Pesquisadores encontraram no Acre fósseis de primatas com cerca de 11 milhões de anos que revelam a existência de duas espécies até então desconhecidas pela ciência, ligadas à origem do muriqui, maior macaco das Américas e espécie ameaçada de extinção. O anúncio foi feito pelo Jornal da USP na segunda-feira (17).
Os restos, formados por quatro dentes e um fragmento do osso do tarso, foram localizados às margens do Alto Rio Juruá e da BR-364, em pontos associados à Formação Solimões Superior. As duas espécies batizadas a partir do material receberam os nomes de Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus.
O Parabrachyteles vesperus, segundo a reconstrução dos pesquisadores, pesava cerca de seis quilos e se alimentava principalmente de folhas e outros itens fibrosos, dieta semelhante à dos muriquis atuais. Já o Migmacebus juruaensis não ultrapassava um quilo e se alimentava sobretudo de frutas e itens duros, padrão comparável ao dos macacos-prego, macacos-de-cheiro e paraucaus modernos. As características da alimentação foram estimadas por meio de tomografia computadorizada de alta precisão e fotografia óptica aplicadas aos fósseis.
De acordo com o artigo publicado no periódico Journal of Mammalian Evolution, ligado à Nature, a descrição do Parabrachyteles representa um novo capítulo na história evolutiva dos muriquis. O Migmacebus, por sua vez, apresenta uma combinação de traços que os autores classificam como “quimera morfológica dos macacos-esquilo atuais e dos macacos-prego”.
O primeiro autor do estudo, o paleontólogo francês Laurent Marivaux, da Universidade de Montpellier, afirmou ao Jornal da USP que a descoberta altera a compreensão sobre a distribuição geográfica antiga do grupo. “A descoberta de um parente próximo dos muriquis na região do Acre, na Amazônia Ocidental, reformula drasticamente nossa compreensão da história evolutiva e biogeográfica do grupo, sugerindo que seus ancestrais já tiveram uma distribuição muito mais ampla do que se reconhecia anteriormente”, disse. Marivaux destacou ainda que os muriquis modernos, hoje restritos à Mata Atlântica, não possuíam até agora nenhum registro fóssil conhecido.
A pesquisa reúne um esforço de longa duração entre instituições brasileiras e estrangeiras. O trabalho foi concebido por pesquisadores do Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul, vinculado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, em parceria com a Universidade Federal do Acre, em Cruzeiro do Sul. Também participaram equipes da Universidade de Toulouse, na França, do Instituto Argentino de Nivología e do Instituto de Ecorregiones Andinas, ambos da Argentina.
A professora Annie Hsiou, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP e coautora do artigo, participou das expedições de campo que reúnem material fóssil na região há 15 anos. “A diversidade dos platirrinos no Mioceno amazônico era maior do que se imaginava. O Migmacebus juruaensis apresenta uma combinação inédita de características compartilhadas com macacos-prego e macacos-de-cheiro, indicando que a diversificação dos cebíneos foi mais complexa do que o registro fóssil mostrava até agora”, afirmou.
A maior parte dos fósseis descritos no estudo foi obtida por meio de peneiramento de sedimentos coletados em barrancas de rios, técnica também chamada de screenwashing. O material mais grosseiro passa por triagem ainda em campo, enquanto os sedimentos mais finos seguem para análise em laboratório sob lupa de estereomicroscópios, etapa em que os dentes de primatas descritos no artigo foram identificados.
Segundo a curadora da Seção de Paleontologia do museu gaúcho, Ana Maria Ribeiro, a escassez de registros na região amazônica está ligada às condições ambientais locais. “Em ambiente tropical cheio de vegetação como a região amazônica e permeado por rios, é muito difícil a preservação. A quantidade acaba sendo insignificante se comparada com outras regiões mais abertas como, por exemplo, a Patagônia, onde as barrancas estão expostas”, explicou.
Hsiou também citou os desafios enfrentados durante a coleta de campo na floresta acriana. “A floresta densa encobre os afloramentos fossilíferos. Muitos afloramentos só ficam expostos durante a estação seca, quando o nível dos rios baixa e temos acesso às barrancas dos rios”, disse. Segundo a pesquisadora, o calor e as temperaturas extremas do verão amazônico também limitam o trabalho de prospecção, fator que ajuda a explicar a raridade dos fósseis de primatas na região.
Para Marivaux, cada novo achado amplia o conhecimento sobre a evolução do grupo, mas também abre novas questões sobre a origem e a dispersão dos primatas pela América do Sul. “Essa é a natureza da paleontologia: cada fóssil é uma peça pequena, porém crucial, de um quebra-cabeça muito maior. É por isso que cada nova descoberta na Amazônia representa um importante passo adiante”, afirmou. Ele acrescentou que a pesquisa na região acriana ainda está em estágio inicial e que o trabalho de campo contínuo deve ampliar progressivamente o registro fóssil da Amazônia brasileira.
Com informações do Jornal da USP

