico?
Acho que não. O tempo irá pulverizar essas coisas. Ficar marcado por deixar algo bom para a sociedade não me parece um problema. Imagina ficar marcado por alguém que tentou fazer o bem, que tentou chegar nos outros de uma outra maneira, não só com os personagens, mas mostrando que também sou vulnerável. Isso é bom, me deixa feliz.

Os medicamentos psiquiátricos ainda são tabu, você já contou que se deu alta deles uma vez.
Parei mesmo. Falei: “Pô, tô bem, não tenho mais crise, parei.” Parei por seis meses, no sétimo mês eu tive uma crise. Liguei para a pessoa que cuida de mim nesse sentido e ele me disse que eu não poderia me dar alta, que o medicamento estava lá para me ajudar. Voltei a tomar remédios todos os dias, no trabalho sempre foi uma coisa tranquila. Nunca tive nada trabalhando, mas, se tivesse, as pessoas iam me acolher. Hoje as empresas acolhem mais. Pior é quem não fala e guarda para si, e explode de outra maneira. É uma explosão. Eu, quando falo de saúde mental, me liberto.

Segue tomando remédio?
Sigo, com acompanhamento. Uma vez eu tive uma crise em São Paulo, fui ao hospital, o Sírio-Libanês. Chamaram minha senha. Aí (senti que) melhorei e fui embora. Só de chegar ao hospital eu melhorei.

A alta é outro tabu…
Alta é um tabu, sim. Às vezes, na minha peça “Terapia” (monólogo com datas próximas em Volta Redonda, Vitória e Recife), pergunto quem fez terapia e quem fez e se deu alta. Alguns levantam a mão. É meio cool fazer terapia há muitos anos, assim como há o tabu em tomar remédio.

Teve medo de que essas crises, de alguma forma, também pudessem chegar aos seus filhos?
Felipe, um dos gêmeos, de 13 anos, tem um pouco de medo de avião. Minha filha, Catarina, 21 anos, também. O outro gêmeo, Guilherme, não tem. Meu pai acha que está no meu DNA essa coisa (da crise de pânico), porque minha mãe fazia coisas inacreditáveis em aviões. Uma vez ela foi à cabine do piloto e ela falava para ele: “Por que você não vai no caminho do meio? Tem nuvem para direita, para a esquerda, vai no meio!” Meu pai foi lá tirar ela. Outra vez ela fez cinco senhoras desembarcarem do voo ao dizer:“Vai cair o avião!” E, antes de sair, ela me levou também.

Qual o seu check-list pra vida?
Tenho táticas. O Tiago Garcia, que faz hipnose, me deu um áudio que eu escuto antes de embarcar em avião, o que me ajuda a me acalmar. Viagem longa não existe. Para ir a Paris, eu faço Rio, Lisboa, vejo dois filmes, me acalmo, depois faço mais um voo de três horas. Sou malandro. Não trabalho mais como eu trabalhava, tento não querer mudar minha essência. Me adéquo, tento melhorar algumas coisas, mas mudar em prol do outro para agradar, não faço mais. Tento cada vez mais ser um cara bom, legal. Não recuso mais autógrafo e foto, já recusei muito.

Dá remorso?
Ah, a pessoa sai falando mal de você: “É um merda que não quis fazer uma foto comigo!” As pessoas me falam: “Minha vó te ama”, aí nessas horas penso que envelheci mesmo. Então, pergunto de volta: “Você não me ama?” Eles respondem que amam porque viram “Beleza fatal” (novela da HBOMax, em que ele fez o insólito Dr. Peitão).

O personagem Crô ajudou você a repensar sua masculinidade?
O Crô me aproximou muito da comunidade LGBT. Fui às boates, às passeatas gays em São Paulo. Foi muito revelador, vim de uma família machista. Nunca imaginei que fosse fazer sucesso, acho que nem o Aguinaldo (Silva, autor da novela “Fina estampa”, em que o personagem apareceu pela primeira vez). Crô virou figurinha, cor de esmalte, teve as pessoas no carnaval. O sucesso tem uma violência muito grande, mas no bom sentido, ele te tira do lugar e te joga em outro. É preciso estar preparado para isso.

Teve crise pós-Crô?
Tive crise pós-Crô. É como parar de comer, aquilo vira uma abstinência. Mas sou grato, fiz muitas coisas depois. E ele voltou agora em “Três Graças” e foi um sucesso. Mas agora ela está cansada, deixa ela (o Crô) descansar.

Vai se posicionar nas eleições deste ano? Você sempre declarou seus lados…
Não vou. Eu tenho uma questão séria de saúde mental, eu olho muito para a internet. Não quero isso para mim, isso tem um custo. Não preciso tê-lo novamente, mas estou sempre do lado do bem.