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Economista analisa impacto do Bolsa Família para o combate à fome no Acre

O ACRE QUE COME E COMPRA GRAÇAS AO BOLSA FAMÍLIA

O Acre carrega o peso de ser um dos estados mais pobres do Brasil. Em 2025, a renda domiciliar per capita ficou em R$ 1.392 por mês, a terceira pior do país e apenas 60% da média nacional. Por trás da média, a realidade é dura: os 5% mais pobres sobrevivem com cerca de R$ 2,60 por dia, enquanto a renda se concentra nas mãos de poucos, sobretudo na capital. A pobreza atinge mais de 40% da população e afasta gerações inteiras de oportunidades dignas. É um quadro que lembra, pela persistência da privação, países africanos como Moçambique.

É neste contexto que o Programa Bolsa Família (PBF) precisa ser analisado. Não vivemos na Suíça, muito menos em Santa Catarina. O processo histórico de formação econômica e o fracasso das políticas econômicas implementadas pelas oligarquias familiares que governam o estado há mais de 40 anos contribuem de forma expressiva para explicar a pobreza acreana.

Vejamos alguns números extraídos dos microdados da PNAD Contínua de rendimentos de 2025. A Tabela 1 mostra os 15% mais pobres do Acre, cerca de 129 mil pessoas divididas em três faixas de 43 mil. A renda domiciliar per capita dessas pessoas, já contando o Bolsa Família, é muito baixa. Os 5% mais pobres vivem com R$ 77,20 por mês, ou R$ 2,60 por dia. Na faixa seguinte são R$ 204,27 por mês (R$ 6,81 por dia), e na terceira, R$ 276,83 por mês (R$ 9,23 por dia). Para dar uma régua, a renda per capita média do Acre em 2025 é de R$ 1.392 por mês, cerca de R$ 46 por dia. A faixa mais pobre vive com pouco mais de 5% dessa média, e mesmo a terceira chega a apenas 20%. É esse dinheiro que precisa cobrir alimentação, transporte, moradia e saúde.

Tabela 1. Renda domiciliar per capita (RdP) dos 15% mais pobres do Acre em 2025

Observação: RdP representa a renda domiciliar per capita. Fonte: elaboração própria a partir dos microdados da PNAD Contínua 2025 (IBGE).

O segundo bloco de colunas mostra o quanto essa renda depende do programa. Sem o Bolsa Família, a faixa mais pobre ficaria com renda zero, a segunda com 11 centavos por mês e a terceira com R$ 2,78 por dia, uma queda de cerca de 70%. Para boa parte dessas famílias, o benefício é praticamente a única fonte de renda, e elas não têm folga nenhuma diante de um desemprego, de uma doença ou de uma alta de preços.

A tabela cobre só a base da distribuição, mas é justamente nela que se mede a vulnerabilidade de um estado. Que 15% da população viva com menos de R$ 10 por dia por pessoa, mesmo com transferência de renda, mostra um Acre extremamente vulnerável. O quadro provavelmente é até mais duro do que parece, porque o Bolsa Família costuma ser subdeclarado nas pesquisas domiciliares.

Sem o Bolsa Família, uma parte relevante da população do Acre ficaria sem renda para comer. Pela Tabela 1, os 5% mais pobres (cerca de 43 mil pessoas) teriam renda per capita igual a zero, e os 5% seguintes, 11 centavos por mês. Juntas, essas faixas somam cerca de 86 mil acreanos, ou 10% da população estimada. O Mapa da Fome da FAO é um indicador nacional, e o país entra nele quando mais de 2,5% da população está em situação de subalimentação.

O Brasil saiu do mapa em 2025 e, segundo o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI) 2026, continua fora. Como o indicador não existe por estado, não dá para dizer que o Acre entraria formalmente. Mas 10% da população sem renda superaria com folga o limite de 2,5%. Esta é uma leitura minha a partir da PNAD, e não uma conclusão da FAO. O cálculo é simplificado e mantém as demais rendas iguais. Ainda assim, no Acre o Bolsa Família separa a vulnerabilidade da fome para dezenas de milhares de pessoas.

Mas quero ir ainda mais longe na análise. Talvez você não saiba, mas, em 2025, o Bolsa Família aportou no Acre mais de R$ 1,10 bilhão. Se o PBF fosse um setor da economia acreana, seria o quarto ou o quinto maior.

Possivelmente você desconhece, mas o comércio e os serviços de pelo menos 20 municípios do estado vivem quase exclusivamente do pagamento de salários das prefeituras e do Bolsa Família. O PBF é uma transferência direta de renda do governo federal para as famílias beneficiárias. E, para famílias de baixa renda, essa transferência se transforma em consumo de forma imediata.

Quem recebe o Bolsa Família compra carne, arroz, frango, óleo e ovos, e paga luz, água e celular. As pequenas mercearias, os supermercados e os pequenos negócios são o destino desses recursos. Esses recursos pagam salários e impostos, geram renda e fazem a economia girar.

Imagine a economia acreana sem R$ 1,10 bilhão e tendo de gerar 130 mil ocupações. Nos últimos dez anos, o Acre não conseguiu gerar mais de 35 mil empregos formais líquidos.

Hoje, o Programa Bolsa Família representa para o Acre a maior política pública de desenvolvimento e de combate à pobreza. Sem ele, o Acre seria terra arrasada. No curto e no médio prazo, não existe nada com mais impactos positivos sobre a economia e a sociedade do que o Bolsa Família. Ruim com o Bolsa Família, uma hecatombe sem ele.