A descoberta de centenas de novos geoglifos escondidos sob a floresta do Acre não apenas ampliou o patrimônio arqueológico conhecido da Amazônia, como também mudou a compreensão sobre o tamanho da civilização que viveu na região antes da chegada dos europeus.
Segundo um estudo publicado nesta quarta-feira na revista científica Nature, o povo Aquiry, responsável pela construção dessas enormes estruturas de terra, pode ter reunido entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes em seu auge, por volta do ano 200 d.C. Caso a estimativa seja confirmada por futuras pesquisas, o sudoeste amazônico teria abrigado uma das maiores concentrações populacionais da América pré-colombiana.
A projeção representa uma revisão significativa das estimativas anteriores e foi possível graças à identificação de 396 novos geoglifos ocultos sob áreas preservadas da floresta, elevando de 36 para 432 o número de estruturas conhecidas na região.
Como os pesquisadores chegaram a essa estimativa
A pesquisa foi liderada pelo arqueólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, em parceria com cientistas brasileiros.
Para estimar o tamanho da população, os pesquisadores consideraram o esforço necessário para construir os geoglifos. Segundo o estudo, uma comunidade de aproximadamente 300 pessoas, incluindo cerca de 60 homens adultos, seria capaz de erguer uma dessas estruturas em cerca de um ano sem interromper suas atividades de subsistência.
Além da construção, essas comunidades precisavam manter os espaços livres da vegetação por séculos. Algumas estruturas permaneceram em uso por mais de 200 anos, enquanto outras continuaram sendo utilizadas por mais de mil anos, indicando ocupação contínua e organização social complexa.
Obras gigantescas escondidas na floresta
Os geoglifos são grandes obras de terraplanagem formadas por valas e aterros em formatos geométricos. Algumas ocupam poucos metros de extensão, enquanto outras chegam a áreas superiores a 15 campos de futebol.
Arqueólogos acreditam que esses espaços eram utilizados para cerimônias, encontros e outras atividades coletivas do povo Aquiry, que não possuía sistema de escrita. Por isso, essas estruturas representam o principal legado material deixado pela antiga civilização.
Até recentemente, os geoglifos conhecidos haviam sido encontrados apenas em áreas desmatadas. A nova pesquisa utilizou a tecnologia LiDAR, um sistema de varredura a laser capaz de mapear o relevo sob a copa das árvores, revelando centenas de estruturas preservadas na floresta entre o Acre e a Bolívia.
Mesmo com o avanço das pesquisas, os autores acreditam que a maior parte desse patrimônio ainda permanece desconhecida. A estimativa é de que mais de 20 mil geoglifos continuem escondidos sob a vegetação amazônica.
Conhecimento da floresta
Um dos coordenadores brasileiros do estudo, o botânico Evandro Ferreira, da Universidade Federal do Acre (Ufac), afirma que os Aquiry dominavam profundamente o funcionamento dos ecossistemas amazônicos.
Segundo ele, a população aproveitava o ciclo natural das florestas de bambu para abrir áreas destinadas às construções. Como essas plantas passam por um processo de morte natural aproximadamente a cada 28 anos, uma queimada controlada era suficiente para limpar o terreno e iniciar as obras.
O conhecimento dos ciclos da floresta, aliado à capacidade de mobilizar grandes grupos de pessoas por longos períodos, reforça a ideia de que a Amazônia abrigou sociedades muito mais organizadas e populosas do que se imaginava até poucas décadas atrás.
Mistério permanece
Quando portugueses e espanhóis chegaram ao sudoeste amazônico, no século XVI, a civilização Aquiry já havia desaparecido como organização política. A população havia se dispersado em aldeias menores, consideradas ancestrais de povos indígenas como os Apurinã e os Manchineri.
As causas do desaparecimento dessa sociedade ainda são desconhecidas e deverão ser investigadas em futuras escavações dos geoglifos recém-identificados.
Para os pesquisadores, a combinação entre as novas descobertas e o uso de tecnologias como o LiDAR deve continuar revelando capítulos inéditos da história da ocupação humana na Amazônia, reforçando o papel do Acre como um dos principais centros arqueológicos do continente.

