“Nós falhamos com o povo de Gaza. Eles vivem um inferno que, de alguma forma, fica ainda pior a cada dia”, afirmou, em setembro de 2024, o secretário-geral da ONU, António Costa, em uma das numerosas admissões de como a comunidade internacional fracassou diante da crise no enclave. Nos últimos três anos, 74 mil pessoas morreram, 175 mil ficaram feridas e quase 90% das estruturas do enclave foram danificadas ou completamente destruídas. Desde túneis usados pelo Hamas até escolas, hospitais, parques, residências e infraestruturas básicas para a vida.
Uma recente atualização feita pelo serviço de imagens Google Earth permitiu ao mundo ter uma ideia, a alguns quilômetros de altura, da escala da devastação em Gaza. Desde o início do conflito, lançado após os ataques do Hamas de outubro de 2023, a imprensa internacional não tem acesso ao enclave. Os relatos independentes vêm através de funcionários de agências humanitárias, médicos e de moradores que conseguiram sair.
Antes da guerra, a Cidade de Gaza era a maior do enclave, com quase 600 mil habitantes. Apesar das dificuldades impostas pelo bloqueio israelense, em vigor mesmo antes da guerra, e da repressão imposta pelo Hamas, havia vida em suas ruas. Cafés mantinham uma clientela cativa — após o início da guerra, como atestou um correspondente da rede al-Jazeera, eles se tornaram símbolo de como alguns ganharam dinheiro com o sofrimento alheio —, restaurantes ofereciam pratos típicos e parques serviam como locais de respiro.
Entre eles, o Parque Shijia, nos arredores da Cidade Velha de Gaza, era um ponto verde em uma área movimentada, com algumas barracas e bancos aos moradores. Hoje, como demonstram as imagens do Google Maps, captadas em fevereiro, nada mais resta além de um monte de terra escavada em meio a ruínas de prédios atingidos por bombas e mísseis.
Em julho, Saleem Khader al-Ashqar, goleiro do Khadamat Khan Younis, saiu de casa à procura de um pouco de gás de cozinha para sua família nos arredores de Khan Younis, mas jamais retornou. Baleado por militares israelenses, al-Ashqar tinha como sonho integrar a seleção nacional palestina.
— Quando as diretorias dos clubes se reuniam conosco para negociar o contrato dele, Saleem dizia: “Não preciso de dinheiro; preciso ser um jogador que represente minha terra natal, meu povo e o Estado da Palestina — disse o tio dele, em entrevista à al-Jazeera.
Al-Ashqar foi um dos 567 profissionais do futebol mortos desde outubro de 2023 em Gaza, um número sombrio e que tem no Estádio Palestina, na Cidade de Gaza, um monumento ao impacto da guerra no esporte local. Ao invés de partidas, uma área militarizada, que foi usada para abrigar pessoas capturadas pelos israelenses. Em fevereiro, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse que gostaria de fazer um estádio para 20 mil pessoas, ao custo de US$ 50 milhões. A população, contudo, tem outras prioridades.
Nas areias brancas da costa mediterrânea de Gaza, cobiçadas por empresários do setor imobiliário, as tendas hoje ocupam o lugar central. Em Deir al-Balah, dezenas de milhares surgiram após o avanço israelense, e pessoas que perderam tudo e ali buscavam um solo para criar um teto temporário foram obrigadas a buscar outro local devido à superlotação.
— Tenho procurado um lugar para montar uma tenda e não consigo encontrar. Perguntei às pessoas em Khan Younis e Deir al-Balah e elas me disseram que não têm espaço para mim e minha família — disse à agência Reuters Aya Mohammad, cuja família de oito pessoas rumava para a Cidade de Gaza.
Em junho de 2024, uma ofensiva israelense no campo de refugiados de Nuseirat, destinada a resgatar quatro dos reféns sequestrados nos ataques de outubro de 2023, se tornou um dos episódios mais sangrentos da guerra. Ao todo, 274 pessoas morreram, e o incidente foi classificado como um “banho de sangue” pelo então chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell. Na ocasião, a ONU afirmou que Israel — pela violência empregada — e o Hamas — por manter reféns em áreas povoadas — podem ter cometido crimes de guerra.
Na semana passada, foi realizado um funeral coletivo para 40 pessoas cujos corpos foram recuperados do que restou de prédios e casas. Citado pelo jornal israelente Haaretz, um funcionário da ONU estimou que 8 mil corpos estejam debaixo de toneladas de concreto em Gaza, onde menos de 1% dos escombros foram retirados.
Usada como abrigo em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, a escola secundária Kamal Adwan foi uma das centenas de unidades educacionais bombardeadas por Israel nos últimos três anos, afetando mais de 600 mil estudantes de todos os níveis de ensino. Ao menos 80% de todas estruturas, desde escolas até creches, sofreram algum tipo de dano.
Segundo especialistas, mesmo que o conflito terminasse agora, os impactos negativos a toda uma geração são impossíveis de estimar a médio e longo prazo, sem contar o trauma vivido por crianças e adolescentes que cresceram ao som de bombas.
“Consequentemente, a destruição cria obstáculos severos e de longo prazo para qualquer recuperação significativa no pós-conflito e para o desenvolvimento socioeconômico da região”, escreveram Raed Nuwaira, Isam ‘Aira e Hind Hamousa, em artigo publicado em maio. “Em última análise, Gaza constitui um exemplo contundente de como a erradicação sistemática da infraestrutura educacional funciona como uma ferramenta estratégica para minar os próprios fundamentos da resiliência social e da capacidade de autodeterminação.”



