A agropecuária acreana deverá movimentar R$ 4,94 bilhões em Valor Bruto da Produção (VBP) em 2026, segundo estimativa do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). O resultado representa crescimento real de 14,8% em relação a 2025 e de 35,6% na comparação com 2017.
Mais importante que o crescimento, porém, é observar o que aconteceu dentro dele. A agropecuária do Acre mudou de composição: a pecuária bovina ampliou sua participação, café, soja e milho ganharam espaço, enquanto atividades tradicionais, principalmente a mandioca, perderam peso relativo.
Essa transformação complementa questões que tenho discutido neste espaço sobre exportações, agregação de valor e mudanças na estrutura produtiva acreana.
O que mede o VBP?
O Valor Bruto da Produção estima o valor econômico da produção agropecuária combinando quantidades produzidas e preços recebidos pelos produtores. Portanto, seu crescimento pode resultar tanto do aumento da produção quanto da valorização dos preços.
Para as lavouras de 2026, o MAPA utiliza principalmente as estimativas do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE, de julho. Na pecuária, são utilizadas pesquisas trimestrais do IBGE, considerando-se, para o ano corrente, a produção dos últimos quatro trimestres. Os preços são obtidos em fontes como Conab e Cepea/Esalq/USP e, para 2026, correspondem às médias de janeiro a julho.
Outro aspecto importante é que toda a série foi atualizada pelo IGP-DI para valores de julho de 2026. Assim, as comparações apresentadas a seguir mostram variações reais, descontado o efeito da inflação.
A principal mudança está no peso da pecuária. Em 2026, ela responde por aproximadamente 71% do VBP agropecuário acreano, impulsionada principalmente pelos bovinos, cujo valor passou de R$ 1,59 bilhão em 2017 para R$ 3,41 bilhões em 2026, crescimento real de 114,2%.
Esse protagonismo dialoga com o que venho mostrando nos artigos sobre comércio exterior: a carne bovina ganhou espaço nas exportações e consolidou-se como uma das principais cadeias da economia acreana.
Café, milho e soja ganham espaço
Nas lavouras, a mudança de composição também é significativa.
O café conilon apresenta uma das transformações mais expressivas. Seu VBP passou de R$ 30,6 milhões em 2017 para R$ 121,5 milhões em 2026, crescimento real de 297,6%. Embora haja recuo de 28,9% frente ao resultado excepcional de 2025, o valor atual ainda é aproximadamente quatro vezes o registrado em 2017.
O café tornou-se, assim, um bom exemplo da diversificação que tenho defendido em outros artigos: não basta ampliar a produção; é fundamental avançar em produtividade, qualidade, mercado e agregação de valor.
O milho também se destaca, com crescimento real de 121,8% desde 2017. Já para a soja, adotei 2021 como base de comparação, por marcar o início das exportações acreanas do produto. Desde então, seu VBP aumentou de R$ 70 milhões para R$ 118,1 milhões, expansão real de 68,8%, confirmando sua rápida incorporação à estrutura produtiva estadual.
A mandioca perde a hegemonia
A mandioca revela o outro lado dessa transformação. Seu VBP caiu de R$ 1,50 bilhão em 2017 para R$ 540,2 milhões em 2026, redução real de 64%. Apesar da recuperação de 18,7% neste ano, sua participação no VBP das lavouras recuou de aproximadamente 76% para 37% no período.
A mandioca continua sendo a lavoura de maior VBP individual e mantém grande relevância econômica, social e cultural, sobretudo para a agricultura familiar. O que mudou foi sua posição relativa, diante de uma agricultura que começa a apresentar maior diversificação.
Nem todas as atividades avançaram
Outras culturas também perderam espaço. Entre 2017 e 2026, o VBP do arroz recuou 66%, o da laranja 72,6% e o da cana-de-açúcar 60,9%.
Na pecuária, a suinocultura exige uma ressalva. Os dados disponíveis terminam em 2023 e mostram queda real de 32,2% frente a 2017. Entretanto, a carne suína ganhou relevância nas exportações acreanas nos últimos anos, indicando uma dinâmica mais recente que o VBP disponível não consegue captar. A ausência de informações para 2024, 2025 e 2026 impede, portanto, uma avaliação mais precisa da evolução atual da atividade.
Uma nova configuração do agro acreano
Os números reforçam uma mudança que venho identificando em outros indicadores da economia acreana. Nos artigos sobre exportações, vimos a crescente importância da carne bovina, a entrada da soja na pauta comercial e o avanço de produtos com maior potencial de agregação de valor. O VBP mostra que essa transformação também está ocorrendo dentro da estrutura produtiva.
O agro acreano de 2026 já não tem a mesma composição de uma década atrás. A pecuária bovina consolidou sua liderança, o café ganhou importância, milho e soja avançaram, enquanto a mandioca perdeu parte expressiva de sua antiga hegemonia.
O VBP próximo de R$ 5 bilhões é uma boa notícia, mas crescer na produção primária é apenas parte do desafio. O passo seguinte é ampliar produtividade, processamento e agroindustrialização, melhorando também logística e infraestrutura para que uma parcela maior do valor gerado pelas cadeias produtivas permaneça no Acre na forma de renda e empregos.
É esse movimento que poderá transformar uma agropecuária maior em uma economia acreana mais produtiva e diversificada.
Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas.

