Produtos derivados da mandioca feitos no Acre estão com preços, em média, 25% superiores aos importados de outras regiões do país. A constatação é detalhada no Relatório Setorial do Mapa de Potencialidades Econômicas, encomendado pelo Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre.
Os dados da mandiocultura apresentados no relatório têm como referência a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, entre os anos de 2022 e 2024. “A análise dos dados revela um cenário favorável para a mandiocultura acreana, caracterizado pela valorização econômica da produção sem comprometimento da produtividade agrícola”, afirma o relatório.
“Contudo, mesmo a mandioca apresentando uma possibilidade enorme em termos de diversificação de produtos finais, é preciso estratégias diferenciadas, inovação em produtos, pesquisas de mercados e preços competitivos para alcançarmos mais consumidores e mercados”.
O documento faz comparações de derivados da mandioca vendidos nas duas principais redes de supermercados da Capital. Um dos destaques é a farofa, que já é um derivado de muito apelo no mercado regional e tem valor agregado. Tanto é que o relatório lembra que as redes de supermercados produzem as próprias farofas.
Ocorre que as farofas apresentadas pelas indústrias de outras regiões do país apresentam um produto em embalagens muito mais atrativas, com mais apelo comercial e, detalhe importante, mais baratas.
Na comparação da goma de mandioca, a diferença entre os produtos é ainda mais evidente. A goma importada apresenta preço médio de R$ 10,80. A goma produzida no Acre tem preço que oscila entre R$ 11,45 a R$ 14,99. “Neste quesito, é preciso destacar que o produto importado, paga frete, impostos superior ao local e mesmo assim, é mais barato”, constata o relatório. Com outra diferença, a goma importada pode ser acondicionada ao ar livre, enquanto a goma acreana exige ambiente refrigerado. isso indica que há mais tecnologia aplicada ao produto feito fora do Acre.
“A cadeia da mandioca tem grande potencial de crescimento, porém precisa incorporar tecnologia/inovação em seu processo produtivo e em seus produtos. É possível cobrar mais, é possível alcançar novos mercados, é possível gerar mais renda ao longo da cadeia produtiva. Potencial temos”, diz o relatório.
A análise apresentada pelo relatório está harmonizada com a missão do Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento: servir de alerta para as reações que o setor privado deve ter para superar os gargalos da economia regional. No caso da cadeia produtiva da mandioca, a constatação é clara: falta aplicação de tecnologia e inovação nos derivados ofertados ao mercado local.
A base de produção existe. Pelos dados da PAM, é possível resumir a importância da mandiocultura da seguinte forma: a área plantada continua estável e a participação relativa entre as principais culturas é a maior. Isso confere à mandioca uma cultura de intenso impacto social e econômica na agricultura de base familiar do Acre.
A tabela a seguir mostra como foi a evolução dos números. A mandioca teve variação superior até mesmo comparada ao café.
Participação relativa das principais culturas agrícolas acreanas no período de 2022 a 2024 (%)
Culturas 2024 2023 2022 Variação (%)
Arroz 0,88 0,85 0,93 -6,67
Café 6,94 5,00 5,31 23,48
Feijão 2,15 2,81 2,91 -35,50
Laranja 1,05 1,12 1,26 -19,25
Mandioca 50,92 43,31 38,73 23,93
Milho 19,86 29,19 38,12 -91,89
Soja 18,20 17,73 12,74 30,01
Totais 100,00 100,00 100,00 –
Fonte: Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento a partir da PAM/SIDRA/IBGE (2024)
Principal cultura agrícola do Acre ainda é a mandioca
A mandioca mantém posição de destaque na agricultura acreana. O valor da produção de mandioca saltou de R$ 212,3 milhões, em 2022, para R$ 346,5 milhões, em 2024. Isso representa um crescimento de 63,2% no período. É classificado pelos economistas como um crescimento extraordinário.
“Este desempenho não apenas reforça a importância histórica da cultura no estado, mas também sugere uma expansão significativa tanto em área plantada quanto em produtividade, possivelmente impulsionada pela crescente demanda por produtos derivados da mandioca e pela agregação de valor na cadeia produtiva”, aponta o estudo.
Valor real da produção das principais lavouras permanentes e temporárias do Acre (2022-2024) (em R$)
Culturas 2024 2023 2022
Arroz 5.960.015 5.049.399 5.119.851
Café 47.237.433 29.540.351 29.108.177
Feijão 14.616.128 16.601.398 15.949.455
Laranja 7.169.263 6.609.855 6.885.353
Mandioca 346.526.313 256.080.872 212.288.218
Milho 135.181.308 172.561.793 208.905.478
Soja 123.858.541 104.816.565 69.816.722
Totais 680.549.002 591.260.232 548.073.254
Fonte: Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento a partir da PAM/SIDRA/IBGE (2024)
Área plantada manteve relativa estabilidade
A área destinada ao cultivo de mandioca manteve-se relativamente estável durante o período, oscilando entre 21.565 e 21.895 hectares. Observou-se uma ligeira redução em 2023 (21.565 ha) em relação a 2022 (21.895 ha), seguida de recuperação em 2024 (21.865 ha). Esta estabilidade na área cultivada indica que as variações na produção não estão relacionadas à expansão ou retração significativa da fronteira agrícola da cultura.
Movimento Feito no Acre exige aumento da capacidade de investimentos das empresas
Um aspecto chama atenção do relatório: as empresas locais que integram a cadeia produtiva da mandioca precisam aumentar a capacidade de investimento. Produtos similares que oferecem condições de consumo melhores e chegam às gôndolas dos supermercados mais baratos que os produzidos aqui precisam servir de desafio aos empresários locais.
O Mapa de Potencialidades foi lançado justamente no período em que é iniciado o movimento Feito no Acre, pensado também pelo Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento. “Os empresários locais precisam se sentir desafiados”, diz o professor de Economia da Ufac e um dos coordenadores do estudo, Rubicleis Gomes da Silva.

