A FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, aprovou na última sexta-feira o apitegromabe, primeiro tratamento para atrofia muscular espinhal (AME) que atua diretamente contra a perda muscular. Comercializado como Isembyld, o medicamento da Scholar Rock bloqueia a ação da miostatina, proteína que funciona como um “freio” natural do crescimento muscular.
A aprovação para a doença rara também abre espaço para uma possível nova aplicação: preservar massa muscular durante o emagrecimento provocado por medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy, as famosas canetas emagrecedoras. A Scholar Rock já testa o apitegromabe em pessoas com obesidade, combinado à tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
— A aprovação do primeiro inibidor da miostatina abre caminho para uma nova abordagem da obesidade, em que o objetivo deixa de ser apenas o número na balança e passa a ser a composição do corpo: perder gordura e preservar músculo — afirma o endocrinologista Ramon Marcelino, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês..
Como funciona
A miostatina reduz a produção de proteínas musculares, acelera sua degradação e interfere na reparação dos músculos. O apitegromabe se liga à forma inativa da proteína e impede sua ativação, retirando parte desse “freio” natural.
Na AME, o problema começa nos neurônios motores, que deixam de funcionar por causa de uma alteração no gene SMN1. Os tratamentos já existentes atuam principalmente no gene SMN2 para preservar essas células. O apitegromabe, por sua vez, age diretamente no músculo.
Em um estudo de 52 semanas com 188 pacientes com AME, aqueles que receberam a dose de 10 mg/kg apresentaram melhora da função motora, enquanto o grupo placebo apresentou declínio. O tratamento, porém, também foi associado a maior risco de fraturas.
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Teste com Mounjaro
Em um estudo de fase 2 publicado na Nature Medicine, 102 adultos com sobrepeso ou obesidade receberam tirzepatida sozinha ou combinada ao apitegromabe durante 24 semanas.
A perda total de peso foi semelhante, mas a composição mudou. Apenas 14,6% do peso perdido pelo grupo que recebeu apitegromabe correspondeu à massa magra, contra 30,2% no grupo placebo. Os participantes que receberam o medicamento perderam 1,9 kg menos de massa magra, uma retenção muscular 54,9% maior.
Apesar dos resultados, o apitegromabe ainda não é aprovado para tratar obesidade. São necessários estudos de fase 3 e autorização específica da FDA nos EUA e de outras agências, como a Anvisa, para o caso do Brasil.
O uso off-label pode ocorrer após a aprovação para AME, mas o custo é elevado: segundo a Reuters, o tratamento deve chegar a cerca de US$ 310 mil por ano, aproximadamente R$ 1,7 milhão.
— Não há, neste momento, nenhuma indicação aprovada de inibidores de miostatina para obesidade, e o uso fora da bula, sem estudos que comprovem segurança, não é recomendado — alerta Marcelino.
Outro medicamento em estudo é o bimagrumabe. Em combinação com semaglutida, ele produziu perda de 22,1% do peso após 72 semanas, com menos de 10% dessa redução correspondente à massa muscular.



